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Índia: o que aprendi em dois meses vivendo por lá

Por
Lilian Kaori Hamatsu
Em
1 abril, 2019

As ambiguidades da Índia, um país onde os problemas podem ser vistos através de qualquer janela e a riqueza da herança cultural milenar prevalece em cada esquina.

De maneira paradoxal, abandonei todas as noções adquiridas durante uma vida de experiências e criei — ao longo de já nem sei mais quantos trajetos percorridos em riquexós, motocicletas, barcos, trens, ônibus e aviões — espaço para abraçar as ambiguidades da Índia, um país onde os problemas podem ser vistos através de qualquer janela e a riqueza de uma herança cultural milenar prevalece em cada esquina.

Não é o monumento que traduz em mármore o “amor do príncipe Shah Jahan pela princesa Mumtaz Mahal”, nem os vibrantes saris coloridos que envolvem o corpo das mulheres como casulos de borboletas e tampouco a maior indústria cinematográfica do planeta que fazem desse pedaço de Ásia tão inigualável. É claro que fica fácil se apaixonar pela arquitetura, por paisagens de natureza esplendorosa e pela infinidade de bibelôs que se pode levar para casa por preços ridiculamente baixos, mas tão essencial quanto essas experiências é estar preparada para enxergar a beleza de um riso frouxo e de um abraço apertado. Dito isso, me orgulho de não ter deixado sequer o aroma da samosa servida em uma barraquinha de rua na esquina passar despercebido, ou, até mesmo, a empolgação de um local ao me explicar sobre a folha com cinco sabores que dá origem ao principal tempero indiano.

Muitos veículos, vendedores ambulantes e pedestres. O trânsito é materialização da vida na Índia. Foto: Arihant Daga/Unsplash

Nenhum destino europeu te orienta a dividir tão pouco ou quase nada enquanto cultiva gratidão. Pouquíssimos políticos latino-americanos transferem a preocupação com um dos recursos mais preciosos do mundo, a água, para a população. Paralelamente, a preservação e continuidade de hábitos familiares é diariamente ameaçada pela incorporação de valores ocidentais na maior parte dos lares localizados no sudeste asiático e no Extremo Oriente. E em meio a esse cenário existe a Índia: um subcontinente composto por mais de um 1,3 bilhão de cidadãos que circulam por vias de trânsito caóticas e ruas tomadas por lixo, que respiram poluição, que enfrentam arduamente a desigualdade social, os debates acerca de questões de gênero, o conservadorismo, a corrupção governamental e que, mesmo assim, te farão compreender tudo aquilo que outras nações falharam miseravelmente em ensinar.

Essas são, ao mesmo tempo, impressões de viagem e palavras de encorajamento ao descobrimento do novo que é velho, do outro que faz parte de quem somos e da vida como ela poderia ser. Afinal, se a Índia tivesse signo, seria tão aquariana como a autora deste texto.

Embora sagrada, a vaca como parte do cotidiano passa até despercebida pelas ruas do país. Foto: Devanath/Pixabay

Após provar das belezas e amarguras de vinte destinos (Delhi, Varanasi, Sarnath, Agra, Jaipur, Udaipur, Jodhpur, Rishikesh, Auli, Mumbai, Aurangabad, Ellora, Ajanta, Kochi, Kottayam, Munnar, Bangalore, Hyderabad, Visakhapatnam e Goa) e experimentar uma pungente overdose de informações sensoriais, parece mesmo que voltei de uma luta contra Mary Kom, medalhista olímpica e maior lutadora de boxe do país: o corpo está em estado de recuperação e a cabeça inebriada pelas memórias. Não digeri tudo o que aconteceu, mas aguardo ansiosamente pelo próximo encontro. A seguir, o que aprendi em dois meses vivendo na Índia:

Mumbai, Maharashtra

Um dos principais cartões-postais de Mumbai, a Marine Drive é também ponto de encontro da galera jovem na cidade. Foto: Bishnu Sarangi/Pixabay

