Solar People

A vida depois dos 60: de Ana Frango Elétrico a Rita Lee, o que faz brilhar o sol da cantora, compositora e guitarrista Lucinha Turnbull

Por
Lilian Kaori Hamatsu
Em
22 abril, 2020

Num momento do mundo em que todos devem evitar sair de casa — principalmente aqueles com mais de 60 anos — por conta da pandemia de Covid-19, resolvemos entrevistar 4 personagens que já passaram a casa das seis décadas para nos dar a receita de como ser solar. Ainda que reconheçam o surgimento de certas limitações físicas, eles estão longe da aposentadoria e seguem ativos nos palcos, ateliês e redações, surfando ou praticando ioga, aprendendo mais sobre o mundo e sobre si mesmo. E garantem: estão longe de conhecer por completo. Nesta semana, a cantora Lucinha Turnbull, 66 anos.

Enquanto não assume o papel de cantora, produtora, guitarrista (a primeira do Brasil), tradutora de palestras, mãe ou atriz — de lingerie no palco de um teatro, ela já chegou a interpretar a personagem Janet Weiss, imortalizada por Susan Sarandon em The Rocky Horror Picture Show (1975) —, Lucinha Turnbull se encanta diariamente com tudo que observa nas andanças de ônibus e metrô pela cidade. Duas vezes por semana, pratica lian kun — ginástica terapêutica de origem chinesa — e ioga, além de dar vida ao seu prazer maior: a música. “Quando era mais jovem, cantava até enquanto comia porque sou taurina e taurinos gostam de comer. Também chorava ouvindo gaita de fole e relembrando minha descendência escocesa. A música sempre foi um grande amor, é meu playground, onde me divirto, me inspiro e me protejo contra as maldades vigentes”.

Na contramão do que fazem alguns de seus colegas artistas, a cantora, compositora e guitarrista prefere não classificar o trabalho alheio e considera “toda forma de expressão muito bem-vinda”. Ao falar de suas inspirações, relembra o início da trajetória como musicista: “quando ouvi “I Want to Hold Your Hand” no rádio, aos 11 anos, não sabia nem quem eram os Beatles, se eram bonitos, feios, pretos ou azuis, eu só queria ouvir aquilo. Acho que minha mãe percebeu aquela obsessão e me deu o meu primeiro violão, que chamo de Horácio e está comigo até hoje. Lembro que o nome da loja era Eletroarte e ficava no final da Augusta, perto da Estados Unidos”.

Aos 13, Lucinha já tocava pandeiro na Capops [Cagando e Andando Para a Opinião Pública], banda formada entre amigos do prédio em que morava. Com 15, teve a oportunidade de assistir Luiz Gonzaga ao vivo e inúmeros concertos de música clássica no Theatro Municipal de São Paulo. Um ano depois, em solo britânico, marcava presença no histórico Show do Exílio, comandado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e a banda Núcleos. “Ruim foi ter ido embora de Londres e chegado aqui em plenos anos 70, com a galera gritando: Brasil, ame-o ou deixe-o”, conta.

De volta ao país, ela percebeu que viver só de música não era suficiente para arcar com as próprias despesas. “Fiz trabalhos ligados ao meio artístico, assisti festivais de jazz maravilhosos sem pagar nada e ainda mandava nos artistas: “hora do ensaio, estou esperando no saguão”. Tomava lanche com Joe Pesci, ajudei a criar repertório com Bobby McFerrin, estava lá dentro, ganhando pra isso e sendo criticada pelo mesmo motivo. Eu respondia: meu bem, você vai pagar as minhas contas? Sobrenome escocês não quer dizer que tenho castelos na Europa”. Em 1980 lançou um disco, Aroma.

E a vontade de fazer mais e fazer diferente segue pulsando. Um mini documentário com direção do Zé Mazzei e do Luiz Thunderbird está previsto para ser lançado neste ano. “Conta um pouco da minha história, com depoimentos de Tulipa Ruiz, Luiz Chagas, Guilherme Arantes porque somos meio primos, Lee Marcucci e Edgard Scandurra. Em breve também lançarei um acústico com Tony Penhasco e o Thunderbird, pessoas deliciosas, meus novos amigos de infância”, conta.

Aos 66: fora da caixa no presente, passado e futuro 

Não tente adjetivar Lucinha Turnbull, ela detesta definições e vai muito além do rock e da MPB: “na verdade, sou MPP, música popular do planeta”. A cantora transita entre a influência folk da antiga banda que integrava em Londres — ao lado de um casal de professores ingleses e um proprietário de loja de antiguidades sul-africano —, e a miscelânea cultural que diferentes gêneros musicais agregaram ao seu repertório. De Gilberto Gil e Rita Lee nos álbuns Refavela e Refestança, ambos de 1977, ao Cilibrinas do Éden, duo formado por ela e Rita alguns anos antes, Lucinha goza de uma extensa lista de colaboradores e fala com carinho sobre alguns deles: “fico feliz de ter me associado a pessoas legais e sermos amigos até hoje. Em 1969, na Inglaterra, o letrista da banda em que eu tocava já falava sobre ecologia, homossexualidade, a loucura dos carros e os direitos dos pedestres. Já o flautista, loirinho que só se vestia de azul claro e parecia um anjo, era Richard Court, que mais tarde vocês conheceriam como Ritchie. E lá também estavam Leila [Pinheiro], Liminha, Rita [Lee] e eu, quando montamos uma outra banda e começamos a tocar. Recentemente gravei uma participação no disco da banda Uma Enorme Perda de Tempo, da filha de um amigo meu, a Sophia Chablau, que parece muito com a minha avó e tem apenas 19 aninhos. E outra que é muito espontânea e natural, a Ana Frango Elétrico, que faz um show lindo”.

Aos 66 anos, Lucinha quer aprender as dinâmicas da cozinha vegetariana, se divertir na dança de salão, estrear no cinema — seu fascínio desde jovem, quando buscava o sobrenome escocês da família nos créditos dos filmes que assistia — e claro, cantar e tocar. “O veículo da música é o vento, você pode tentar prender em uma caixinha, mas ela entra por debaixo da porta, no estúdio e por onde você for”.

Por fim, uma pergunta: se toda manhã brilha o sol, mesmo que você não veja, o que é um verão perfeito pra você? “Quando você pode estar em um lugar sem muita gente, com uma praia limpa, podendo descansar, ler e tocar. Que não seja um verão escaldante da vida, sou paulista e filha de europeu, não consigo funcionar bem com muito calor. E claro, em boa companhia. O bom da vida é a troca, muito chato ficar com uma pessoa só, quero estar com um grupo de amigos e uma mesa de pingue-pongue”.