Solar Vibes

O que um guarda florestal sueco e uma bióloga alemã podem nos ensinar sobre ancestralidade e reconexão com a natureza

Por
Ricardo Moreno
Em
27 abril, 2020

Na Suécia, o respeito e a preservação da natureza é algo líquido e certo. Com essa premissa, Håkan Strotz e Ulrika Krynitz fundaram, em 2007, o Urnatur: um ecolodge com um conceito de sustentabilidade desenvolvido e moldado exclusivamente por eles.

Uma casa no campo, uma horta e algumas galinhas, cavalos e cabras para cuidar. O casal Håkan Strotz e Ulrika Krynitz — ele um guarda florestal sueco, ela uma bióloga e designer alemã — levou o sonho de ter uma fazenda própria às últimas consequências.

Há cerca de 25 anos, os dois resolveram comprar uma propriedade de cem acres na floresta de Holaved, no centro-sul da Suécia, às margens de um pequeno lago chamado Visjö. Ele passou a dar aulas em uma escola num vilarejo vizinho; ela, a se dedicar tecelagem.

Começava a nascer ali o Urnatur (essência da natureza), um ecolodge com um conceito de sustentabilidade desenvolvido e moldado pelos dois. Foi aberto ao público em 2007.

Fotos: Divulgação

Parece um conto de fadas dos Irmãos Grimm. Uma viagem no tempo. Mais precisamente a 6 mil anos atrás. “A floresta que você está vendo aqui é a mesma daquela época”, conta Ulrika num passeio pela bosque. “Não mexemos em nada. Nós nos adaptamos e criamos uma estrutura que se integrasse totalmente a ela.”

É uma terapia intensiva de retorno às origens, de reconexão com a natureza e com nossos instintos mais primários. Claro, com algum conforto do século 21. Tudo é 100% Made in Sweden, e com a epítome do design e cuidado típico dos suecos: simples, elegante e respeitando a natureza ao redor. O lema é sempre somar, nunca subtrair ou substituir.

As seis cabines — todas nascidas a partir das mãos de Håkan, do design sueco-russo típico de uma cena de João e Maria ao corte da madeira e construção propriamente dita — não têm luz ou banheiro privado. Cada uma foi desenhada de maneira distinta, e duas delas estão na altura das copas das árvores, alcançadas a partir de uma escada em espiral.

A luz vem de um lampião a querosene e há também uma lareira. As camas, porém, são de um conforto de hotéis cinco estrelas, assim com os travesseiros e os lençóis. O banheiro fica em uma casinha a poucos metros, e apesar de rústico é limpo e decorado com esmero.

Mais adiante estão os chuveiros, com ducha forte, sabonetes e xampus produzidos por eles e duas opções de aquecimento: solar ou a gás. Há internet apenas na casa principal, chamada de Tin Castle, onde o casal serve um delicioso café da manhã repleto de receitas especiais, como o chaga, chá de origem russa feito de fungos, e o brunost, típico queijo escandinavo cor de caramelo e sabor adocicado.

Designer que é, Ulrika tem uma loja onde vende roupas e tecidos cujas estampas foram desenvolvidas por ela mesma. Toda a comida é orgânica. E não poderia ser diferente. A Suécia é o país que mais consome comida orgânica entre todos da União Europeia. Também está no topo do ranking quando o assunto são energias renováveis.

Para ver o dia passar — e olha que ele demora, pois durante o verão (de junho a setembro) o sol nasce por volta das 5h e só se põe lá pelas 23h —, Håkan e Ulrika Krynitz oferecem varas para pescar (a minhoca você mesmo terá de “caçar”) e botes a remo. À sua margem está uma sauna, programa típico sueco e que você terá de se aventurar, de preferência seguido de um mergulho pelado nas águas sempre geladas do lago, incomensurável em sua imensidão e de um silêncio que só é quebrado pelo assovio do vento a empurrar o bote para uma solidão que parece infinita. Mas faz bem e conforta a alma.

O mais interessante de tudo, porém, são as refeições. Em uma cozinha aberta, bem equipada e com a opção de fogão a gás ou fogueira, Ulrika oferece legumes, carnes, peixes massas, temperos locais… o resto é com você. Há outras fogueiras pelo caminho, e o casal encoraja os visitantes a usarem qualquer uma delas. Cortar a lenha é por sua conta, ainda que Håkan sempre esteja por perto e disposto a ajudar — e poupar os dedos de quem cresceu riscando fósforos e acendendo isqueiros.

Quando estive lá, em julho 2015, fiz uma sopa de legumes colhidos na hora e uma tortilha espanhola com ovos vindos do galinheiro local. Lavar a louça e deixar tudo do jeito que encontramos faz parte da experiência. “Nosso objetivo era fazer um lugar 100% integrado à natureza, sustentável mesmo, que, além de não agredir o meio ambiente, colaborasse para seu desenvolvimento”, conta Ulrika. Conseguiram.

Ilustração de abertura: John Bauer, “In the Troll Wood”