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54 horas no Rio de Janeiro: entre os clássicos e as modernices na capital do sangue quente do Brasil

Por
Adriana Setti
Em
21 fevereiro, 2020

Nem tudo continua lindo no Rio. Mas, quando os termômetros estacionam acima dos 30ºC, a metrópole carioca continua sendo a indiscutível capital do sangue quente do Brasil.

Em tempos de vacas magras e problemas gordos, jovens empreendedores vêm rebolando até o chão para reinventar algumas áreas do Rio de Janeiro. O melhor exemplo dessa reciclagem é Botafogo, que segura a taça de metro quadrado mais hipster do RJ, com padocas a la San Francisco, drinques criativos, veganices e noites longas. Ao mesmo tempo, a juventude artística se empenha em redesenhar o centro da cidade, com galerias de arte e bares cheios de personalidade. A seguir, 54 horas para viver o Rio, entre suas modernices e clássicos imortais.

DIA 1

18h
A primeira impressão é a que fica

A beleza do Rio de Janeiro é tão sutil como um soco no peito. E pode causar até falta de ar se a primeira imagem for o pôr do sol no Arpoador, arrancando aplausos desde mil novecentos e sunga de crochê. Caso prefira não esfolar o traseiro na pedra, acomode-o numa das mesas do Arp, o restaurante e bar do Hotel Arpoador. De fina estampa, tem cozinha pilotada pela chef Roberta Sudbrack e drinks da mixologista Néli Pereira (do paulistano Espaço Zebra). Peça um mojito da Amazônia e deixe a noite cair. 

21h
Que frango!

Para jantar em Ipanema sem rachar o cartão de crédito, mande ver numas tapas mediterrâneas ou num franguinho assado, carro-chefe do Le Pulê. O restaurante é uma das casas do fotógrafo francês Vassia Tolstói – tataraneto do escritor russo! – que, ao lado de um time de sócios, coleciona endereços de sucesso na cidade. E por falar neles, encerre a noite com umas taças no Canastra, o boteco de vinhos mais bombado do Rio, também nos arredores da praça General Osório.

DIA 2

A turma do Desbravadores Sup Team: treino logo cedo em Copa | Foto: Divulgação

6h30
Life is a beach

Comece o dia no mar, encarando um dos treinos do Desbravadores Sup Team, que acontecem às segundas, quartas e sextas, das 6h30 às 8h, no posto 6 de Copacabana. Se essa não for a sua pegada, vá para a praia e caminhe, nade, corra, pedale ou respire nas primeiras horas da manhã, o melhor momento do dia em Copacabana para quem não está de ressaca. 

10h
Sinal de fumaça

Um pedaço de areia para cada estilo de vida – e todo mundo junto e misturado. Assim é a vida praiana no Rio de Janeiro. Ainda que o menu da Zona Sul seja vasto, vale conferir a cena do Leme, um dos pedacinhos mais interessantes do litoral carioca que, nos últimos anos, virou ponto de encontro de feministas, roteiristas, jornalistas, mixologistas, abortistas, cronistas, skatistas e muitos istas em busca de um lugar mente aberta ao sol. O epicentro é a Rasta Beach, com direito toda a fumaça necessária para honrar o nome da barraca. 

Adega Pérola: clássico para todas as horas | Foto: Chico Cerchiaro

13h30
O mundo em Copacabana

O Rio vive uma contradição entre os abdomens bem torneados que circulam pela cidade e a quantidade de delícias calóricas acenando a cada esquina: bolinho de bacalhau, pastéis, frutos do mar, empada de camarão, chopp…  E você não entenderá a alma carioca se não se render a um dos restaurantes clássicos de Copacabana, como o Caranguejo e o Príncipe de Mônaco, ou a um boteco responsa, como Adega Pérola e Pavão Azul. Se a tradição não faz sua cabeça, o moderninho Salomé Bistrô, de um casal de franceses (ele, Gerard Giaume, é um dos sócios do Canastra, onde você bebeu ontem), é um porto seguríssimo de frente para o mar, no Leme.

16h
A vez de Botafogo 

Nos últimos anos, Botafogo viu brotar bares e cafés pilotados por jovens empreendedores que redesenharam o bairro (alô, gentrificação!) antes conhecido pelo comércio basicão e seus casarões antigos. Nas proximidades do metrô, o “Baixo Botafogo” é o epicentro da nova cena. Comece o rolê com um espresso tônica no CoLab, que também tem um vasto cardápio para todas as horas do dia e brunch diário. 

17h
Fenômeno gaúcho

 A Void começou como uma revista gaúcha que evoluiu para um mix de loja, conveniência, bar e restaurante. Segue sendo uma febre na cidade, mas tem em Botafogo a sua flagship store. Passe para ver o que está rolando e, se bobear, garimpar um tênis, um acessório ou um dechavador. Abriga a House of Food, cozinha aberta que recebe um chef por dia com a proposta de servir comida boa a preço justo. 

