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Senhoras de biquíni: o corpo é livre nas lentes da fotógrafa Simone Marinho

Por
Mariana Weber
Em
3 março, 2020

Em 13 imagens, o projeto questiona como é envelhecer no Brasil, mais especificamente em uma cidade como o Rio de Janeiro, que valoriza a beleza ligada à juventude dos corpos expostos. Spoiler: não é fácil.

São 13 mulheres, de biquíni, fotografadas na areia do Leme, no Rio, com a orla de Copacabana ao fundo. Mulheres que vão à praia. Simples assim. Mas nem tão simples assim: a maioria delas tem mais de 60 anos; todas já passaram dos 50. São personagens do ensaio Senhoras de Biquíni, projeto da fotógrafa Simone Marinho que questiona como é envelhecer no Brasil, mais especificamente em uma cidade como o Rio de Janeiro, que valoriza a beleza ligada à juventude dos corpos expostos. Spoiler: não é fácil.

A ideia de retratar as senhoras de biquíni veio de um interesse pessoal sobre idade e passagem do tempo. “Estou com 47 anos, minha mãe vai completar 80 este ano. Comecei a olhar mais de perto para essa questão”, diz Simone. Tem também a ver com uma atenção para assuntos ligados à mulher e ao corpo que aparece em outros trabalhos seus — ela é pós-graduada em Fotografia Documental como Instrumento de Pesquisa Social e uma das fundadoras do movimento Fotógrafas Brasileiras, que reúne mais de 2.000 mulheres. “O corpo é político, não é só privado. Ele dialoga com o público.” 

Dayse Brasil, 63 anos | Fotos: Simone Marinho

Simone chegou a pensar em um projeto em que fotografaria a mãe. Mas ela não topou. Então, em 2017, leu no jornal sobre um protesto no Leme pelo empoderamento de mulheres maduras. “Todas nós podemos usar biquíni. A idade taí e passa, a vida taí e passa”, dizia uma manifestante de 81 anos. 

Um ídolo para a turma era Betty Faria, que em 2013, com 72 anos, virou notícia ao ser fotografada de biquíni nas águas do Leblon. Chamada de “velha baranga” e “sem espelho”, a atriz revidou: “Querem que eu vá à praia de burca, que eu me esconda, que me envergonhe de ter envelhecido? E a minha liberdade?”.

Simone procurou o grupo de manifestantes, formado por alunas de um curso de modelos de terceira idade, e as convidou para posar para o ensaio que questionaria como uma mulher madura na praia ainda causava polêmica. Elas foram, e as fotos ganharam espaço na Mostra SP de Fotografia, no Valongo Festival Internacional da Imagem, em Santos, e no VASA Project, jornal austríaco online de fotografia.

No caso do ensaio das senhoras de biquíni, a ideia era refletir sobre como “mostrar de forma pública os sinais que a vida traz”. Nos últimos dois Carnavais, Simone resolveu investigar outro tabu: os mamilos. Ou porque os mamilos femininos são parte íntima e os masculinos podem passear tranquilamente por aí.

De iPhone na mão, em 2019 foi aos blocos cariocas brincar e fotografar peitos masculinos e femininos no calor da festa carioca. “Não quis levar a câmera pelo risco grande de assalto e porque com o telefone fica mais intimista. E remete à estratégia feminista de artistas dos anos 1970 de fazer arte com o que você tem na mãos.” 

Marílice Carrer, 58

No ensaio carnavalesco, elas se despem, eles muitas vezes se vestem de mulher. “Na festa pagã, os limites ficam mais flexíveis. Fora dela, uma mulher quer faz topless na praia corre o risco de ser presa.” 

Simone, pessoa física, diz que lida bem com o próprio corpo, mas que não costuma usá-lo como instrumento de protesto ou comunicação explícita. “Não tenho nem tatuagem. Minha comunicação é através das imagens que produzo, não exatamente com o meu corpo.” 

Graciara Casimiro dos Santos Mello, 68

Neste ano, ela voltou aos registros de Carnaval, agora em São Paulo, onde está morando. Na capital paulista, começou também um novo projeto: “VI, VER o RIO”, em que busca em cenas da cidade um pouco da natureza carioca. Busca e encontra, seja em uma arara que come um coco aberto no asfalto (!), seja em um bando de pombas enfileiradas nos fios elétricos. Mais: apaixonou-se pelo céu paulistano — “Caminho olhando pra cima. As árvores são minhas guias”, escreve em uma legenda. 

O olhar também pode ser mais ou menos livre, dependendo de quem vê.

Saiba mais em: www.simonemarinho.com

Na foto de abertura: . Idalina Soares, 79 anos