A maior cidade da Índia é uma versão pouco nova-iorquina de metrópole localizada em ilha. Depois de driblar a neblina que envolve Mumbai como um invólucro, fica fácil identificar traços de uma colonização britânica imponente em cada marco arquitetônico ou partida de críquete jogada por ali. Jovens universitários se reúnem em torno da Marine Drive para apreciar o fim da tarde e uma cena cultural interessantíssima se espalha pelas ruas: pelo que me disseram, esse é um lugar onde as pessoas moram, mas raramente nascem. Talvez seja por isso que a comida servida nos restaurantes não recebe a ardência do tradicional tempero indiano e o trânsito mal se assemelha ao caos de outras regiões do país. Diferentemente de Delhi, faz calor em Mumbai e os moradores são tão fervorosos quanto o clima. Por último, esqueça Bollywood. A essência da vida humana está nas favelas.

Marmiteiros, favelados e resilientes

Vista para a lavanderia Dhobi Ghat, a “atração turística” mais complexa da cidade. Foto: Herbert Hansen/Pixabay

No primeiro dia pela cidade, me inscrevi para um walking tour organizado pelo hostel onde estava hospedada e aprendi talvez algumas das mais importantes lições para a vida. Além de visitar monumentos, estações de trem e locações de filmes famosos, o voluntário que se disponibilizou a nos acompanhar nessa jornada fez uma escolha sábia no roteiro e, deste modo, fomos apresentados ao Dhobi Ghat: uma engenhosa lavanderia centenária onde os habitantes da favela ao redor trabalham e colocam em prática a vida em comunidade. Por ali, quase tudo é feito a mão, sem o auxílio de máquinas. Cada trabalhador é responsável por um estágio do processo e a clientela é formada por praticamente todos os moradores de Mumbai, do auxiliar ao empresário. Eis o primeiro ensinamento: na Índia, o dinheiro precifica o produto e não as pessoas.

De lá, seguimos rumo ao lar de uma das famílias que vivem na favela. Ao mesmo tempo simpática e comedida, a dona da casa de um cômodo nos convidou para almoçar. Sentamos em roda no chão da cozinha, espaço esse que também servia como dormitório, sala de estar e jantar. Entre um chapati e outro, ela nos explicou que o banheiro é externo e comunitário (mais de mil pessoas o utilizam todos os dias) e que para viver ali todos pagam aluguéis ao governo. A experiência já era interessante por si só, mas um barulho de sininho tornaria tudo ainda mais especial. Um homem vestido de branco e pilotando uma bicicleta esperava na porta por uma marmita. Não para ele, mas para o marido da senhora que nos recepcionou. Neste momento descobri um dos negócios mais fascinantes de todo o mundo: dabbawala, o sistema fordista de entregadores de marmitas. Com o fim do almoço, agradecemos pela refeição e seguimos o rapaz no intuito de desvendar aquele ofício tão inusitado.

Por uma quantia equivalente a dez dólares mensais, todos os dias um entregador busca sua marmita quentinha em casa e a deposita, perto a uma estação de metrô, ao lado de dezenas de outras lancheiras e sacolas, para que o próximo homem de bicicleta a transporte até chegar ao destino final. Após uma hora, outro “ciclista de branco” passa para retornar os potes vazios ao lar. É claro que a organização impressiona, principalmente por não contar com recursos tecnológicos e, mesmo assim, ser extremamente eficaz. No entanto, o ambiente ao redor impacta muito mais. A partir de um certo momento, chega a ser redundante dizer que a Índia é um país de contradições. Neste caso, vamos nos ater aos fatos: enquanto as marmitas ficavam por alguns minutos estacionadas ao lado da estação de metrô, sem rastreamento ou vigilância, inúmeros pedintes, crianças e adultos em situação de vulnerabilidade social, circulavam pela área. Pessoas em situação de fome que, acredito eu, quase ninguém julgaria por pegar uma daquelas trouxinhas de comida. Mas não pegaram, pois a crença hindu de que uma vida digna propicia, em uma próxima encarnação, no posicionamento em uma casta mais alta os mantém vivos e fiéis aos seus princípios. Sentimentos negativos como inveja, raiva, culpabilização do outro e vitimismo, embora humanos, me pareceram muito ocidentais após o choque cultural. É importante não romantizar a pobreza, a fome e a desigualdade, mas encontrar pessoas dispostas a encarar as dificuldades sem perder o riso espontâneo e a fé no coração iluminou a minha vivência.

