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54 horas em Santo André: o que fazer (e comer!) na capital baiana da boa mesa e do sossego

Por
Adriana Setti
Em
17 janeiro, 2020

A uma balsa de distância de Porto Seguro, na Bahia, Santo André tem a receita perfeita pra você desopilar: boas praias, ótimos restaurantes, pousadas confortáveis e um rio pra ver o sol se pôr nele diariamente.

Santo André é autor de vários milagres. Coladinho em Porto Seguro, o vilarejo ainda permanece imune ao turismo de massa, às barracas com música alta e às grandes redes hoteleiras. Isolado das agruras do mundo (e da feiura de Santa Cruz Cabrália) pelo rio João de Tiba, este oásis baiano também é capaz de conciliar seu jeitinho rústico com pousadinhas estilosas, hotéis de luxo discreto e alguns dos melhores restaurantes do sul da Bahia – a preços bem mais fáceis de digerir do que os de Trancoso. Não à toa, foi depois de nadar no mar quentinho, diante do farfalhar dos coqueiros, que os alemães massacraram a seleção brasileira na Copa de 2014 (o hotel Campo Bahia serviu como concentração dos algozes). A seguir, um roteiro de 54 horas para dar de 7 a 1 no seu estresse.

DIA 1

16h
Banho de rio, banho de mar

Um mergulho salgado. Outro pra adocicar. O fim de tarde é a melhor hora pra estar na barra do rio João de Tiba, que deságua no Atlântico transformando a pontinha de Santo André numa península (de manhã, o lugar recebe algumas excursões vindas de Porto Seguro). Sente-se à sombra de uma das árvores que enfeitam a praia e decida onde dar o seu primeiro mergulho de descarrego. Depois, curta o pôr do sol.

Deque do restaurante Gaivota: moqueca com vista pro rio | Foto: Ricardo Moreno

17h
Ode ao cajá

Decidir onde comer é um dos maravilhosos “problemas” de Santo André, que concentra uma quantidade surpreendente de boas mesas. Mas alguns endereços são fundamentais. Antes de anoitecer, chegue ao El Floridita (o restaurante da Pousada do Corsário), comandado pela chef Mikie Iwakiri, pra garantir uma mesa no terraço com vista pro rio. E celebre o privilégio de estar ali com uma caipirinha de cajá. Uma vez abertos os trabalhos, parta para um polvo (numa porção mais do que generosa) assado com batatas. Outra boa pedida para comer na beira-rio é o Gaivota, famoso por suas moquecas.

DIA 2

8h
Ultrapassando a barreira

Carlindo Pereira Reis reina soberano quando o assunto é passeio de barco. À bordo de seu veleiro Amazonas e com uma prancha de SUP a reboque, ele leva grupos de até 8 pessoas aos corais de Coroa Alta, de Araripe e também rio João de Tiba adentro. Se tiver que escolher apenas um dos passeios, prefira o Araripe. Mais distante e isolado, pra alcançar a sua piscina natural na maré baixa exige-se um caminhada sob afiados corais com o sol escaldante no coco. Vale a pena? Vale, muito. E diferente de Coroa Alta, onde há um entra-e-sai sem fim de embarcações com dezenas de turistas e som no talo, no Araripe o paraíso será só seu. Curiosidade: Carlindo também é a quem boa parte das embarcações de fora, inclusive a Marinha do Brasil, recorre na hora de navegar pelas águas da região. Reserve com antecedência no WhatsApp dele: 73 91421004.

Carlindo: ele sabe tudo sobre o mar (e o rio) de Santo André | Foto: Victor Affaro

14h
Nouvelle cuisine praiana

A melhor novidade do verão 2020 em Santo André é a inauguração da Maroca Praia, uma barraca turbinada instalada na praia de Santo Antônio, que promete “nova cozinha baiana”. E cumpre. O cardápio tem dadinhos de tapioca com camarões flambados na cachaça, arancini de moqueca de siri, vinagrete de polvo ou puã de caranguejo e uma mariscada de respeito. O banquete pode ser consumado em mesas à sombra de pequenos quiosques ou no gazebo que faz sombra pra mesas de madeira e espreguiçadeiras. A carta de bebida também é coisa fina, com drinques urbanos (como Aperol Spritz) incluídos na seleção, além de uma lista de vinhos.

