Solar People

Como a fotógrafa Luisa Dörr foi de Lajeado para o mundo (com base num sítio na Bahia)

Por
Mariana Weber
Em
3 fevereiro, 2020

Ela já ganhou prêmios, fotografou para o The New York Times, fez 12 capas (de uma vez) para a revista Time e campanhas para Apple e Adobe, entre outras marcas – muitas vezes apenas com um iPhone na mão.

A história de Luisa Dörr, 31 anos, já foi noticiada como uma espécie de conto de fadas dos tempos de Instagram: descoberta no meio do bilhão de usuários da rede social, a fotógrafa gaúcha de repente foi convidada pela revista Time para clicar algumas das mulheres mais importantes do mundo. E foi isso mesmo, mas não apenas isso. Porque o acaso ajudou, colocando na hora certa uma foto dela no feed de Kira Pollack, diretora de fotografia da publicação americana. Só que essa imagem era uma amostra de como o olhar de Luisa já a tinha levado para longe de sua Lajeado natal (para Hong Kong, para Índia, para Itacaré…). Era também uma amostra de como as novas tecnologias estão transformando a fotografia — e não só a de Luisa.

Vá lá, o caso de Luisa é exemplar. Que ela seria fotógrafa, não era difícil adivinhar. Desde pequena brincava de fotografar com caixinhas de fósforo, queria câmeras de presente de aniversário, roubava a filmadora do pai para filmar as amigas. Estudou design gráfico porque era o curso mais parecido com fotografia que havia em Lajeado. E logo foi trabalhar retocando fotos e montando álbuns no estúdio fotográfico da tia, especializado em fotos de bebês, casamentos, books…

Luisa e o “pastor baiano” Cacau, em sua casa em Itacaré | Foto: Reprodução/@luisadorr

O passo seguinte foi se mudar para Porto Alegre. Lá estudou fotografia, arrumou emprego numa agência — fazendo do cafezinho à montagem de luz — e entrou em contato com profissionais. Como assistente de um deles, viajou a um festival em Canela. Então aconteceu uma daquelas coincidências que ajudam a formar uma boa história: “Lá conheci o [fotógrafo] Iatã Cannabrava. Na verdade, deixei cair livros em cima dele. Fiquei com vergonha, pedi desculpa, conversamos um pouco e ele falou que tinha uma vaga no estúdio Madalena [em São Paulo].”

Foi a brecha para Luisa se mudar de Porto Alegre para São Paulo. Na nova cidade, outra coincidência: conheceu um cara num bar, o cara era Frank Kalero, fotógrafo espanhol que tinha sido convidado pra fazer curadoria do festival Paraty em Foco. Os dois se apaixonaram e decidiram viajar. Moraram na Índia (onde Luisa deu aulas de fotografia numa escola), fizeram uma trip pelo Himalaia, sofreram um acidente de moto, emendaram com Hong Kong. Nessa última parada, a brasileira, junto com o amigo Navin Kala, investigou a cultura do selfie no ensaio The Self Promenade. “Foi publicado em vários lugares e me ajudou a conseguir trabalhos quando voltei para o Brasil.”

Os anos seguintes tiveram mais viagens com Frank ( Armênia, Peru, Espanha) e frilas. Em 2016, ela fotografava prostitutas nas Olimpíadas do Rio, para o jornal El País, quando o telefone tocou. Era a diretora de fotografia da revista Time a chamando para fotografar mulheres pioneiras em suas áreas nos Estados Unidos. “A Kira viu por acaso no Instagram uma foto de um projeto que eu faço há anos, sobre a Maysa [uma menina que a fotógrafa conheceu num concurso de miss infantil em 2014 e passou a acompanhar].”

