Solar People

Do Leblon ao Cantagalo, ela democratizou o hip hop no Rio

Por
Anita Pompeu
Em
17 junho, 2016

Do camarote mais badalado da Sapucaí passando pelo pagode privê na casa de Paula Lavigne – com direito à ilustre presença de Mick Jagger – até os pagodes do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, pode apostar: Nicole Nandes é presença certa. Vai, e vai de coração aberto, sem meter marra, como gosta de dizer. Foi assim, aliás, bem de mansinho, que essa branquela platinada entrou no circuito da black music ganhando respeito e amigos. Tem como padrinhos de coração Marcelo D2 e o Tuca Bezerra, que deram carinho e cuidado ao apresentar à mineira então com 21 anos, recém-chegada ao Rio de Janeiro, o circuito do rap e do hip hop carioca. De lá pra cá, conquistou fama como hostess de casas lendárias como o Dama de Ferro e a 69, e fãs ao criar, há sete anos, a sua festa de hip hop Luv, febre numa escala de 0 a 10 da fama e do dinheiro. Agora quer menos badalação e mais cultura. E amor, sempre, de preferência a bordo do seu bonde, o bonde do amor.

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Como o rap entrou na sua vida?
Comecei a ouvir rap aos 13 anos. Eu morava em Minas Gerais, e um dos meus melhores amigos de lá me deu uma fita cassete do Public Enemy. Me apaixonei! Eu era o contrário das meninas da minha geração, nunca curti muito Menudo, essas coisas que a molecada ouvia. Sempre fui mais lado b, ouvia rap, reggae, Bob Marley, Faith no More, mas eu tive também uma educação musical muito boa dentro de casa. Minha mãe ouvia Nina Simone, Al Jarreau e gostava de cantar.

Você se expressa muito bem, é superarticulada, informada. Como foi a sua infância? Você nasceu em uma família rica?
Gosto de me comunicar e amo a língua portuguesa. Mas, assim, minha família é de guerreiros. Minha mãe se separou do meu pai cedo, numa época em que a mulher não se separava do marido, e sempre fez de tudo pra nos colocar em bons colégios. Só que em época de perrengues, cheguei a estudar em colégio estadual, o que foi a melhor experiência da minha vida, porque a partir daí comecei a ver o ser humano com respeito. E foi daí também que comecei a me relacionar com todo o tipo de gente.

Você, sendo branca e platinada, sofreu preconceito quando começou a frequentar a periferia e as festas de rap e hip hop?
Óbvio! O que é normal, né? Mas eu frequento o rap no Rio desde que eu vim morar aqui, aos 21 anos. Comecei saindo à noite numa festa chamada Zoeira, que acontecia na Lapa. E desde sempre meus melhores amigos eram o Tuca, que é filho do Bezerra da Silva, e o Marcelo D2. Cheguei na cidade e já fui amparada por dois amigos que eram do movimento.

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O que a sua festa Luv tem que as outras festas não têm?
O bonde do amor, que é o meu público. A gente é uma festa completamente descompromissada com o fator de “ser do rap”. A Luv, desde o começo, agrega todo mundo. Tem gay, tem branco, tem a galera do basquete, tem a galera do passinho, do baile charme, meus amigos endinheirados, tem famoso… Não gosto da coisa de tribo, e a Luv consegue ser uma autêntica festa do hip hop mas com gente que não é do hip hop.

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De todas as edições da Luv qual foi a mais marcante para você?
Pra mim, que trabalho com hip hop há dezoito anos, a mais marcante foi a festa de sete anos, no morro do Cantagalo. Para entrar, bastava levar 1kg de alimento não perecível. E se não levasse tudo bem também, todo mundo era bem-vindo, porque o objetivo ali era somar a coisa da cultura da balada com o lance social. A gente lotou a quadra, colocou 3.500 pessoas, levou os maiores nomes do rap como os DJs Saddam, Pachu e Tucho, entre outros. Arrecadamos uma tonelada de alimentos que ficou para as famílias do Cantagalo. Foi um sonho realizado conseguir realizar essa festa de hip hop social.

Além do Cantagalo, quais os lugares mais marcantes por onde a Luv já passou?
Eu estou sempre tentando descobrir lugares novos, inusitados. Fui uma das pioneiras a fazer festa no Vidigal, por exemplo. Bati lá na porta, na transição do tráfico com a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), e a galera do asfalto começou a subir o morro. Já fiz no Rampa; no Canecão com o show do D2; no morro Santa Marta… A ideia da Luv é levar amor e hip hop pra todos os lugares.

E quais novidades estão rolando neste ano?
Minha ideia é menos badalação e mais cultura. Quero que a Luv fique cada vez mais com o foco no hip hop social, porque rap é compromisso, como dizia o Sabotage (rapper morto em 2003). Tenho investido também na Mini Luv, uma versão menorzinha, para 150, 200 pessoas no máximo.

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Você tem alguma outra atividade paralela à festa?
Felizmente a marca Luv ficou tão querida que me proporcionou fazer outras coisas como trabalhar de relações públicas, criando lista de convidados, e discotecando. E na minha playlist rola de tudo dentro do universo da black music: rap, Jorge Ben, soul, funk… já fiz até uma festa só com samba.

E o que você ouve além da black music?
Jazz e samba . Adoro Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Cartola, Jovelina Pérola Negra. Gosto de samba antigo.

Pra onde você gosta de ir quando quer fugir das baladas do seu circuito?
Eu amo pagode. E tenho a necessidade de estar numa roda pra extravasar. A Paula Lavigne às vezes faz uns encontros na casa dela. Num dos últimos estava o Mick Jagger! São os momentos em que eu extravaso.

Você vai bastante pra São Paulo? Gosta da noite de lá?
Vou muito e adoro sair à noite. Vou à festa do Guigo, na Chocolate, na Lions… Na Sintonia, do Kl Jay, eu bato ponto, e vou também nos pagodes no Capão Redondo, que amo. Dou rolê igual faço no Rio. Conheço bem a cidade, e vou bastante até porque preciso. Na cultura hip hop, São Paulo é o berço, não tem jeito.

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De volta por Rio, qual a sua descoberta mais recente na cidade?
Uma coisa inusitada para mim tem sido a Barra da Tijuca. Sempre falei que não gostava da Barra, mas têm aparecido uns lugares legais por lá. Tem, por exemplo, uma roda de samba que um amigo meu faz aos domingos num lugar chamado Vitrinni. Tem também o Mar Beach Club, no comecinho da Barra, todo aberto, e, pra mim, um dos lugares mais delicinhas do verão. Outro dia fui à praia na Barra, na parte que eles chamam de K8, da galera de kite surf, que é bem legal.

Pra terminar: o que o Rio tem de mais inspirador para você?
Tudo! A beleza da cidade é incomparável. Aquela coisa de você estar numa praia maravilhosa, com um por do sol lindo, e poder de repente fazer uma festa. Tem coisa melhor do que você ter um lugar que é um cartão-postal pra você?

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