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54 horas na Praia do Tofo, a meca do mergulho e do slow travel em Moçambique

Por
Adriana Setti
Em
27 outubro, 2019

Com meia dúzia de ruas de areia pontilhadas de pousadinhas e dive centers, o vilarejo de Tofo tem vibe de sul da Bahia (nos anos 1960!) e uma animada comunidade internacional entre os moradores.

Moçambique tem cerca de 2.500 quilômetros de costa à beira do Oceano Índico, a maior fábrica de paraísos tropicais do planeta. Mas, mesmo com praias perfeitas e alguns dos melhores picos de mergulho do globo, o turismo no país ainda é um bebê de colo. Ao sudoeste da África, este ilustre desconhecido só se livrou do domínio de Portugal em 1975, após dez anos de luta armada (o que explica a inusitada AK-47 na bandeira). E, como se não bastasse, a independência acabou conduzindo a uma guerra civil, que durou até 1994. Foi só depois da virada do milênio que começaram a pintar os primeiros mulungos (estrangeiro) em busca do sol – com altas doses de aventura. Quase todo mundo que viaja por Moçambique acaba ficando mais do que o planejado na Praia do Tofo, 500 km ao norte de Maputo – que podem levar mais de 12 horas de chapa (lotação). Com meia dúzia de ruas de areia pontilhadas de pousadinhas e dive centers, o vilarejo tem vibe de sul da Bahia (nos anos 1960!) e uma animada comunidade internacional entre os moradores. A seguir, veja como passar 54 horas maningue nice por lá.

DIA 1

19h
Parada estratégica

Quem chega ao Tofo a fim de se enturmar vai direto ao Branko’s. Comandado pelo figuraça sérvio que dá nome à casa, o restaurante é a barraquinha mais ajeitada do mercado, onde se reúnem mulungos residentes e viajantes. Entre goles de 2M gelada e dentadas num espetinho de vieiras, aproveite as mesas coletivas para engatar num papo com um mergulhador profissional (o conservacionista sul-africano Michael Rutzen, conhecido como Sharkman, é habitué) ou um membro dos Médicos Sem Fronteiras de férias. Se estiver rolando festa no hotel Tofo Mar ou na pousada Fatima’s Nest, é aqui que você vai ficar sabendo dela. 

DIA 2

6h
Mata-bicho com força

Cheia de malemolência, a versão moçambicana do português (temperada com palavras africanas e termos em inglês) é uma atração à parte. Comece o dia com um “mata-bicho” reforçado no Beach Baraca, no mercado, onde os mergulhadores forram o estômago antes de cair na água, com altos sucos e receitas saudáveis.

Tubarão-baleia: atração de julho a outubro | Foto: AndamanSE/iStovk

7h
Gigantes do mar

De julho a outubro, a baleia-franca-austral, a baleia-jubarte e o tubarão-baleia vão de rolê pela costa de Moçambique em busca de águas cálidas. As gigantes engrossam o couro da fauna marinha local, formada por multidões de arraias-jamanta e tubarões-baleia, que convertem a praia na shangri-lá do mergulho. Para aproveitar as imersões no Tofo, é preciso ser experiente, já que os melhores picos são profundos (mais de 30m), e vencer uma arrebentação nervosa com o barco. (Dicas para os mergulhadores: certificado para Nitrox é fundamental. Também é bom estar preparado para entradas negativas e intervalos entre imersões em alto-mar, em lanchas pequenas, o que nem todo estômago aguenta). Quem não é certificado, ou não tem muita experiência, pode avistar os animais em safáris oceânicos. Ou seja, em passeios de barco focados em procurar a bicharada na superfície, para não mergulhadores.

14h
Almoço de frente pro Índico

Há bons dive centers na Praia do Tofo, como Tofo Scuba, Diversity Scuba e Peri-Peri Divers. Mas o melhor restaurante é o do Liquid Adventures, onde fica o vegetariano Happi (na foto abaixo), que serve receitinhas incrementadas de frente para o mar.

Samosas recheados de batata e espinafre acompanhados de salada de kale e quinoa do vegetariano Happi | Foto: Facebook

16h
Dolce far niente

Fazer simplesmente nada é fundamental para entrar na atmosfera deliciosamente vagarosa da Praia do Tofo. Balancinho na rede aqui, mergulho no mar acolá, conversinha mole do vendedor de capulanas (tecidos multicoloridos usados para roupas, bolsas, cangas, carteiras e outros badulaques), futebol com os bradas da praia… E assim segue a vida.

DIA 3

8h
Surfe solitário

Ao sul da Praia do Tofo, a praia do Tofinho é ainda mais tranquila (e roots) que a sua irmã. Ali quebram as melhores ondas, quase sempre para pouquíssimos surfistas. Para chegar lá, alugue um quad. Se precisar de prancha, descole uma no The Surf Shack, que também funciona como escola de surfe.

Tofinho, as ondas mais tranquilas – e roots – de Tofo | Foto: The Surf Shack

14h
Pelô horizontal

Aproveite o quad para dar uma chegada no centro histórico de Inhambane. A 20km da Praia do Tofo, é uma das cidades mais charmosas e antigas de Moçambique, com seus casarões decadentes em estilo colonial português, pincelados de influências árabes e indianas – marcas dos tempos em que o país era um importante entreposto comercial entre a Europa, a Ásia e o Oriente Médio.

O centro histórico de Inhambane | Foto: nicolasdecorte/iStock

19h
Lagosta é banal

Com clara influência indiana, a culinária moçambicana é saborosa e condimentada, à base de frutos do mar – a abundância é tanta, que camarões e lagostas são tratados como ingredientes triviais por aqui. Um dos restaurantes mais incrementadinhos do Tofo, o Casa de Comer tem um ótimo curry e arte local decorando as paredes.

Foto: nicolasdecorte/iStock