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Como Carol da Riva aprende e ensina sustentabilidade na prática, na escola mais ecológica do planeta, a Green School, em Bali

Por
Adriana Setti
Em
2 dezembro, 2019

Na companhia do marido e dos dois filhos, a paulistana Carol da Riva aprende e ensina sustentabilidade na prática, no dia a dia da escola.

“Tem onda?”. Essa costuma ser a primeira pergunta que Carol da Riva, 42 anos, faz ao cogitar qualquer viagem. Mas, a despeito dos tubos de Uluwatu, foi a escola dos filhos, Tiago, 15, e Luísa, 8, que levou a fotógrafa a fincar a prancha em Bali, na Indonésia, ao lado do jornalista – e também surfista – Eduardo Petta, 49. Localizada nos arredores de Ubud, capital espiritual da ilha hinduísta, a Green School ocupa um complexo de edifícios de bambu cercados de verde, unidos por uma ponte que atravessa o rio Ayung. Além da arquitetura espetacular – que lembra um disco voador –, a instituição sem fins lucrativos tem um projeto educativo focado na sustentabilidade e em valores como empatia, integridade e noção de comunidade. “Definindo em poucas palavras, é centrada na inteligência emocional do aluno, não na matéria”, diz a paulistana. 

Uma das ‘salas de aula’ da Green School, em Bali: bambu como matéria-prima | Fotos: Divulgação

Carol e Edu aterrissaram Bali em 2011, “grávidos” de Luísa, depois de uma temporada de dois anos na Cidade do Porto, em Portugal, onde ele fez um mestrado. A ideia inicial era passar seis meses na Indonésia, destino da primeira viagem internacional do casal, em 1997, aproveitando pra trazer a filha ao mundo num lugar quente, enquanto Tiago aprendia inglês. “Mas, quando pisei na escola, vi que era um caminho sem volta”, conta. O desafio, a partir daí, foi pedalar pra pagar a mensalidade da Green School, que gira em torno de 1.000 a 1.500 dólares, dependendo da idade da criança.

Além de conseguir uma bolsa de estudos pra Tiago e, mais tarde, também à Luísa, o casal continuou fazendo reportagens de viagens encomendadas por revistas brasileiras, além de atirar pra todos os lados. “Nessa época, encarei de fotografia comercial a moda, até que, em 2014, quando já estávamos com a corda no pescoço, pintou uma oferta de emprego na escola”. Edu passou os quatro anos seguintes como tutor de adolescentes que vinham do mundo inteiro fazer intercâmbio em Bali (atualmente, ele é professor de esportes), enquanto Carol cuidava da parte operacional – de colocar comida na mesa a organizar atividades – da ecovila onde os jovens eram alojados, na qual a família vive até hoje. “De repente, nos tornamos pais de doze crianças, mas devolvemos todas inteiras e foi uma fase bacana, de muitos aprendizados”, conta Carol. 

Day surfing em Mentawai, Sumatra: “Tem onda?” é a primeira pergunta de Carol antes de decidir o próximo destino | Foto: Arquivo pessoal

Formada por oito casas construídas de forma ecologicamente correta, tendo o bambu como principal matéria-prima, a ecovila usa banheiros secos (o “conteúdo” é transformado em adubo) e está cercada por jardins comestíveis, em grande parte plantados com o suor de Carol. Toda a água consumida é tratada e devolvida ao solo, enquanto 80% da energia elétrica origina-se uma turbina eólica Vortex, instalada no rio Ayung. “Gerenciar a ecovila me abriu os olhos para o que é a vida sustentável na prática”, conta Carol. Foi nesse momento que ela se deu conta de que havia uma grande lacuna entre o que a Green School pregava e o que as famílias recém chegadas a Bali estavam fazendo. “Todo mundo vem com boas intenções, mas tem que passar por um longo aprendizado até conseguir, de fato, mudar o estilo de vida e o que consome”. 

Para acelerar esse processo, Carol passou a organizar cursos para os pais dos alunos da escola, convocando experts em permacultura, bioconstrução e outras práticas sustentáveis. “Ao invés de simplesmente erguer o forno de pizza que queria aqui na vila, por exemplo, organizei um curso de bioconstrução com adobe e fiz isso com a ajuda da comunidade”. Cada vez mais engajada na produção desses workshops, ela acabou assumindo a liderança do projeto The Bridge, a extensão da Green School para adultos. 

Além de funcionar como um coworking tropicalizado, num lindo galpão de bambu que se abre pra uma floresta, o lugar é uma plataforma de comunicação pras cabeças pensantes que orbitam em torno à escola. A “Green School atrai muita gente interessante e The Bridge é o espaço no qual conseguimos fazer essa conexão com a comunidade pra trazer experiências direcionadas”, diz ela. A agenda dos próximos meses inclui de seminário com a cineasta Alexandra Cousteau (neta de Jacques-Yves Cousteau) a workshops de ervas medicinais, passando por palestra sobre degustação de vinhos. Gunter Pauli (o “Steve Jobs da sustentabilidade”, autor de The Blue Economy), a ativista ambiental indiana Vandana Shiva e o sul-coreano Ban Ki-Moon (ex-secretário geral da ONU) foram outros nomes de peso que estiveram na Green School recentemente. Para tornar-se membro, há planos mensais (a partir de 85 dólares), semestrais e anuais, que incluem acesso ao coworking e atividades, além de descontos em eventos pagos à parte.

Mesmo antes de sair do Brasil, em 2009, Carol e Edu já haviam encontrado um lugar alternativo ao sol. “Assim que a internet chegou a Ubatuba, em 2000, fomos pra lá levar uma vida de nômade digital, o que na época nem tinha esse nome e era visto como um ato de loucura”, diz Carol. “Ainda bem jovem tive essa inquietação de querer viver perto da natureza”, conta a fotógrafa, cuja família esteve envolvida num projeto para fomentar a agricultura perene de espécies nativas na Amazônia na década de 70. “Nunca me conectei com os valores e os prazeres da cidade grande, nem vejo sentido nesse círculo de trabalho, consumo e trabalho, ou em ter ao invés de ser”, filosofa. “Lógico que gosto de ir ao cinema ou ao teatro, mas é a vida ao ar livre que alimenta a minha alma”. 

Hoje presente no México, na África do Sul e com previsão de abertura na Nova Zelândia no ano que vem, a Green School não nasceu em Bali por acaso. Recebendo 6,5 milhões de turistas ao ano e imersa numa crise ambiental, a ilha também tem seu lado B. “Conviver com a lotação e os problemas que isso gera nem sempre é fácil”, desabafa Carol. “Além disso, também estamos longe da família, num país onde nunca teremos essa sensação de pertencer e, no fim das contas, a escola nos devolveu pra um padrão de trabalho de segunda a sexta, que foi o que a gente sempre evitou”, desabafa. Mas a causa é nobre. Enquanto pais contemporâneos lutam pra arrancar o celular das mãos de seus filhos, Luísa vem sendo educada pra desenvolver amor pela natureza e Tiago já pede a palavra em encontros internacionais de jovens organizados pela ONU. No ano passado, o primogênito também passou 15 dias meditando e participando de atividades de desenvolvimento pessoal em Auroville, cidade no sul da Índia considerada um modelo de vida sustentável e harmoniosa. Nas horas vagas, a família segue em busca das melhores ondas. Uluwatu, afinal de contas, é logo ali.