Places

54 horas em Ciutadella de Menorca: revelamos o último segredo do verão espanhol

Por
Adriana Setti
Em
5 setembro, 2019

A meros 40 minutos de voo de Barcelona, Menorca ocupa um ponto fora da curva no Mediterrâneo. Praticamente vizinha da frenética Ibiza, a mais low profile ilha do arquipélago das Baleares é um daqueles raros lugares do planeta onde estranhos se cumprimentam nas trilhas e o sinal do celular nem sempre chega até a areia. Esse pedacinho de terra deve à história boa parcela de seus bosques e campos, varados por labirintos infinitos de muros de pedra. Parte do Reino de Mallorca no século 13, Menorca ainda tem nobres de carne e osso, que desfilam seus cavalos lustrosos na venerada festa de San Juan (parênteses anual para a loucura coletiva, na semana de 24 de junho). Donos de vastas propriedades de terra, esses duques e condes formaram um escudo contra a especulação imobiliária, até que a ilha finalmente foi tombada como reserva da biosfera pela UNESCO em 1993.

Ao mesmo tempo, uma espécie de blindagem cultural mantém a ilha fora dos modismos. Esqueça os beach clubs com day beds brancas e o brunch no café hipster. Mas renda-se, sem medo de ser outsider, a um bom gim-tônica. Colonizada pelos britânicos durante o século 18, a ilha assimilou palavras do inglês à língua local (uma variação do catalão) e aderiu à bebida bem antes de todos nós. Cidade mais antiga e charmosa da ilha, com 30 mil habitantes (um terço da população total), Ciutadella é o ponto mais estratégico para curtir o melhor da cultura, da gastronomia e das praias menorquinas, onde o nudismo é praticado com muito mais convicção que o postureo – atitude selfie, em espanhol.

DIA 1

18h
Pôr do sol com gim

Ver o sol desaparecer no Mediterrâneo é um ritual diário quando se está em Menorca. E há lugares espetaculares para fazer isso ao redor de Ciutadella. Oito quilômetros ao sul da cidade, o Cap D’Artrutx é onde o vento literalmente faz a curva, no extremo sudoeste da ilha. Há quem encare o costão de pedras indóceis do cabo improvisando um piquenique (neste caso, não esqueça uma garrafa de vinho branco Binitord, produzido na vizinhança). Mas sua lombar agradecerá o aconchego do bar Es Far D’Artrutx, em um farol do século 19. Cercado pelo mar, o lugar é ideal para bebericar o seu primeiro gin amb llimonada (gim com suco de limão, uma instituição), enquanto o sol tinge o céu de laranja, rosa e lilás. Quase cafona de tão belo.

21h30
Jantando com a nobreza

Sua chegada a Ciutadella será triunfal se, assim como os cavaleiros da festa de San Juan, você adentrar o centro histórico pela carrer de Sant Jeroni em busca do Moriarty. Instalado em um palacete secular, serve tapas e pratinhos finíssimos pra compartilhar. O salão tem pé-direito vertiginoso e majestosos arcos de marés (a pedra típica de Menorca), mas nada bate o pátio interno sombreado por uma colossal buganvília – faça reserva. De quebra, é um dos melhores lugares da cidade para tomar um gim (sempre ele) com tônica à tirado à perfeição.

DIA 2

Os barcos parecem flutuar sobre o mar de Macarella | Foto: Bruno Barata – Nuvem Lifestyle

8h
Barcos voadores na Macarella

Dê cabo na sua ansiedade indo direto à praia mais famosa da ilha. O único jeito de chegar lá por terra (e motorizado) de junho a setembro é com o
Bus2Macarella. Basta comprar o bilhete do ônibus, que parte de Ciutadella e tem ar condicionado, com dia e hora marcada. Uma vez lá, é preciso andar meia hora por um caminho íngreme até a praia da Macarella. Mas, como o pecado mora ao lado, na pequena e divina Macarelleta, dá-lhe mais sobe e desce até finalmente fincar o guarda-sol. O trecho final será um dos mais belos da sua vida, mirando nos paredões brancos de rocha calcária que avançam sobre o mar turquesa-neon. Atente para os barcos que, fazendo sombra através da água cristalina, parecem voar…

Ciutadella | Foto: Bruno Barata – Nuvem Lifestyle

12h
Rolê pelo centrinho

Cheia de vida e com uma efervescência cultural louvável para seu pequeno porte, o centro Ciutadella é uma delícia de lugar para flanar. Comece pela imponente catedral gótica do século 13 e perca-se pelas ruas forradas de casarões em tons pastel, até topar com o pátio do Monastério de Santa Clara, adornado por uma oliveira solitária. Aproveite o rolê pra comprar uma onipresente abarca, o hit do verão espanhol. A sandália típica da ilha é a locomotiva da indústria local de calçados, uma das bases da economia menorquina. Procure, também, por uma ensaimada (rosca doce) ou biscoitinhos da marca Cas Sucrer, em embalagens lindíssimas ilustradas pelo artista local Marc Jesus, famoso por suas mulheres azuis.