Para Luisa, o Instagram tem a função de portfólio e de diário. “Minha memória é ruim, então lá consigo ver as pessoas que eu conheci, o que eu fiz, bons momentos.” Foram as fotos que a fotógrafa fazia com seu celular que chamaram a atenção de Kira, que quis replicar a estética no especial da Time. “O iPhone é uma ferramenta que eu uso bastante, ajuda a aproximar, porque todo mundo tem essa mesma ferramenta no bolso”, diz. “Eu fotografo diferente, a pessoa reage diferente.” 

“A fotografia é cada vez menos sobre técnica e mais sobre o seu olhar.”

Antes de viajar aos EUA, Luisa recebeu a missão de fotografar Dilma Rousseff, em meio ao processo do impeachment. Missão cumprida, assumiu o projeto Firsts. Era pra ser meia dúzia de retratos. No fim foram 46, 12 deles transformados em 12 capas da revista.

Luisa se viu com um telefone na mão diante de Hillary Clinton, Oprah Winfrey, Serena Williams, Sheryl Sandberg e outras tantas mulheres poderosas. E com pouco tempo e recursos para trabalhar. “Achei que seria mais mágico e fácil.” Na real, ela tinha que se virar no ambiente em que a personagem estivesse, com o humor que ela tivesse naquele dia, na brecha na agenda que ela disponibilizasse e com a luz que houvesse. A realidade dos bastidores se refletiu na realidade — ou naturalidade — dos resultados.

Falleras de Valência, na Espanha: 3º lugar no World Press Photo Contest 2019 | Foto: Luisa Dörr

A foto com Aretha Franklin quase não saiu porque a cantora ficou brava com a ausência de uma editora de quem era amiga. Já estava escuro quando cedeu alguns instantes à fotógrafa, que aproveitou a luz de um banheiro pra iluminar um canto da camarim. “Eu tive dois ou três minutos pra fazer a foto, foi bizarro”, lembra Luisa. “Ela ficou me ignorando 100%. Depois pediu para ver o resultado e aprovou com a cabeça.” O dia terminou com Aretha cantando para equipe — uma das últimas apresentações que ela fez antes de morrer, em agosto de 2018.

Não foi contos de fadas, mas o trabalho da Time mudou a vida de Luisa. No meio do caminho ela mudou também de casa: foi morar num sítio em Itacaré, na Bahia, com o marido, dois gatos, um cachorro, cinco galinhas, um galo e mais de cem árvores frutíferas.

Aretha Franklin para a Time | Foto: Luisa Dörr

Seu feed ficou mais solar. Sua carreira ganhou mais clientes, mais liberdade para escolher, mais reconhecimento. Ela ficou em terceiro lugar no World Press Photo Contest de 2019 por um retrato das falleras de Valência (garotas que participam de festas chamadas Fallas; colocou moradores de Itacaré numa campanha do Adobe Photoshop Lightroom; foi contratada pela Apple para documentar as cholitas lutadoras de El Alto (indígenas bolivianas que fazem combates encenados de luta-livre em ringues).

Nas cenas, a mulheres predominam. “Porque me sinto mais à vontade com o tema e também porque tento empoderá-las e contar suas histórias de uma maneira mais digna”, diz Luisa. Ela cita o exemplo das cholitas: “Quis retratá-las da mesma maneira que eu retrataria uma presidente, uma amiga, uma artista. Na verdade, as histórias são sempre as mesmas. O que muda é a perspectiva. A fotografia é cada vez menos sobre técnica e cada vez mais sobre o seu olhar.”]

Cholitas bolivianas: campanha para a Apple | Foto: Luisa Dörr

Dois olhares

Luisa indica dois perfis de fotógrafos pra seguir no Instagram

Prince Gyasi

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VALEURS — Le travail est un Art Series

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“Ele fotografa de iPhone porque não tinha câmera e mostra a África de hoje através de imagens lindas. Trata dos mesmos problemas de sempre, mas você tem esperança ao ver as fotos.”

Rena Effendi

“Ela trabalha com filme ainda. Amo a imersão que as fotografias dela me trazem. Parecem pinturas.”

Foto de abertura: Salvador/Luisa Dörr para The New York Times