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Isa Fornari conhece o Brasil levada pela cachaça (e quer juntar mais gente no bloco da cana)

Por Mariana Weber -

A paulistana Isadora Bello Fornari (@isadinha), 33, sempre levou bebida a sério. Na época da faculdade, ia pro bar com garrafa de cachaça boa dentro da bolsa pra não ter que tomar porcaria. Deu no que que deu: depois de seis anos trabalhando como publicitária, resolveu virar garçonete num de seus botecos favoritos (o Empório Sagarana, na Vila Romana) e estudar produção de cachaça. Hoje é uma das maiores especialistas no assunto, presta consultoria pra lugares que vão do Copacabana Palace ao Futuro Refeitório e viaja pelo Brasil pra espalhar a cultura do destilado. E, claro, beber. O interesse pelo universo etílico começou em casa. “Meu pai sempre gostou de bebidas boas e me apresentou várias: cerveja, uísque, cachaça... ”, diz a sommelière. “E eu elegi a cachaça desde o primeiro gole, foi uma conexão imediata.”

Pra Isadora, trabalhar com o destilado é um jeito de falar de muita coisa que vai além do copo. É falar de diversidade e identidade, de geografia e história, de outras bebidas e comidas. E é um caminho pro brasileiro se reconhecer mais como brasileiro — em vez de ser o que ela chama de “New York wannabe”. “A cachaça é um símbolo do Brasil e de como ele se relaciona com o que tem. É complexa, com muitas camadas sensoriais, e é negada”, afirma. “Muitos só viram brasileiros quando estão falando com gringo. Aí defendem a cachaça, dizem que é melhor que uísque. Mas no resto do tempo tomam caipirinha de vodca.”

Isadora defende a caipirinha de cachaça, mas seu drink de verão favorito é outro: 30 ml de cachaça envelhecida em amburana, 60 ml de espumante (de preferência um brasileiro, com boa acidez), uma pedra de gelo, uma frutinha pra completar (grumixama, jabuticaba, amora…). “Fica delicado, superleve e refrescante.”

No dia a dia, o que ela mais toma é destilado puro, só com uma pedra de gelo. E nunca em copo de shot — “Dificulta a percepção”. Em casa usa uma taça própria pra degustação, mas, no boteco, pede em copo americano, aquele bem sem cerimônia, que recebe de cerveja a café.

O que Isadora busca é sentir o gosto da própria cachaça. E viajar com ela. “Quando você prova, ela conta uma história. Entrega informações sobre onde foi feita e as pessoas que participaram do processo. É uma viagem em cinco segundos.”

Isadora faz também viagens mais literais. O trabalho a mantém na estrada. Neste ano já esteve no Amapá, na Paraíba, no Maranhão, na Bahia, no Paraná, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no litoral e no interior de São Paulo e na China, neste último destino como jurada de um concurso de destilados. Entre consultoria e palestras, vira e mexe consegue tempo pra visitar mercados, praias e botecos: entre os seus preferidos estão o Estepe, em São Paulo; o Krismara, em Juiz de Fora; e o Bar do Jegue, em Campos do Jordão.

Desde 2016, mantém também o projeto Travessias Brasil, que promove experiências gastronômicas pra “mostrar que o percurso importa, não só o destino”. Uma expedição de São Paulo até Tiradentes (MG), por exemplo, teve paradas numa fazenda que faz queijo de cabra; numa vinícola da Serra da Mantiqueira, com direito a churrasco de fogo de chão; num engenho de 260 anos mantido por descendentes de Tiradentes (aquele, Joaquim José da Silva Xavier) na cidade mineira de Coronel Xavier Chaves. No destino, um jantar dentro da sala de envelhecimento de um alambique recebeu os viajantes. Já uma programação em Salinas (MG) teve um almoço com a família Santiago, da renomada cachaça Anísio Santiago. “Conseguimos, após três meses de conversas, que liberassem pra degustarmos a branquinha, saindo do alambique, ainda quente. Algo que ninguém da família havia feito.”

O Travessias é uma parceria com o namorado, o também especialista em cachaça Mauricio Maia. Os dois se conheceram trabalhando. “Nos unimos pela cana e queremos unir cada vez mais pessoas”, diz Isadora, que recentemente juntou mais de 20 mulheres da gastronomia pra criar um blend para o bar Pirajá, de São Paulo. “A cachaça tem esse perfil agregador.”

Foto de abertura: Leo Feltran