14h30
Pescadito frito com cerveja artesanal

Cercado por árvores de cítricos, o mercado de peixes de Ciutadella é um charme e abastece de produto fresco os restaurantes dos arredores. Mire no C’an Rafa e farte-se de lulas e camarões vindos direto da fonte. Mas deixe a última gelada para tomar no vizinho Sa Bona Birra, aquele bar de cervejas artesanais que você respeita.

16h
Queijos com história

As vaquinhas malhadas que você verá pelos pastos de Menorca não servem apenas para tornar o cenário bucólico. Saindo de Ciutadella a caminho da Cala Morell, pare quando vir uma torre no lado esquerdo da estrada. A Torre d’em Quart, do século 14, produz queijos com a denominação de origem Mahón Menorca, além de embutidos artesanais. Não deixe de experimentar o queijo curado, maturado por um mínimo de 150 dias.

Cala Morell | Foto: Bruno Barata – Nuvem Lifestyle

18h
Necrópole à beira mar

Habitada pelo menos desde a Idade do Bronze, Menorca tem uma série de sítios arqueológicos. Alguns dos mais interessantes ficam na Cala Morell, praia ao norte de Ciutadella que parece uma filial da grega Santotini, com suas casinhas brancas incrustradas no penhasco avermelhado. Em um dos pontos mais altos do paredão rochoso que cerca a praia estão os restos de um povoado de 1400a.C.. Com vistas impressionantes para o mar, a urbanização de Cala Morell ainda guarda uma necrópole do século 2, com 14 cavernas escavadas na rocha.

21h
O bastião da gastronomia local

A caldereta de langosta (um ensopado de lagosta) é o prato estrela da ilha e o melhor lugar para prová-lo em Ciutadella é o tradicionalíssimo Café Balear. Aproveite para curtir o agitinho low profile do porto antigo, escoltado por uma muralha altíssima e pontilhado de barquinhos tradicionais de madeira.

DIA 3

Cala Turqueta | Foto: Ramonespelt

8h
Por terra ou mar

Depois da Macarella, a cala Turqueta merece o troféu de praia mais pop dos arredores de Ciutadella. Não à toa, é preciso checar os painéis luminosos da estrada principal para saber se há vaga no estacionamento (caso contrário, acione um plano B). Você também pode contratar um passeio de barco pra driblar esse possível perrengue. Sete quilômetros ao sul de Ciutadella, a marina de Cala en Bosch é um verdadeiro supermercado de tours náuticos. Na Surf and Sail, por exemplo, dá para alugar uma lanchinha simples sem documentação especial.

11h
Quarteto instagramável

O quarteto de praias mais instagramáveis de Menorca se completa com Son Saura e Es Talaier. O estacionamento (também controlado via painel na estrada principal) fica perto da primeira, de onde é preciso atravessar um bosque para chegar à segunda. Se o parking estiver lotado, toque para La Vall (cujo nome oficial é Algaiarens), um achado ao norte de Ciutadella, guardado como segredo pelos moradores da cidade. A praia tem areia dourada cercada de verde, além de formações rochosas abruptas e avermelhadas. Não espalhe.

Paella com vista na Cova de Sa Nacra | Foto: Bruno Barata – Nuvem Lifestyle

15h
De trampolim na paella

Reserve uma mesa no Cova de Sa Nacra com pelo menos cinco dias de antecedência. O restaurante tem um terraço que literalmente paira sobre o mar, na minúscula praia de Santandria. Peça uma paella de marisco com um vinho Verdejo e, antes de iniciar o banquete, pule do trampolim no mar para esfriar a cabeça.

17h
Piscina natural

Procure a marcação de S’aigua Dolça no Google Maps, na Cala Blanca, e estacione o carro perto do acesso do Camí de Cavalls (a gloriosa trilha que dá a volta na ilha e pode ser percorrida a pé ou a cavalo). Siga por cerca de 10 minutos até encontrar uma verdadeira piscina natural em meio ao mar, onde o azul balear atinge seu máximo esplendor. O acesso é difícil mas, com botinhas de neoprene, é possível descer pelas pedras para dar umas braçadas. Passeios de barco também costumam parar por ali.

O gramado animado do Hola Ola | Foto: Reprodução Facebook

18h
Hipster pero no mucho

Num gramado de frente para o mar, na Cala Blanca, o Hola Ola é mais perto que Menorca pode chegar de ser hipster, com seus mojitos servidos no pote e décor à base de móveis vintage. Nos finais de tarde, é um dos picos mais badalados da ilha para ver o pôr do sol. E a coisa vai longe quando rolam DJs ou bandas ao vivo. A programação musical é finíssima e eclética, assim como a galera assídua.

Foto de abertura: Bruno Barata – Nuvem Lifestyle