Solar People

Ele faz samba e amor até mais tarde

Por
Eloá Orazem
Em
6 maio, 2016

Pode gritar, bater o pé e até castigar mais alto a panela, que pro menino do Rio e da rua, tudo é motivo de festa – e de samba. Pedro Salomão, 36 anos, carrega no peito uma bateria inteira, e desfila pela avenida da vida fazendo carnaval por onde passa. O cara, que já era mestre-sala da própria felicidade, nunca mais precisou de alegoria depois que Bento, seu primogênito, chegou para dar ao pai a harmonia que lhe faltava. Graças aos anos de prática atravessando a avenida de ponta a ponta, Pedro tem fôlego o suficiente para se dividir entre suas grandes paixões: o tatame – onde ganhou a faixa preta de jiu-jitsu, e a Rádio Ibiza (recentemente rebatizada de Rádio Ibiza Sensorial), empresa da qual é o fundador. A família e o samba nem entram na conta, porque para eles não há pedaços – Pedro, ali, é sempre inteiro. A julgar pela felicidade do filho, pelo carinho dos colega e pelo bem-querer de seus pares, o carioca nota dez só desfila de campeão.

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Da onde vem todo esse amor pelo samba, hein?
Como todo grande amor, esse também foi uma construção – mas que não me pediu esforço. Tudo começou na infância, que foi muito marcada pela figura materna. Minha mãe preenchia as noites com muita música. Ficávamos os dois, deitados na cama, num sarau particular. Meu pai chegava depois e ocupava o espaço que sobrava na cama. E, na época, tinha muito material físico ainda – lembro direitinho da capa do disco do Ney Matogrosso, por exemplo. Minha mãe sempre me mostrava as artes dos LPs. Ela tinha a discografia toda do Martinho da Vila. Naturalmente, fui conhecendo e me apaixonando mais e mais pela música brasileira, sobretudo o samba, que é regado de história. E eu queria saber o que estava atrás das músicas, porque as compuseram etc. Já era amor e eu nem sabia.

Então você foi à escola de samba pela música mesmo, não por conta da sua mãe?
Meus pais me levavam muito a shows. Meu pai sempre gostou de apresentações ao vivo, mas não foi isso o que me levou à escola de samba. Garoto crescido e criado na Zona Sul do Rio, meio playboy, não tinha amigos que curtiam o mesmo som que eu. Era pouca gente do samba. Mas com essa coisa de gostar do ritmo, com os meus 14 anos, eu conheci na praia a Luana, filha da Beth Carvalho, que até hoje é muito amiga. Eu era o único daquela galera que gostava de samba, então a gente virou irmão. A Luana trouxe ainda a Luciana, sobrinha da Beth, que acabou virando minha tia, uma parte minha – tanto que minha primeira empresa nasceu na sala da casa dela. Bem, essas amizades e esses presentes me levaram pela mão para tudo que é quadra e show de samba. A Beth é muito mangueirense. Como escola, nunca tive muito afinidade com a Mangueira, mas respeito muito a história dela. Meu coração é todo Portela, que está ligada ao samba de raiz.

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E daí rolou o convite para ser parte da escola…
Sou um carioca incorrigível. Daqui ninguém me tira: eu curto o réveillon em Copacabana e o Carnaval na Sapucaí. Quando a gente gosta tanto de uma coisa assim, a gente começa a investigar, a trocar figurinha e, sem querer, começa a entender da coisa toda. De tanto falar e pesquisar sobre, fui convidado a participar do Carnaval, digamos, “por dentro”: fui chamado para ser jurado; me colocaram como consultor de samba. Quando me dei por mim, já estava totalmente envolvido, no braço da escola, dentro da diretoria, me metendo onde podia e não podia.

E agora que você vê o samba tão olho no olho e tem bagagem de comparação, eu lhe pergunto: o samba continua puro?
Acho que a gente tem dois caminhos: primeiro, o samba nunca foi tão valorizado e difundido. Isso é uma vitória de um gênero que foi marginalizado por tempos. O funk também passa por isso. Aliás, eu diria que ritmos que têm mais proximidade com os morros passam por isso. Hoje eles têm uma oportunidade maior de permear outros nichos. O Zeca Pagodinho é cool na comunidade, no asfalto e na alta sociedade. O samba venceu essa barreira. Acho o máximo essa coisa da internet, do compartilhamento, do viral – e isso beneficiou muito o samba. Quem tá no samba, tá de alma, ama aquilo ali a ponto de confundir trabalho com lazer. O samba se propaga como embaixador da felicidade, da alergia. E da crítica social também, porque as letras são carregadas de mensagens e sentidos. Por esse lado, o samba nunca esteve tão bem.

