People

O que pensa Russo Passapusso, do BaianaSystem, sobre Bahia, Gil, mainstream e o projeto com Antonio Carlos & Jocafi

Por
Luciano Matos
Em
28 fevereiro, 2020
Em parceria com

Entre uma cervejinha e outra, batemos um papo com o cantor no Rio Vermelho, o bairro que recentemente ele adotou como seu em Salvador.

Aos 36 anos, Roosevelt Ribeiro de Carvalho, mais conhecido como Russo Passapusso, se tornou um dos nomes mais importantes da atual música feita na Bahia. Nascido em Feira de Santana, mas criado em Senhor do Bonfim, foi em Salvador que consolidou sua carreira. Começou a se destacar no sound system Ministereo Público e, no BaianaSystem, alcançou respeito nacional. No mais recente disco do grupo, O Futuro Não Demora, Russo inseriu suas influências da música brasileira, até então mais presentes no trabalho solo. Agora, também dedica energia a um disco que está gravando com a dupla Antonio Carlos & Jocafi, sucesso nos anos 1970 com a música Você Abusou. O primeiro single, Miçanga, acabou de sair.

Para o novo disco, o BaianaSystem meio que se isolou, foi para Ilha de Itaparica. Por que esse movimento? 

A gente tinha saído do Duas Cidades [segundo disco da banda], feito vários singles. Entrou naquele ritmo da indústria. Foi maravilhoso, mas precisávamos parar e pesquisar para ter um sentido de obra. Estávamos ouvindo muita música brasileira, querendo ser mais músicos de estúdio. Aí houve a ideia de irmos para a Ilha de Itaparica. Quando cheguei, eu conheci Felipe Brito, que é um desses jovens que conviveram com os historiadores  de lá e que começaram a dar aula para gente. Começamos a perceber que, na Ilha de Itaparica, em vez de estarmos parados, estávamos correndo. Ao mesmo tempo, a gente estava recluso do mundo virtual, não postava nem falava nada. Nos primeiros três meses foi agonizante. Mas vimos que esse era o processo do novo disco e que tínhamos que ter calma, esperar e deixar ele nascer na sua gestação natural.

Fotos: Matheus Thierry

Ali tinha uma coisa meio que de freio de arrumação?

A gente estava num buraco negro artístico-musical, cheios de ideias, de metades de músicas, de frases de efeito. Eu não mergulhava na poesia, mas eu tinha 500 frases que tinha pensado, tinha visto. A gente estava vivendo a frustração da correria da indústria, virando refém com nossa música. 

Vocês foram para outro caminho, apostaram num disco conceito que é completamente contrário ao que a indústria diz que deve ser feito hoje. 

Ultimamente, acho que os discos se afastaram um pouco da ideia de obra de arte. Porque ele virou um cartão de apresentação. Não é isso, seu disco não fala de você. Fala da arte, da música. Mas virou essa estrutura, a cultura da celebridade, a publicidade. E o Baiana sempre foi por um caminho paralelo. A gente queria descaracterizar o lugar, a pessoa. A máscara dizia algo que a gente não sabia bem o que era. E não saber é a grande parada porque aí você abre uma disposição para a música te dizer. Depois de dez anos, passamos a confiar mais nisso. Essa coisa de a pessoa virar celebridade musical deixou ela escrava da relação que tem com a música. A gente vai um pouco contra essa estrutura. Não porque a gente é legal ou porque é cabeção. É porque a gente gosta de fazer música.

Muita gente sai de Salvador para viver de música e vocês permanecem. Por quê?

Quando a gente foi para São Paulo, começou a adentrar nas estruturas de produção, mas dissemos não. Isso foi uma decisão muito dolorosa também, só que a gente precisava voltar, terminar a nossa arte. Eu sempre falo que acho a busca de êxodo maravilhosa, só que você tem que entender se a sua música está fincada em sua terra ou se não precisa dessa raiz para desenvolver um discurso coerente. Basicamente, se eu for para São Paulo eu perco o referencial, a identidade. Fiquei muito feliz que O Futuro Não Demora foi construído em Salvador. E a gente levou o Ganjaman para a Ilha de Itaparica, que é mais deep ainda. E esse disco sai com essa verdade toda. 