16h
Relaxar é preciso

Num trecho de praia praticamente virgem, a Maroca fica próxima ao rio que corta a praia de Santo Antônio. Sucumba às suas águas avermelhadas e mornas, antes ou depois de uma necessária siesta. O lugar fica extremamente fotogênico na hora da maré baixa, o melhor momento pra caminhar e nadar nesse pedacinho da Bahia.

Espaguete com camarões, lula, polvo e mexilhões do Maroca Praia: melhor novidade do verão 2020 | Foto: Ricardo Moreno

20h
Pausa no dendê

Além de ser um lugar bacana para ficar hospedado sem gastar os tubos, a Pousada Victor Hugo funciona como ponto de encontro do vilarejo. De frente pro mar, o restaurante se abre pra um jardim imaculado, repleto de sofás e day beds esculpidos em colossais troncos de árvores. Há quem passe pra tomar um drinque (as batidas de frutas são divinas). Mas a pizza de forno a lenha é considerada a melhor do vilarejo e pode ser um bom contraponto a tanto dendê. Durante o dia, também funciona como beach club

DIA 3

9h
Um pouco de história

Menos de 40 km ao norte de Santo André, Belmonte é uma gracinha de cidade histórica à margem do rio Jequitinhonha. Seus casarões em estilo neoclássico e art-nouveau já viram tempos melhores, mas ilustram com dignidade o esplendor da era cacaueira na região. Uma boa surpresa por lá é o Museu das Cadeiras Brasileiras (MUCA), que ocupa a casa onde nasceu o arquiteto, escultor e designer Zanine Caldas (1919-2001). Seu acervo contempla peças de grandes designers nacionais. A curadoria é de Zanine de Zanine, filho de Caldas. Um segundo museu na cidade, com projeto do arquiteto Márcio Kogan, deve abrir as portas em Belmonte ainda neste ano. Fique de olho!

Peças de Gustavo Bittencourt, Sérgio Rodrigues e Ines Schertel, entre outros: um museu dedicado às cadeiras brasileiras na casa onde nasceu José Zanine Caldas, em Belmonte (BA) | Foto: Ruy Teixeira/Divulgação

13h
O império de Maria Nilza

Maria Nilza não é apenas uma chef de mão cheia. É um acontecimento. Instalada no ponto mais belo da praia do Guaiú, 6 km ao norte de Santo André, ela pilota seu fogão a lenha (o lugar não tem luz elétrica) e, entre um prato e outro, conversa (e gargalha) com os clientes, encerrando sua “performance” com a oferta de um trevo de quatro folhas, acompanhado de bilhetinho da sorte. A especialidade da casa é o arroz de polvo, coberto de batata palha e arrematado com uma rodela de tomate e alcaparras. Tem mesinhas na praia, além de um restaurante charmoso sob um quiosque. Para a siesta, atire-se numa das espreguiçadeiras dispersas no lindo jardim. O banheiro (sim, o banheiro) é um show à parte, com vasos sanitários ao ar livre, de frente pro mar, cercadas de cortinas esvoaçantes. Os mais recatados também podem contar com cabaninhas de palha cercadas de coqueiros.

15h
Mais rio. Mais mar

O restaurante de Maria Nilza fica de frente pro ponto onde o rio deságua na Praia do Guaiú. Aproveite a água cálida e calminha (ideal para fugir das ondas do mar, que podem ser fortes nesta praia) pra relaxar depois do almoço.

A outra margem do João de Tiba: balsa de hora em hora | Foto: Ricardo Moreno

19h
A segunda margem do rio

Diminuto e plano, o vilarejo de Santo André é perfeito para um rolê de bike. Você pode aproveitar a magrela, inclusive, pra ir até a balsa e, a pé, cruzar o rio. O melhor motivo para fazer a travessia é jantar no Trigo, um simpático bistrô que serve comida italiana no capricho. Tem vários tipos de massas artesanais e uma carta de molhos que varia conforme os humores do chef. Pra um jantar italiano sem cruzar o rio, aposte no Sant’Anas.

Foto de abertura: Victor Affaro