O quartinho do Quartinho: drinks e comidas memoráveis | Foto: Divulgação

18h
Pequeno notável

O Quartinho é um dos bares do momento. Diminuto e com jeito de casa do amigo hipster, é comandado pelo artista Jonas Aisengart, em parceria com Edu Mendes, proprietário do Café 18 do Forte. Os drinques são coisa seriíssima por aqui. Prove uma das variações de gim tônica e engane o estômago com um empadão de camarão com manga ou um bolinho de ragu de costela.

20h
Viagem pelo oriente

Com pegada oriental fusion, o South Ferro é a mais recente empreitada do chef nova-iorquino Sei Shiroma, que fez fama no Rio com a pizza de fermentação natural de seu Ferro e Farinha, no Catete. Viaja livremente pelos clássicos asiáticos, indo do ramen ao curry sem perder a compostura. 

22h
Fusquinha turbo

O Fuska Bar 2.0 nada mais é que um dos muitos botecos antigos que acabou surfando no hype do bairro. Reformado, ganhou um aspecto mais moderninho, mas ainda continua sendo apenas um bom pretexto para estar na esquina da rua capitão Salomão com a Visconde de Caravelas, onde uma multidão digna de bloco de Carnaval se reúne para beber cerveja e socializar. 

0h
Quilômetro zero

O Comuna foi um dos precursores da ascensão de Botafogo e continua sendo um bastião do bairro, investindo numa programação cultural intensa para não perder a majestade. De quinta a sábado, a rua Sorocaba se converte numa festa e o raio hipsterizador atinge até o Alfa Bar, antigo pé sujo invadido por barbudos de camisa florida nos últimos anos. 

DIA 3

Tartine com humus e vegetais orgânicos do Slow Baker: slow food saborosa | Foto: Divulgação

10h
Devagar, devagarinho

A caminho do centro da cidade, dê mais uma paradinha em Botafogo para tomar café da manhã ou brunch na The Slow Bakery. O pão sourdough de longuíssima fermentação fez a fama da casa, considerada a melhor padaria artesanal da cidade. Prove uma panelinha de ovo assado em cama de molho de tomate ou um queijo quente com banana. Arremate com um café impecável.

12h
Museu do ontem

O Museu da Amanhã é o maior ícone da reciclagem pré-olímpica, que deu nova cara à Praça Mauá. O edifício já esteve mais branco, as calçadas ao redor deterioram-se em progressão geométrica e a sujeira do mar da Baía de Guanabara chega a dar calafrios. Mas, apesar dos pesares, vale ver o edifício projetado pelo genial (e polêmico) arquiteto espanhol Santiago Calatrava e, ali pertinho, o lindo mural Etnias, do artista Eduardo Kobra. 

14h
Quem é que sobe a ladeira

Ao invés de render-se aos food trucks do Boulervard Olímpico e seus geradores barulhentos, suba a graciosa Ladeira do João Homem, no Morro da Conceição. Ladeada de casinhas coloridas que abrigam ateliês de artistas, também é o endereço do Imaculada. Mix de bar e galeria, serve “petiscos celestiais” como o Sacro Santo Bolinho, feito de arroz, recheado com linguiça e queijo, acompanhado de molho de goiaba. Se conseguir uma das duas mesinhas do diminuto terraço, você estará no céu. 

15h
Gentil carioca

Ícone da pompa que o Rio de Janeiro ostentou no passado, e dos problemas que tem no presente, o centro do da cidade vem sendo redescoberto por jovens artistas, que se valem de edifícios abandonados para instalar galerias e bares. Um dos ícones desses novos ventos é o café e bar Desvio. Sob comando de Thais Scot, Anna Pitthan e Bernardo Carvalho, da festa Dissolvë, a casa recebe os coletivos mais legais do Rio e enche a rua de gente. Também vale conferir o que está rolando na Gentil Carioca, galeria que recebe boas exposições e eventos. 

Desvio para o Centro: festa dentro e fora da nova casa | Foto: Wendy Andrade

18h
Tudo em um

O Selina da Lapa foi a primeira unidade da rede de hotéis panamenha no Brasil. Além de quartos, tem dormitórios coletivos e lofts, coworking, restaurante, um radio bar com curadoria da turma da Na Manteiga Radio e rooftop com programação de festas, shows e até aulas de yoga. Ponto de encontro de nômades digitais do mundo todo, é um sopro de otimismo no tradicional epicentro da boemia carioca, que andava pra lá de decadente. Passe por lá para ver o que está rolando e para tomar um drinque. 

21h
Dose homeopática

É no “clube recreativo” do selo Transfusão Noise Records, materializado na forma de um bar minúsculo, onde rolam os shows esporádicos da bandas mais novas e modernas do Rio. Minúsculo. Fique atento à programação pelas redes sociais. 

23h
Voo seguro

De música indie ao funk, de ensaio de bloco a metal, quase sempre há algo interessante rolando no Circo Voador, a casa de shows mais eclética, mitológica e agradável do Rio, parcialmente coberta por uma tenda de circo, e com um amplo espaço ao ar livre sob os arcos da Lapa. Quem leva um quilo de alimento tem 50% de desconto na “entrada solidária” para a maioria dos espetáculos. 

Foto de abertura: Praia do Arpoador por Jason Ortego on Unsplash