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Estela Miazzi: baleias imaginárias de uma artista real

Por
Rafaela Mercaldo
Em parceria com

Um papo que navega por mares nada óbvios, como pagar boletos e Romero Britto como fonte de inspiração.

Seria quase estratégia clickbait colocar no título as aspas da entrevistada “minha atual referência é o Romero Britto.” Afinal, o que a artista Estela Miazzi (@estelamiazzi) quer dizer quando cita o nome do conterrâneo tão famoso quanto polêmico? A entrevistada da vez cria sua obra inspirada pela profundeza da psique humana, mas sempre atenta para suas necessidades como mulher artista, aterrada no cotidiano real. Um mergulho num mar de dentro da gente, vem ver:

Quem é Estela Miazzi?

Uma mulher branca, cis, bissexual, artista visual independente e empreendedora da sua própria arte. Tem 32 anos, nasceu em São Paulo mas mora e desenvolve seu trabalho em Recife. Estela acredita que existe um mar dentro de cada um de nós e através de aquarelas cria baleias, mares e silêncios.

Quando você se deu conta que tinha veia criativa? 

Meu maior privilégio é ter sido aceita e incentivada a ser quem eu sou desde criança. Minha mãe se deu conta antes mesmo de eu saber o que era isso e me colocou numa escola Waldorf, onde pude crescer e desenvolver meu lado artístico e criativo. 

Quais foram seus primeiros contatos com os desenhos e a ilustração?

Minha mãe conta que, quando eu tinha pouco mais de 2 anos de idade, ela me levou para uma escolinha pela primeira vez. Eu entrei nesse galpão imenso cheio de atividades, larguei a mão dela e fui andando sozinha para um cavalete onde tinha tela, tinta e alguns pincéis. Sem nunca ter pintado com tinta, eu peguei os materiais e comecei a pintar. Foi ali que ela se deu conta que eu tinha uma veia criativa. Desde então, sempre desenhei. Desenhava no meu corpo, nas paredes, em tudo que era superfície. Sempre tive diários e, na faculdade de artes visuais, esses diários viraram cadernos com escritos e desenhos que traduziam o mundo.

Quais foram os primeiros e também os mais importantes projetos profissionais?

Um desses cadernos virou um livro. Em 2012, convidei diversas mulheres para escreverem um dia da vida delas e publiquei um livro que se chama maria. Esse foi meu primeiro projeto profissional e também meu trabalho de conclusão de curso. Cada arte que faço, cada produto que coloco no mundo é com muito amor, muita entrega, é uma parte de mim e, portanto, muito importante. Em 2019, participei do Festival Além da Rua em Fortaleza e pintei um muro e uma vela de jangada. Ver a jangada entrar no mar foi uma das minhas maiores realizações internas. 

Você costuma ter um tema principal ou recorrente?

Sim, tenho uma pesquisa sólida, uma estética reconhecida e o tema é sempre o mesmo: sobre o mar de dentro. É um recorte que pode parecer limitado porque, por exemplo, não vou fazer uma tartaruga, ou um tubarão, apesar de serem animais marinhos… Mas Estela, porque você faz baleias então? As baleias que eu faço são da natureza da emoção, elas são inventadas. As baleias representam esse lugar imenso, silencioso e de certa forma desconhecido. Claro, elas têm referências de baleias que existem, espécies catalogadas, mas são todas inventadas.

Quem são suas referências?

Agora vou falar uma coisa um pouco controversa: minha atual referência é o Romero Britto. Não pela arte, nem pela pessoa (ele não representa o que eu acredito socialmente e politicamente falando) mas ele é minha referência de negócio, de como a arte dele chegou nas pessoas e elas sabem de quem é. Não é a estética, é o caminho que ele cursou para se tornar o empresário que é. Ele é minha referência. 

E suas inspirações?

Como artista, eu tenho “lugares de inspiração”: o mar, escutar músicas, ler livros, bem clichê, mas minha maior inspiração é pagar boleto, é ter uma vida saudável, a saúde mental, física e financeira. Essa aura de artista é muito datada, que o artista tem que morrer pobre, que o artista não sabe lidar com dinheiro, que dinheiro não é coisa de mulher… Eu gosto de dinheiro, ele garante liberdade para fazer minha arte. Portanto, minha arte tem que me sustentar, assim como qualquer outro trabalho. 

O que podemos esperar como próximos projetos?

Meu sonho é fazer uma empena (lateral de um edifício), pintar uma fachada de um prédio. Colocar arte em espaço público, acessível, é uma das coisas que mais faz sentido pra mim. 

Conta um pouco sobre o trabalho escolhido para circular na plataforma LIVO?

Essa arte foi feita em 2020, quando estava explorando texturas e fundos mais preenchidos. Se você for olhar minha produção vai perceber que a maior parte das artes tem fundo branco — chamo esse fundo branco de espaço de respiro, espaço de tradução, ele é tão importante quanto a imagem pintada. No ano passado explorei uma estética mais carregada, uma sensação de preenchimento e ao mesmo tempo sem tanto lugar de respiro. 


Aos Inquietos

A LIVO acredita no poder das conexões. Que boas ideias são transformadoras. E que o mundo é colaborativo. Por isso, criou o canal "Aos Inquietos", junto com o The Summer Hunter, para contar quem são os criativos que estão circulando arte sob um novo ponto de vista. Onde? Nas flanelas que acompanham todos os óculos da LIVO é possível ver os trabalhos de gente criativa e inquieta. Gente de talento e visão. Vem ver. Leia todos os posts aqui.