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Com celular na mão e pedais nos pés, a estratégia de Paloma Costa pra documentar as mudanças climáticas no Brasil

Por
Mariana Weber
Em
4 novembro, 2019

Ao lado de Greta Thunberg, ela participou da mesa de abertura da última cúpula do clima da ONU em Nova York

Tinha uma brasileira ao lado da ativista sueca Greta Thunberg na mesa de abertura da última cúpula do clima da ONU em Nova York, no fim de setembro. Era Paloma Costa, 27 anos, uma das criadoras do projeto Ciclimáticos, que percorre o Brasil de bicicleta pra registrar impactos das mudanças climáticas — e as adaptações que algumas comunidades encontraram pra lidar com elas.

Paloma não estava na ONU só por causa dos rolês de bike. Como parte do Youth Voices Working Group, também representava o Instituto Socioambiental (ISA), onde trabalha, e o Engajamundo, rede de jovens engajados em questões ambientais e sociais. Mas o cicloativismo certamente a ajudou no discurso — montado às pressas, porque a brasiliense foi pega de surpresa, quatro dias antes, pelo convite do secretário-geral da ONU, António Guterres, pra participar da abertura do evento com ele, Greta e o indiano Anurag Saha Roy. “Nós vivemos em um mundo dividido”, discursou. “Enquanto temos aqui as melhores mentes, ainda há pessoas fora daqui, e aqui dentro, se perguntando se a crise climática é real ou não. Bem, é.”

A brasileira conta que mostrou pra Greta seu muiraquitã — artefato amazônico em forma de sapo que é símbolo de sorte —, e que a sueca pediu que o amuleto fosse deixado virado pra elas durante a fala da mesa de abertura.

Desde 2018, Paloma, o amigo João Henrique Alves Cerqueira e outros ambientalistas munidos de bikes e celulares pedalam pra mostrar problemas e soluções envolvidos nas questões do clima. 

Num quilombo perto de Feira de Santana, na Bahia, eles documentaram como rios que eram usados pra irrigar roçados secaram. Ao mesmo tempo, viram como a comunidade plantava seguindo uma tecnologia ancestral, adotada pelos incas, que associa diferentes espécies, como milho, feijão, abóbora e árvores frutíferas, uma criando condições favoráveis para a outra. “As pessoas também falavam muito sobre o tempo das coisas”, afirma Paloma. “Por exemplo, o feijão que antes dava em agosto agora dá em dezembro ou não dá. Pra muita coisa tem que ir pra cidade comprar.”

“Ainda há pessoas se perguntando se a crise climática é real ou não. Bem, é”

Na Cantareira, viram o baixo nível da represa ameaçar quem vive do turismo.No litoral do Paraná, suaram no sol de janeiro, pegaram carona de barco, enfrentaram mutucas e escalaram pedras carregando bicicleta pra conversar com comunidades caiçaras e indígenas. Ouviram relatos de faixa de areia encolhendo, de mariscos sumindo, de queimadas e de chuva que agora vem menos espaçada e muito forte, causando estragos.

Na Times Square, em NY,  depois de abrir a Cúpula de Clima da ONU | Foto: Arquivo pessoal

Tudo isso com bikes muitas vezes emprestadas, depois de mobilizações via redes sociais. E aproveitando pra fazer propaganda desse meio de transporte.“Trocamos a gasolina por arroz com feijão e conseguimos ir tão longe quanto quisermos ir”, diz um post dos Ciclimáticos.

Paloma já adotou a bicicleta pra vida. Em Brasília, vai com ela pro trabalho no ISA e pra faculdade — ela está prestes a se formar em Direito, com um Trabalho de Conclusão de Curso sobre… participação da juventude em questões socioambientais.

Vê em Greta Thunberg uma inspiração pros jovens saírem às ruas. “Mas obviamente a juventude é superdiversa, então ela representa uma parte do nosso movimento; existem outras. Principalmente, ela chamou atenção pra pauta, que é o que a gente precisa num tempo de emergência climática.”

Fotos: Arquivo pessoal
Fotos de abertura: Reprodução/02 Filmes