diversão & arte

Julio Secchin e seu Carnaval de palavras que conquistou o Rio

Por Fabiana Corrêa -

Julio Secchin é quase fanho. Quem diz isso é ele, não eu. Ainda assim não se furtou a passar oito meses preparando um disco que é, praticamente, sua voz. Festa de Adeus traz as contradições de sua vida e de seu momento. A faixa que dá nome ao disco sugere celebrar o fim de um amor. Em tom de bossa nova refinada, ele entoa: "Eu vou cantar/nem que seja pra cantar de dor/Eu vou cantar/a beleza de perder um grande amor". Assim como é esquisito meditar durante o desfile de Carnaval – e mesmo assim, foi o que ele fez. “Foi no meio de um desfile do [bloco carioca Cordão do] Boi Tolo, em 2017, que eu aproveitei pra pensar na vida e fazer essa mudança. O Boi Tolo é conhecido pelos longos percursos, deu tempo de pensar em muita coisa”.

Até então, Julio, 31 anos, nascido e criado na Zona Sul carioca, era diretor de videoclipes e estava pronto para começar um novo trabalho para uma agência de publicidade. Passada a Quarta-feira de Cinzas, ligou para o novo chefe e avisou que tinha desistido do cargo. O próximo videoclipe ele estaria na frente da câmera. “Olhando pra trás, quando eu estava filmando, parecia que tava todo mundo pulando na piscina e só eu de castigo, lá fora.”

julio secchin

Assim, em agosto de 2018, ele lançou a primeira música, "Bote". Mesmo com pouco menos de 1 minutos de duração e sem refrões, a música estourou e já tem quase 150.000 audições no Spotify. Em janeiro desse ano veio o disco todo – 8 faixas em 24 minutos. "Bote" não consta dele. Os arranjos foram feitos por ele e pelo amigo Daniel Sili, e fazem um pano de fundo tranquilo para suas letras. Palavras ditas por aí, sem muita preocupação, entraram nas composições. Enquanto os amigos falam qualquer coisa na mesa do bar, Julio está com o bloco de notas do celular aberto e anotando. “Outro dia meu amigo foi em uma festa cheia de mulheres muito jovens e disse que era um open bar de colágeno. Veja, eu sou hétero, cis, branco. Não posso usar a palavra ‘novinha’. Mas posso falar em um mar de colágeno, como em "Bote".

“Cantar foi me expor de um jeito que eu não estava planejando e foi bom pra enfrentar meus medinhos”, diz Julio sobre a masculinidade contemporânea que tentou imprimir nas letras e no jeito de cantar, quase como um viés social do disco. E não por acaso suas influências são Frank Ocean e Caetano Veloso, dois artistas que apresentam um jeito novo de ser homem. “Acabei dando nomes a sentimentos que meus amigos hétero não conseguem reconhecer, abri espaço para que sintam essas coisas que a gente ainda não sabe como. Não pretendo curar ninguém, mas se eu ajudar a sentir de outro jeito, tá bom”.