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Redley nos anos 1990: do Rio de Janeiro para o mundo

Por
Adriana Setti
Em parceria com

Com a economia turbinada pelo Plano Real, a Redley deixa de ser uma febre carioca para contagiar outras partes do país, em uma década marcada pelas expedições da melhor equipe de surf do Brasil e a parceria com alguns dos atletas mais importantes do cenário internacional, como os norte-americanos Shane Dorian e Christian Hosoi.

Os anos 1990 foram um período de fortes emoções no Brasil. A década começou com o confisco da poupança pelo Plano Collor, seguido pela renúncia do presidente e um grande enigma: quem matou PC Farias? Vidrados na MTV, recém-aterrissada no país, a juventude dessa época dançou ao som de O Rappa e Planet Hemp, chorou por Chico Science e viu o Brasil ser tetra na Copa de 1994 nos Estados Unidos. Enquanto o mundo curtia uma deprê ao som de Nirvana e de outras bandas do movimento grunge, a galera que pegava onda na Prainha e em Geribá estava mais interessada no som — do reggae do Yellowman e Steel Pulse à surf music de bandas australianas como Spy v Spy e Hoodoo Gurus — que rolava nas lojas da Redley, presentes em todas as regiões da cidade do Rio de Janeiro e em vários outros estados. Funcionando como uma embaixadora do estilo de vida carioca, nos anos 1990 a Redley também invade o asfalto, apostando no skate e apoiando atletas relevantes do Rio de Janeiro, como Miltinho e João Kabeção (1973-2020), e o norte-americano Christian Hosoi, um dos maiores nomes do cenário internacional. 

“Como paulista criada em Curitiba, minha primeira impressão foi a de que a Redley era muito moderna. Com aquelas cores diferentes, traduzia o lifestyle do carioca. A gente via Armação Ilimitada na TV, olhava para a marca e encontrava exatamente aquele mundo. O feeling era: isso é Rio de Janeiro”, diz Luciana Nigro, que foi designer da empresa a partir de 1990. O sucesso da fórmula, no entanto, não se limitava às fronteiras da cidade. Em meados da década, a Redley estava presente em todos os estados do Nordeste. Também tinha loja em Brasília e em Florianópolis, capital que acabou sendo mágica para a marca, pela sua conexão com o surf e a vida ao ar livre. “Nunca quisemos fazer produtos de nicho. Trouxemos uma estética gringa que ninguém oferecia, mas com uma abordagem de larga adesão. Queríamos multidões”, diz Thomas Simon, CEO da S2 Holding. Essas multidões, de fato, vieram. Nos fins de semana, quando as lojas eram abastecidas com novas mercadorias, filas quilométricas se formavam nos corredores dos shoppings, a ponto de terem que ser “domadas” por barreiras de ferro, como as utilizadas em grandes shows ou jogos de futebol.

Andamos de Redley

“Com o Plano Real, o presidente Fernando Henrique Cardoso colocou 50 milhões de pessoas com poder aquisitivo num mercado em que havia um desejo extremamente reprimido por produtos que iam de iogurte a roupas de grife”, diz Thomas. Enquanto conquistava o Brasil, a febre que nasceu na Zona Sul do Rio de Janeiro expandiu o seu alcance para todas as áreas da cidade, colorindo os pés da galera, do Posto 9 de Ipanema aos bailes das antigas, onde o lema era “Andamos de Redley”, funk do Mc Duda da Redley cujo refrão acabou virando o slogan extraoficial da marca do coração de todos os cariocas. “A Redley era objeto de desejo tanto na escola particular de classe média em que eu estudava, na Lapa, onde já se tinha a percepção dos produtos como uma parada premium, quanto para os meus parceiros de rua, que frequentavam os bailes funk. Lembro bem da galera do Furacão 2000, sempre de Redley da cabeça aos pés”, diz Aori Sauthon, MC, compositor e agitador cultural vinculado à cultura urbana no Rio de Janeiro. “Eram tribos completamente diferentes, que talvez não se falassem no dia a dia, para quem a marca representava um status e um estado de espírito. Acho muito interessante essa aceitação da Redley pela comunidade negra e pelo subúrbio, e como essa galera se apropriou de uma marca criada pro surf e o skate e ressignificou os mesmos produtos com um estilo próprio.” 

À febre dos tênis somou-se a dos novos pés-de-pato, lançados em meados da década. “Vendo que esses equipamentos vendiam bem desde o princípio, a Redley decidiu fazer deles a sua obra de arte”, conta o desenvolvedor de produtos Clemente Borges. Consultor da marca, o bodyboarder Alexandre de Pontes (1968-1993) acabou trabalhando dentro da fábrica. “Estudando a aerodinâmica a partir do usuário, analisando como ele batia o pé, o Xandinho teve a ideia de fazer um desenho invertido”, conta a designer Luciana Nigro, fazendo referência ao formato assimétrico que caracteriza o equipamento. “Os Redley Fins eram os melhores pés-de-pato do mundo”, diz Guilherme Tâmega, hexacampeão mundial de bodyboard, que conquistou seu primeiro título em Pipeline, no Havaí, em 1994, quando era patrocinado pela marca. “Ele foi desenvolvido do zero pela Redley e revolucionou o mercado em todos os sentidos. Até hoje nunca fizeram nada igual.” Mais de 15 anos depois do lançamento, os pares ainda são disputados pelos bodyboarders no mercado de segunda mão.

