viagem

Ela encarou piratas, prisões e assassinos de baleias para defender o meio ambiente

Por Ricardo Moreno -

Em 2012, a brasileira Vitória Veiga precisava visitar outras paisagens, ver novos horizontes, depois de um fim de relacionamento conturbado. O destino, sugerido e bancado por um tio, foi a distante Ilhas Faroë, um arquipélago formado por 18 ilhas – muitas desabitadas – localizado no Atlântico Norte, entre a Escócia e a Islândia. Vitória alugou uma casa na capital Tórshavn, cuja população é de cerca de 16.000 habitantes, e foi recebida de braços abertos pela comunidade. "Era convidada para aniversários infantis, ia a jantares de outras famílias, convivia com toda a comunidade", conta.

Fotografando e filmando para a série Viking Shores, do Discovery Channel, nas Ilhas Faroë, durante a missão em proteção às baleias

As Ilhas Faroë, que são um território autônomo da Dinamarca, mantém inalteradas algumas heranças culturais desde a época dos vikings. A mais polêmica delas é a matança, principalmente durante o verão, das baleias-piloto, que na fase adulta chegam a medir 8,5 metros de comprimento e pesar 2,3 toneladas. Trata-se de uma tradição ancestral que já não tem como objetivo alimentar a população ou usar partes do animal para criar vestimentas, mas sim um exercício de poder e virilidade que deixam os mares da região literalmente vermelhos de sangue. Conhecido por grindadráp, o cruel método de caça é bastante rudimentar: barcos partem do porto munidos de pedras, facões, ganchos e lanças. São cerca de 1600 animais assassinados todos os anos.

O detalhe é que Vitória nunca existiu. Quem se mudou para Tórshavn foi a jornalista, fotógrafa, documentarista e ativista ambiental Bárbara Veiga que, como voluntária da ONG internacional Sea Shepherd, infiltrou-se na comunidade durante dois meses a fim de colher informações para um documentário para o Discovery Channel sobre o massacre das baleias. A Sea Shepherd é considerada a ONG de proteção dos mares mais ativa do mundo e conta com a participação de milhares de pessoas. "Fiz amigos, criei laços", conta. "Mas não senti culpa nem sentimento de traição, mas a experiência me fez refletir profundamente sobre questões da condição humana", diz.

Durante a maior tempestade marítima da última década, na Nova Zelândia, retornando à Austrália, depois de tentar salvar baleias. E pessoas | Fotos: Bárbara Veiga

Essa é apenas uma das sete impressionantes histórias que Bárbara conta, em formato de diário de bordo, em seu primeiro livro, "Sete Anos em Sete Mares" (ed. Seoman), que será lançado no mês que vem. Bárbara já trabalhou no Fantástico e publicou seus trabalhos em fotos e vídeos em veículos como BBC, Vanity Fair, The Guardian e Los Angeles Times. Também foi premiada pela National Geographic pela exposição "Pelo Homem, Pela Natureza", que foi exposta em Paris, em 2011, e durante o Festival de Cinema de Cannes no mesmo ano.

Em Omã, mulheres caminham quilômetros e mais quilômetros em busca de água potável para nutrir suas famílias | Fotos: Bárbara Veiga

Como o título entrega, Bárbara passou sete anos vivendo no mar, ora a bordo de projetos de ONGs como Greenpeace, Sea Shepherd, Amazon Watch e Avaaz, ora navegando pelo mundo no seu veleiro Papaya, que dividia com o ex-namorado. Passou por 84 países, completou 50 cadernos de anotações e viveu experiências inesquecíveis – muitas delas traumática, como o dia em que trombou piratas no Golfo do Áden, entre a Somália e o Iêmen, ou as quatro ocasiões em que foi presa: numa delas, no Caribe, ficou confinada durante uma semana numa solitária. "O livro fala de aprendizados, dificuldades, dúvidas e muito amor. Deixei pra trás família, amigos, uma casa, a fim de lutar por algo que acredito e mostrar a urgência que esse tema pede. O importante é cada um, à sua maneira, agir em prol de todas as formas de vida existentes na Terra", afirma.

"Sete Anos em Sete Mares" tem lançamento marcado para os dias 19/3 em São Paulo, na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915), e 25/3, no Rio, na Livraria Argumento (R. Dias Ferreira, 417).

livro-barbara-veiga