Você ainda consegue curtir a cidade?  

Amo, ave-maria, amo, amo, sofro e amo. Eu não pego mais buzu, eu ando de Uber. E as melhores músicas que eu fiz foram aqui, no ônibus. Eu preciso disso. Hoje eu tenho que me colocar na cidade. Antes eu era, fato, da cidade. Eu saía, dormia no ponto de ônibus porque não podia voltar. Ficava ali no World Bar, no Rio Vermelho, até de madrugada e fazia sound system no Bonfim. Hoje eu sou um observador. E, olha, eu tive que ir para a Ilha de Itaparica para poder salvar minha observação. Porque em Salvador eu não estava conseguindo mais. As pessoas olhavam para mim e me viam como Russo Passapusso. 

Qual a sua visão de Salvador hoje?

Atualmente, moro no Rio Vermelho. Nunca pensei que fosse amar tanto. Já morei na Boca do Rio, morei na Liberdade, no Pelourinho. O Pelourinho é um dos lugares que eu digo que tenho mais raiva hoje em dia, apesar de ainda adorar aquelas ruazinhas que dão acesso às vias principais, aqueles antiquários que não sei como ainda sobrevivem. Mas, olha, o que fizeram com o bairro, de como foi destruído o seu alicerce cultural, a sua identidade. Mas coisas mágicas ainda acontecem em Salvador. Também tenho um amor muito grande por Itapuã, algo que nunca se apagou.

O Baiana tem rodado o mundo e tocado com todo tipo de artista. Quem falta? 

Gilberto Gil… Gilberto Gil… e Gilberto Gil. Porque ele é tudo, né? Ele é a pessoa que me traz as coisas que eu pergunto. Eu sinto sempre uma semente de humanidade nele. E por causa das minhas referências. Gil trouxe Luiz Gonzaga, Bob Marley, essas coisas todas, punk. Ele já previu tudo. Tem Parabolicamará, por exemplo. Tudo isso ele já colocou de uma forma muito mágica. Gil por causa daquela coisa meio Louis Armstrong. Porque o planeta precisa entender e respirar o que ele está dizendo. 

Em que pé está o disco que você estava gravando com Antonio Carlos & Jocafi? 

É a missão de minha vida fazer esse disco com eles. Já faz uns três, quatro anos que estamos falando, compondo, trabalhando as músicas. Eu quero, dentro da minha vontade louca, lançar neste ano. Mas não quero que seja apenas um disco, quero que seja um documentário de tudo o que está acontecendo nesse processo, e tenho material para isso. Se eu te mostrar as conversas que temos por WhatsApp, você vai chorar de emoção. [nota: o primeiro single do projeto, Miçanga, foi lançado nesta semana. Ouça aqui].

O que ainda te move na música?

A força transformadora dela, capaz de aplacar a dor. Eu comecei a fazer música por causa disso. A dor saía e eu esquecia que estava doendo. O tempo parava e aí dava o ar meio de imortal. É assim quando estou tocando com outra pessoa que também está colocando a música como superior
e falando “meu corpo é só um instrumento”. Faz a gente esquecer o tempo e o espaço. A gente fica imortal. 

Fotos: Matheus Thierry

É nos botequins da cidade, entre os amigos reunidos em torno de copos de cerveja, petiscos e, com sorte, música boa, que mora a alma da boemia. O pessoal do dominó continua por lá, enquanto novos endereços pipocam pelas ruas do Brasil, provando que dá para se reinventar sem perder a tradição. A Bohemia gelada acompanha, mas o que importa mesmo são os encontros.