Do Rio de Janeiro para o mundo

Além de seguir atrelada ao bodyboard, nos anos 1990 a Redley patrocinava a melhor equipe de surf do Brasil, com nomes como Carlos Burle, Andréa Lopes, Guilherme Gross, Dadá Figueiredo e Victor Ribas, que foi fisgado do time da Company, a principal concorrente, causando frisson. “Era a equipe de ouro do Rio de Janeiro”, diz Andréa Lopes, que foi tricampeã nacional pela marca, além de entrar para a história como a primeira mulher brasileira a competir no circuito mundial. Expandindo sua influência além das fronteiras do país, a Redley chegou a patrocinar o surfista havaiano Shane Dorian e, no skate, o lendário norte-americano Christian Hosoi. “Trazer o Hosoi ao Brasil foi o maior bochicho. Ele chegou aqui com um séquito de malucos da Califórnia, bem fora do padrão de comportamento dos jovens brasileiros, que ficavam andando de skate dentro da loja”, conta Clemente, responsável pela “importação” do criador da manobra Christ Air. “Fizemos todos os tipos de produtos que você pode imaginar, de roupas a mochilas, passando por toalhas, bandanas, coolers, carteiras e tênis”, conta Christian Hosoi. A aventura global da marca também incluiu parcerias com shapers gringos, como o mítico Gary Linden, que veio ao Brasil fazer workshops e shapear “ao vivo” para a equipe de vendas. “O diferencial da Redley era fazer pranchas com vários shapers, de diversos estilos”, diz o shaper e surfista Dadá Figueiredo. Patrocinado entre 1989 e 1992, ele era considerado um dos atletas mais radicais da época, dentro e fora da água, atuando como o elo perdido entre a galera do surf e o movimento punk.

É Fantástico!

“A gente queria ser uma marca que trazia coisas inéditas. Então resolvemos investir em um conceito de expedições no exterior”, diz Clemente. As equipes exploraram lugares como Baja Califórnia, a ilha de Kauai, no Havaí, e o oeste da Austrália, fazendo com que a Redley entrasse para a história como uma das empresas pioneiras na produção de conteúdo de marca. “A Redley foi uma das primeiras a apostar em surf trips”, conta Victor Ribas. “As pessoas aqui nunca tinham visto surfistas brasileiros nesses lugares. Como tudo era inédito, os filmes acabaram veiculados no Fantástico”, explica Clemente. Depois de cada expedição, as lojas eram inundadas com mochilas, camisetas e outros produtos das Redley Expeditions.

Música na veia

“Além do pioneirismo na produção de filmes, os eventos de música que passamos a produzir também fizeram com que a Redley ganhasse notoriedade fora do Rio de Janeiro”, diz Thomas Simon. Em uma parceria com a Rádio Fluminense FM, firmada em 1997, a marca trouxe bandas como Hoodoo Gurus, Yothu Yindi, Midnight Oil e Men at Work para tocar ao vivo, no Metropolitan, no Circo Voador e em outros lugares icônicos do Rio de Janeiro, as mesmas músicas que faziam parte das trilhas sonoras das lojas. O festival, batizado de Australian Connection, também rolou em outras capitais, como São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.

A conexão com a música acabou resultando na criação de um selo. “A gente já sabia o que o nosso público ouvia, então propus à Sony Music criar a Redley Records, que inicialmente teve fitas de reggae, rock e surf music australiana, com bandas como GANGgajang, Hoodoo Gurus, Spy v Spy e Yothu Yindi”, conta Clemente. A aventura sonora teve uma loja própria em Brasília, principal berço musical do Brasil nos anos 1980, de onde saíram bandas como Raimundos, Legião Urbana e Capital Inicial. Além das fitas cassetes, vendia camisetas e outros produtos vinculados aos artistas que faziam parte das coletâneas. “Essa história rendeu muito, a gente vendeu fita pra caramba, os encartes eram lindos”, diz Clemente. Mais tarde, com a chegada do CD, a Redley chegou a patrocinar o lançamento de um álbum do guitarrista mexicano Carlos Santana.

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Redley 35 Anos: Sempre em Movimento

A marca que traduz o lifestyle do Rio de Janeiro está fazendo aniversário. Celebrando sua história, mas sempre olhando pra frente, a Redley criou este canal para contar como se reinventou de forma incansável desde 1985. Leia todos os posts aqui.
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