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54 Horas em Jeri: tudo o que você precisa fazer antes e depois de um dos pores do sol mais bonitos do mundo

Por
Adriana Setti
Em
19 dezembro, 2019

Nos últimos anos Jericoacoara passou a ser páreo pra badalação de Noronha e Trancoso. Passar horas derretendo na rede dentro d’água e subir a duna gigante ao pôr-do-sol são atividades que agora dividem a lista de programas obrigatórios com day beds de tecidos esvoaçantes em beach clubs, brindes de rosé e noites bem animadas.

Longe vão os dias em que a luz vinha de geradores e a pequena vila à beira-mar vivia isolada de qualquer vestígio de civilização por um mar de dunas, nos confins do Ceará, lá onde o mapa do Brasil faz a curva (literalmente). Aquela Jericoacoara dos pescadores, que seduziu o jovem francês Olivier Anquier no final da década de 1980, quando ele resolveu atravessar o Atlântico e se estabelecer de mala, cuia e panelas pra abrir seu primeiro restaurante da vida, cresceu e apareceu. Boa parte das ruelas continua de areia, é verdade. A paisagem recheada de lagoas de águas transparentes e formações rochosas imponentes também está lá. O sol segue se pondo majestosamente no mar e o vento, soprando forte – atraindo cada vez mais kite e windsurfistas do mundo inteiro. Mas, nos últimos anos, Jeri passou a ser páreo pra Noronha e Trancoso no réveillon: piscinas de vidro transparente suspensas em varandas particulares de hotel, sunset parties com DJs badalados, vinhos orgânicos, receitas com espumas e texturas excêntricas. Caminhar até a Pedra Furada, passar horas derretendo na rede dentro d’água e subir a duna gigante ao pôr-do-sol são atividades que agora dividem a lista de programas obrigatórios com day beds de tecidos esvoaçantes em beach clubs, brindes de rosé e noites animadas. 

DIA 1

16h
Banho de descarrego

Pra chegar com o pé direito, vá direto dar um mergulho – de preferência, na praia mais perto da sua pousada ou hotel, que é pra não perder muito tempo e estar a postos para o primeiro programa obrigatório do dia: assistir o sol se pôr no mar em um dos seus camarotes mais estratégicos.

17h
Rumo ao formigueiro

O pôr do sol mais clássico de Jeri é visto do alto de uma duna de cerca de 30 metros que não sem razão se chama… Duna do Pôr do Sol. A formação, no canto esquerdo da praia principal da vila, recebe uma verdadeira peregrinação todos os dias, a partir das 17h. De longe, a muvuca mais parece um formigueiro. É mesmo um espetáculo digno dos aplausos que recebe: o sol vai descendo devagarinho até se esconder totalmente no mar, antes das 18h. Missão cumprida!

Duna do Pôr do Sol | Foto: Phael Nogueira/iStock

21h
Jantar à luz de velas

Um gramofone aqui, um estrado enferrujado de molas ali, uma porta de demolição mais adiante. Por todo lado, buganvílias e plantas mil, um mix de móveis com cara de antigamente, lindas peças de artesanato e velas, muitas velas. O quintal do restaurante Na Casa Dela é um charme, com direito a chão de areia e comida regional no capricho (há duas unidades, mas a clássica das clássicas fica na Rua Principal). Pra começar, tem bolinho de macaxeira com queijo e casquinha de siri. Depois as opções passam por peixes na churrasqueira, carne de sol e versões mais internacionalizadas como o risoto de funghi com mignon. Pra encerrar, vá de sorvete de rapadura servido sobre banana frita. Ou deixe o doce pra depois, durante um passeio pelo centrinho da vila.

23h
Rolê raiz

O centro de Jeri fica animado à noite, com aquele eterno astral de fim de semana no interior (só que todo dia). Aproveite pra se informar onde vai ser a festa da dia enquanto prova um sorvete que não faria feio perto da febre dos italianos que se espalharam pelas metrópoles brasileiras. Na Gelato & Grano, os sabores vão dos tradicionais pistache, cheesecake e doce de leite a versões mais nordestinas impossível, caso da de cajá, da de bacuri ou da de castanha de caju.

Pedra Furada: cartão-postal de Jeri | Foto: Patrícia Goya/iStock

DIA 2

9h
No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho 

Dois caminhos levam ao principal cartão-postal de Jeri, a Pedra Furada (a famosa formação rochosa à beira-mar, com um buraco no meio): um pela praia, que só vale quando a maré está baixa, e outro pelo Morro do Serrote. Ambos duram cerca de meia hora, sendo que o do morro exige um pouco mais entre subida e descida. Vale a pena ir cedo pra fugir do fluxo dos passeios de buggy, que lotam o lugar (e das consequentes filas para selfies). Com tempo, dá pra continuar pela praia e ver outros belos cenários semelhantes, caso da bonita Pedra do Frade. 