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E qual o outro lado?
A questão da renovação. Imagina que alguém possa renovar o que os alicerces, as pedras fundamentais, fizeram? Acho que isso não vai existir nunca. Como é que você vai substituir a Dona Ivone Lara? Como vai substituir uma mulher de 94 anos que foi a primeira mulher a escrever um samba-enredo? Nenhuma outra mulher vai ser a primeira a escrever um samba-enredo! Uma mulher que ganhou o “dona” com 50 e poucos anos e não gostava do título, mas que assim era chamada pelo respeito que impunha, porque ela não bebia, não fumava e não falava besteira. Uma mulher que com 11 anos de idade fez a primeira melodia, que era uma música para um passarinho, o Tiê. E que foi cantada por Beth Carvalho quase meio século depois. Nunca vai existir uma outra Dona Ivone, assim como não vai existir outro Aniceto do Império, que foi um gênio na arte do versar, ou um Fundo de Quintal, que fez samba como uma banda. Ou seja, não dá pra esperar por uma renovação.

E qual o futuro do samba, então?
Como o samba foi muito tempo música de gueto, a gente tem a oportunidade de regravar. O Dudu Nobre, que é um sambista inteligentíssimo e estudado, de família letrada, regravou Carlos Cachaça e uma série de sambas antológicos com uma roupagem totalmente nova. Esse trabalho de resgate precisa ser feito. Existe a necessidade de recontar a história com quem está aí. E tem também a coisa da herança: a Mart’nália fazendo sucesso com a herança da família, uma baita de uma artista completa. Acho bacana ver a passagem de bastão do samba, acho bonito ver o que a nova geração está fazendo; uma renovação que já está acontecendo. O samba é o gênero que mais empresta artista. O rock é meio que cada um na sua, mas no samba um toca sempre com o outro. Uma coisa que está me agradando muito, algo que vai acontecer agora: a gente vive uma crise, o estado está falido. É um ano que as escolas não tiveram verba de patrocínio e eu acho que foi um Carnaval histórico, porque foi um Carnaval de verdade.

A falta de patrocínio não foi prejudicial, então?
Na minha opinião, os enredos deste ano foram os melhores da última década. Essa é a melhor safra de sambas-enredo. São Clemente, Imperatriz, Portela e Mangueira entraram com sambas maravilhosos. Martinho fez um samba lindo pra Vila. Samba, de fato, é inspiração. Você não pode tirar do gênero o que ele tem de mais bonito, e eu acho que tiraram isso do samba por algum tempo. As escolas voltadas mais para a comunidade e vivências, e eu gosto dessa coisa mais roots do samba.

Por que você acha que o samba canta tanto o Brasil? Tem tanto a ver com o brasileiro?
Acho que a gente tem uma herança africana muito forte. Como gênero, ele nasce com essa herança africana. Acho que essa coisa do batuque e do negro, da malemolência… o suingue que a gente tem não veio dos portugueses, né? E tampouco veio do índio. Outra coisa que pega na veia é o sincretismo religioso. O brasileiro vive demais isso: ele vai no terreiro, vai na igreja e depois vai ao centro espírito – e você não se sente mal em nenhum deles. Eu sou de família libanesa: pai sírio e mãe libanesa. Tenho amigos libaneses que não conseguem entender: você casou em igreja ortodoxa árabe e tem padrinhos judeus, como pode?, me perguntam. Vem pro Brasil que você vai entender, eu respondo. E é muito legal isso no samba, esse jeito descontraído de falar da fé. Esse distanciamento e essa quebra de tabu. O brasileiro é muito afetuoso, é o cara que já conhece e vira íntimo, e ele quer ser assim com Deus também, com a divindade, e eu acho que o samba traz isso.

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Das histórias que você conhece do samba, qual faz o coração bater mais forte?
Várias, mas têm algumas que marcam mais. O Monarco, que é o presidente de honra da Portela, foi guardador de carro, e ele conta que a música “Tudo Menos Amor”, que é uma das minhas prediletas, era um poema. O Walter Rosa escreveu e musicou a primeira parte, e ele musicou e escreveu a segunda parte. Um belo dia, ele estava cantarolando e olhando os carros, e o Martinho da Vila escutou e falou que ia gravar. E ele foi saber depois, pelos outros, que a música tava tocando na rádio e que o Martinho tinha mesmo gravado. Acho tão bonito testemunhar essa essência desses badulaques.

Ah, conta mais uma!
Tem uma ainda mais divertida, Eu estava na Jordânia, dirigindo, e fui parado no deserto. Esperto que sou, decidi falar com os caras em árabe, para ver se ganhava alguma simpatia. Estava acima da velocidade, e ele queria me multar, pediu todos os meus documentos. Tava todo ferrado quando o cara pediu para revistar o carro. Aí quando ele entrou, ouviu um samba tocando baixinho. Samba?, ele perguntou. E eu disse: é, samba!. E ele devolveu um sonoro: saaaaamba! Aí ele aumentou o rádio, quis tirar selfie comigo, cancelou a multa. Fui salvo pelo samba na Jordânia!