Rishikesh, Uttarakhand

O Rio Ganges em sua essência: verde, limpo e reluzente. Foto: Jeevan/Pixabay

Quando o tema é espiritualidade na Índia, o imaginário coletivo de imediato associa as figuras de sadhus barbudos aos rituais à beira do Ganges, em Varanasi. Longe de Uttar Pradesh, estado onde está localizado o mais famoso local de culto ao hinduísmo no mundo, encontra-se a nascente esverdeada do rio sagrado. Ao seu redor, uma cidade de pontes luminosas, ashrams de muitos andares e viajantes de cabelo rastafári que procuram por sentido. Inclusive, só vai a Rishikesh quem está em alguma busca: seja por si mesmo ou pelo divino maravilhoso. Com exceção dos tuk tuks, nada mais lembra a frequência energética do resto do país. A comida orgânica é muitas vezes vegana, só se ouve o som de músicas para meditação e tigelas tibetanas, quase não há barganha e os dias correm na mesma organicidade das águas.

Intolerância e acolhimento

Representação de Shiva, um dos deuses mais cultuados pelos hindus. Foto: Devanath/Pixabay

Do alto de minhas mil e uma opiniões sobre o mundo e a vida em sociedade, fui convidada por Rishikesh a reavaliar meus pensamentos. Em outras localidades, ao me deparar com uma certa relação de culto entre demais indianos e os hijras, passei, por exemplo, a questionar as razões que levaram a Suprema Corte do país a adiar em mais de 150 anos a revogação do artigo 377, que criminalizava a homossexualidade. Afinal, para os hinduístas, como me explicou um amigo local, a comunidade trans, interesexual e alguns menores que se tornaram “eunucos” após sofrerem abusos sexuais são considerados sagrados, não possuem empregos e devem ser sustentados pela boa vontade dos fiéis. Deuses hindus, documentos e monumentos históricos também apresentam características homoafetivas ou de interseccionalidade de gênero. Em paralelo, esses cidadãos continuam a viver isolados dos outros por meio de regras sociais estabelecidas por qualquer um que não eles próprios.

Como em nenhuma outra cidade, vi no coração de Uttarakhand não somente hijras, mas todas as minorias, etnias e religiões conviverem harmonicamente em espaços públicos, privados e nas próprias relações interpessoais. Por lá, não havia barulho, indiferença ou indignação, apenas alunos de yoga aprendendo a acalmar os ruídos da alma sobre seus tapetes. Esse é o poder que Rishikesh teve em mim: uma espécie de materialização do que seria o útero da Mãe Índia.

Kerala

A vida passa devagar dentro de um dos tradicionais barcos que circulam pelas águas do Kerala. Foto: Ravi Shahi/Pixabay

Me arrisco a chamar o Kerala de pulmão da Índia, em comparação direta ao que a Amazônia representa para o nosso país. Tudo reluz e é verde: as árvores, as águas, os pratos e a vida. Quando cheguei, mal pude acreditar na quantidade de arte, natureza e manifestações culturais que existiam por ali. Há quem prefira aproveitar um dos retiros ayurvédicos, fazer alguma massagem ou relaxar nos barcos que navegam pelos córregos de Alleppey ou Alappuzha. Novamente, recomendo também prestar atenção em outros detalhes: nesse espaço de terra a colonização foi portuguesa, os moradores se chamam Marcos, Pedro ou Maria (o sobrenome, por outro lado, segue totalmente indiano) e a alimentação leva mais peixe, coco e manga do que carneiro e pimenta. O cristianismo começa a aparecer, as roupas são mais leves e curtas, não existem senhores sisudos e todos sorriem nas ruas. Segundo a minha descrição, se assemelha a um paraíso (ao menos para mim). E, de fato, é.

