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Diáspora.black: como uma empresa de turismo e cultura negra se reestruturou na pandemia

Por
Luiza Sahd
Em parceria com

Viajando por mais de 15 países e 145 cidades antes da chegada do coronavírus, a Diáspora.black precisou transportar suas experiências para o mundo digital.

“A história da diáspora africana é a história das pessoas, suas travessias, buscas e realizações. A nossa história é inspirada por algumas dessas estórias que se cruzaram no Rio de Janeiro”. Assim, Carlos Humberto Silva, CEO e fundador da Diáspora.black, conta como nasceu sua empresa, em setembro de 2016. E é com o mesmo espírito realizador que ele segue criando espaços de conexão para que a cultura negra seja celebrada como merece no Brasil, apesar dos desafios impostos pela pandemia do novo coronavírus. “Viagem sem preconceito” é o lema da Diáspora.black, que agrega experiências de turismo, cultura negra, treinamentos e, agora, atividades online para todos aqueles que pretendem aprender algo além de receitas de pães no período de distanciamento social.

Idealizada a partir da troca de experiências entre Carlos Humberto e outros colegas que testemunharam situações de racismo no ramo turístico, a Diáspora foi criada, também, pelo desejo de reparar o apagamento histórico da memória negra. “O Brasil é o segundo país mais negro do mundo. Há 115 milhões de afro-brasileiros que não se veem representados dentro de diferentes cadeias econômicas e, sobretudo, no setor de turismo. Os roteiros, histórias e os profissionais não contemplam a cultura e os legados da comunidade negra”, diz Carlos Humberto. 

Carlos Humberto, André Ribeiro e Antonio Luz, sócios da Diáspora.black, além de Cintia Ramos | Foto: arquivo pessoal

Bom exemplo disso, conta o empreendedor, é o bairro da Liberdade, em São Paulo. Quem pensa nas luminárias japonesas, nas lojas e restaurantes típicos e em todas as marcas da cultura nipônica só conhece uma parte dessa história. A região, na verdade, ganhou este nome por ser uma das referências da resistência negra na cidade, que ainda está presente naquelas ruas na arquitetura, na musicalidade e na gastronomia. “Tem ali uma série de empreendedores trabalhando com gastronomia africana, afro-brasileira. Estes elementos não eram ofertados no trade de turismo”, conta.

Assim, a Diáspora.black abriu espaço para os profissionais de turismo e lideranças que sabem contar essas histórias. E se transformou em um marketplace para oferecer hospedagens em casas, hotéis e pousadas, além de roteiros em várias cidades para os visitantes interessados em conhecer melhor a diversidade brasileira e suas tantas identidades. As empresas também podem contratar treinamentos para melhorar seu padrão de qualidade para o consumidor negro e incluir a comunidade negra no turismo de base comunitária que faça sentido para essas populações. 

A iniciativa de Carlos Humberto ao lado dos sócios Antonio Luz, André Ribeiro e Cintia Ramos revelou uma enorme lacuna do mercado nesse sentido e logo se transformou em referência no ramo, atuando em mais de 15 países e 145 cidades pelo mundo. O melhor desempenho da empresa, acelerada pelo Labora, laboratório de Inovação Social do Oi Futuro, foi justamente durante o verão de 2019 para 2020, um pouco antes da pandemia afetar todo o setor turístico. Mas ficar parado não era uma opção para Carlos Humberto ou para os profissionais da imensa rede que a Diáspora criou. Por isso, a empresa “renasceu” nesse período crítico: eventos online como aulas de dança, gastronomia, filosofia e história foram o caminho encontrado para continuar conectando profissionais negros à comunidade interessada em suas histórias.

E ali eles puderam falar de temas como o amor, que se transformou em um curso online com três aulas e, segundo Carlos Humberto, bombou. “Recebemos uma série de relatos de alunos contando o quanto o curso foi revelador para entender as relações e como ele trouxe lucidez para encarar as situações da vida”, conta. As aulas de gastronomia quilombola também marcaram essa nova fase da Diáspora. “As pessoas saem muito mexidas em todos os aspectos porque, durante o curso, a liderança quilombola vai falando daqueles pratos incríveis – com ingredientes que a gente nunca imagina que são aproveitados, como é o caso da farofa de talo de banana, deliciosa. Enquanto cozinham, elas contam a história das receitas e da resistência quilombola”, diz o empreendedor. “Uma aluna, uma senhora de Brasília, nos contou que já fez esse prato duas vezes em sua casa e, em todas as vezes, fez pensando na dona Laura, professora da liderança quilombola que dividiu a receita. E é justamente esse tipo de experiência e troca que a gente quer promover”.

Pouco a pouco, as experiências online foram criando novas vias para que a Diáspora seguisse crescendo e se fortalecendo, além de garantir a geração de renda para que esses profissionais e comunidades continuassem seus trabalhos, passando suas histórias adiante. O que era uma possibilidade futura remota para a Diáspora acabou virando realidade em condições adversas. Mas as trocas online ganharam tanta força e alcance que vão continuar nos planos da empresa mesmo que o distanciamento social acabe. Essa é a prova, afinal, de que a internet também pode diluir barreiras quando mais precisamos compartilhar histórias significativas.

Foto de abertura: Divulgação/Festival Path

Histórias de Conexão

Se reinventar não é fácil, mas pode ser transformador. Aqui você encontra histórias inspiradoras de pessoas de diferentes partes do Brasil que por meio de conexões — sentimentais e da internet — transformaram suas vidas nesse período. Porque fortalecer laços com quem se ama nunca foi tão importante e necessário. Leia todos os posts aqui.