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E algum samba lhe é especial por motivos, digamos, mais pessoais?
Quando a minha mulher engravidou do Bento, eu colocava samba na barriga dela. E eu elenquei uma música que era a música dele, que é “Todo Menino é um Rei” [cantarola]. Escolhi essa canção porque eu sou de uma família árabe e minha vó era matriarca dessa família. Tinha muita mulher, porque os homens morreram muito cedo. Eram seis irmãs, a minha vó era a mais velha, e ela meio que ajudou a criar todas as outras. E, na família árabe, elas só querem que nasça um homem. Minha vó já tinha quatro netas, e não vinha nenhum homem. Então imagina: a matriarca sem neto homem! E eu fui o caçula, o último de todos. Quando eu nasci, já tinha promessa para tudo quando é santo: minha vó fez promessa para São Pedro – daí meu nome. A minha outra tia-avó fez promessa para São Judas, das causas impossíveis, aí eu tive que colocar Tadeu no nome. E outra fez promessa para Santo Antônio: tinha que nascer um homem. E então eu nasci, e eu era chamado de rei. Fui tratado como rei. Fiquei muito com essa coisa, e quando eu escutava essa música lembrava disso tudo. Quando meu sobrinho nasceu – hoje ele tem 23 anos – eu brincava dizendo que eu perdi o meu reinado. Os homens vão perdendo os seus reinados. E eu falava isso de “todo menino é um rei, eu também já fui rei” – eu cantava essa música na barriga da minha mulher.

E você acha que ele escutava?
Li uma reportagem falando que o bebê reconhece muito mais a voz do pai do que a voz da mãe. Então dizia que, se você falasse com o seu filho, ele reconheceria, mas nenhum pai lembra de falar com o filho na hora do parto, porque ele fica emocionado e só chora. Mas eu lembrei. Meu filho foi tirado da barriga e eu, mesmo emocionadíssimo e chorando muito, comecei a cantar a música “todo menino é um rei, eu também já fui rei”. E ele parou de chorar na hora! Fui uma das cenas mais emocionantes da minha vida.

Depois do samba, parece que a sua maior paixão é o Bento…
O Bento vem em primeiro lugar. Ele foi o maior presente da minha vida. Eu já sou pai há muito tempo, porque tenho sobrinhos. A coisa mais maravilhosa na minha vida são as minhas irmãs, a gente tem uma relação muito forte. Combinamos de criar as crianças juntos, e a gente levou isso muito a sério. O Bento foi muito esperado. Tínhamos tentado ter filhos outras vezes, e ele nasceu no auge do meu momento profissional. Eu estou passando por uma universidade dificílima, porque você precisa estar atento o tempo inteiro, a cada detalhe. O Bento me ensina todo dia. Faz dez anos que perdi o meu pai e eu nunca senti o meu pai tão presente como agora. O Bento está me ensinado até a ressignificar a minha relação com o meu pai. Meu primeiro compromisso de vida é ser pai. A empresa e a minha carreira ficam agora em segundo plano. Meu pai foi embora muito cedo, e eu posso ir também, então quero ter certeza de que eu vou curtir essa experiência por toda a vida. Meu dia passou a ter mais horas e eu passei a me organizar mais. Viajo muito, palestro muito e trabalho muito, mas fico muito tempo com o Bento também.

Qual o samba predileto do Bento?
Hoje, o que ele mais gosta é “Ciranda”, do Martinho da Vila. Outra que ele gosta muito também é “Candeeiro da Vovó”. E outras. Cantarola todas. Ele é sambistão!

Mudando um pouco de assunto, como é que nasceu a Rádio Ibiza?
Nasceu em 2006, quando se falava muito da crise do mercado fonográfico por conta da pirataria. Muita gente achava que esse mercado estava com os dias contados. Mesmo assim, lembro que no ano seguinte nunca tinha se tocado tanta música na história. E então fui olhar aquela crise de cabeça pra baixo. Virei a folha e fui entender o que estava acontecendo: estão fazendo mais músicas no computador, estão compartilhando mais nas redes, estão consumindo mais virtualmente… O cara faz e compartilha, isso coloca o artista no centro, que é o cara mais valorizado. Então, pensei, a gente vai ter mais artista no mundo e mais músicas sendo gravadas e compartilhadas; vou ter mais música como ferramenta de comunicação. As pessoas começaram a falar sobre música, mas alguém tinha que ensinar essa galera a falar sobre música. Alguém tinha que ensinar esse povo a utilizar todas essas informações. Começamos como um empresa que oferecia serviço de identidade musical: curadoria, trilhas customizadas…

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Começar assim, do nada, sem nenhuma referência prévia, deve ter sido difícil…
Foi muito divertido e muito meteórico, o que é engraçado, porque a gente não prometia nada, nenhum resultado. Nossas apresentações eram todas muito sinceras, e acho que isso fez a diferença na época.

E agora, para onde a Rádio Ibiza está caminhando?
Acabamos de comprar uma empresa de marketing olfativo. Agora somos uma agência sensorial. Passamos a ser Rádio Ibiza Sensorial. Ou seja, além do que as pessoas ouvem em mais de 3.000 pontos espalhados pelo Brasil, Estados Unidos, França e Japão, agora também vamos cuidar do cheiro desses lugares.

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