Baldinhos e o respeito ao meio ambiente

Trabalho duro em um ambiente leve: mais um entre tantos paradoxos do que é viver na Índia. Foto: Kyran Low/Unsplash

Por toda a Índia é possível observar a presença de baldes em chuveiros e mensagens de conscientização acerca da economia dos recursos hídricos pelas ruas do país. Outdoors implantados pelos governos locais pedem também pela colaboração dos cidadãos ao manter as vias limpas. Em um país com mais de 1,3 bilhão de habitantes e índices altíssimos de poluição, a preocupação é tão natural quanto necessária. No Kerala, além do banho de baldinho, comi sobre folhas de bananeira, colhi frutas e temperos, vi pescadores, massagistas e artesãos extraírem com as próprias mãos seus materiais de trabalho, bem como agricultores plantando novamente o que foi retirado da terra e donas de casa lavando roupas em rios. Abracei árvores como poucas vezes na vida e cultivei amizades inusitadas, femininas e empoderadoras. Mal parti e já quero voltar.

Goa

Praias, palmeiras, casinhas portuguesas e sol o ano todo. O paraíso fica na Índia e se chama Goa. Foto: Jess Aston/Unsplash

Para quem é boêmia nascida e criada em megalópole como eu, não há lugar mais bonito nesse subcontinente do que Goa. Praias, algumas poucas vacas, feiras hippie e uma vibe Burning Man do oriente. Nada melhor do que passar o dia não fazendo nada em um lugar que inspira juventude, calmaria e bons drinks.

Embora os restaurantes sejam em sua grande maioria mediterrâneos e ocidentais, dá pra sentir o toque indiano em cada sabor. A cultura do estado é plural, aberta e se transforma junto ao viajante que passa por ali. Você, definitivamente, não encontrará águas tão azuis quanto as do Caribe ou festas tão intensas quanto as europeias. Mas nada disso importa: alugue uma moto e se aventure pelas estradas de terra em Goa, sou capaz de te garantir que essa é uma Índia como nenhuma outra.

Protagonismo feminino

Em Goa você encontrará, nas praias e avenidas, o maior número de mulheres por metro quadrado do país. Foto: Alan Bedding/Pixabay

Pela primeira vez durante toda minha experiência no país, eu vi mulheres. Muitas delas. Mas não somente as vi ocupando espaços públicos e circulando pelas vias, como trabalhando, protagonizando, vivendo. Elas, nascidas na Índia, no Reino Unido ou na Bélgica. Elas, garçonetes, cozinheiras, recepcionistas, proprietárias de estabelecimentos, artistas. Elas, que em todas as outras cidades eram homens. Elas vestindo o que bem entendiam e falando o que pensavam sobre o mundo. Goa me fez sentir parte de um todo, representada, segura, em paz.

Debaixo dos belos arcos do City Palace, a vida em Jaipur parece plena. Foto: Jörg Peter/Pixabay

DICA FINAL: não deixe de visitar o Rajastão. Mais do que nuances de cor, há muitos tons de humanidade, tradição e cultura por ali. A arquitetura de Jaipur desperta uma curiosidade quase infantil em cada um de nós, enquanto a modernidade chega a Jodhpur como flor na primavera e a beleza da vida ao redor do lago continua intacta em Udaipur. Não deixe os números assustadores te impressionarem, a Índia é feita de miudezas.