12h
Balada fit (ou nem tanto) na praia

Quer dividir a espreguiçadeira com corpos torneados que passam o dia inteiro pegando onda e vento? Então o seu lugar ao sol é o ClubVentos, um mix de loja de aluguel de equipamentos – kite, wind, SUP –, restaurante e bar de praia que é dos melhores pedaços à beira-mar de Jeri. A turma fit pode se jogar nos esportes e até fazer umas aulinhas. Mas quem é mais samba e cerveja (do que suor) também se dá bem por aqui. O almoço, com buffet de salada e de pratos quentes, é famoso. Entre as delícias, tem peixe assado em folha de bananeira, arroz de coco, moqueca, torta de salmão, risoto de alho-poró com limão siciliano…

Kite na praia em frente ClubVentos | Foto: Divulgação

17h
Ibiza é aqui

Ibiza? Mykonos? O mais próximo que você vai estar do clima dos destinos mais hypados da Europa está logo ali, a uns 300 metros de distância. No finalzinho da tarde, quando for chegando a hora do sol se pôr, rume para o endereço mais badalado da vila, com direito a apresentação de DJs internacionais e performances com vista do mar. No Café Jeri, néon, malabarismos e música eletrônica combinam com ótimos drinques e pista em plena luz do (fim do) dia. 

21h
Raio gourmetizador!

Grandes acontecimentos costumam ser divisores de águas em destinos turísticos. Em Jeri, o ano de 2014, por exemplo, foi aquele que viu as piscinas flutuantes de vidro do Hotel Essenza aterrissarem; 2017, o ano do aeroporto próprio; já 2019 foi o ano da alta gastronomia. Graças ao chef belga Hervé Witmeur, agora é possível se aventurar em menus degustação onde reinam espumas, texturas e combinações inusitadas de ingredientes, tudo com muita técnica e apresentação digna de estrela. A rua continua de areia, mas no Éllo prega-se a filosofia farm to table – aqui, no caso, sea to table seria mais apropriado – sob um teto de design que, através de ripas trançadas de madeira, lembra a forma das dunas locais. O projeto, assinado pelo escritório carioca Mareines, famoso pela arquitetura que privilegia as linhas orgânicas, é um espetáculo com direito a parede de verdes e chão com mosaico que lembra marchetaria. Entre os pratos, tartar de atum com sorvete de tapioca e wasabi, arrematado com chips de banana; lagosta com espuma de botarga; e ravióli de caranguejo. De sobremesa, é famoso o duo quente e frio, que mistura creme de chocolate e sorvete de caramelo salgado. Os menus degustação costumam ser compostos por seis etapas. Recomenda-se fazer reserva com antecedência.

23h
Onde a banda toca

Antes de se dar por vencido, vale dar umas voltas pelo centrinho pra assuntar a boa da noite. Se a ideia for voltar pro clima pé na areia, a pedida pode ser o famoso forró do restaurante Dona Amélia, no (óbvio!) Beco do Forró.

Café Jeri: drinques e pista em plena luz do (fim do) dia| Foto: Divulgação

DIA 3

11h
Praia de água doce

A praia mais gostosa de Jeri não fica à beira-mar. Aquelas fotos clichê de águas verdes transparentes, calminhas, com direito a rede molhada são todas feitas na Lagoa de Jijoca. Na época da cheia, ela é uma só, mas na seca ela se divide em duas: Lagoa Azul e Lagoa do Paraíso. Embarque numa jardineira rumo à segunda e encontre o seu próprio paraíso. Curte camas com tecidos brancos esvoaçantes que avançam água adentro, DJs, coquetéis e cantinhos concebidos propositadamente para ir direto para o Instagram? Então seu lugar é o Alchymist Beach Club. Prefere uma vibe mais tranquila debaixo de um cajueiro, com comida de primeira preparada por um italiano e quase ninguém na orla? Então vá direito para o restaurante da Pousada do Paulo e deixe o dia passar devagar.

17h
O homem deve voltar ao lugar onde foi feliz

Se não sempre, pelo menos aqui vale contrariar a máxima. Para aquele último pôr do sol de respeito, esteja a postos na Pedra Furada, especialmente se for ao longo dos meses de junho e julho, quando o espetáculo fica ainda mais mágico e o sol se encaixa milimetricamente no buraco da pedra. Aplauda mais uma a vez. E volte pra vila com a sensação de dever cumprido. Outro repeteco que vale a pena é o ClubVentos, que também fica animado no momento mais esperado do dia (pode rolar um forró arretado, cheque antes a programação).

20h
A última ceia

Um dos restaurantes mais queridinhos de Jeri, o Tamarindo já é um clássico local. O menu não poderia ser mais variado – tem de pizza e massas a carnes e frutos do mar. São famosos o risoto cremoso de polvo e o camarão de sotaque oriental. O grand finale fica por conta do pudim de pistache. Ou das caipirinhas feitas no capricho (prove a de siriguela!), imbatíveis para a noite nascer (ou morrer) feliz.

Foto de abertura:  Sébastien Goldberg on Unsplash