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Como um terreno baldio no Cosme Velho, no Rio, se transformou no espaço mais animado e democrático da cidade

Por
Kamille Viola
Em
4 novembro, 2019
Em parceria com

A agenda do Galpão Ladeira engloba shows, festas, exposições, lojas e negócios criativos

Quando Manoel Gomes resolveu colocar para alugar o terreno ao lado
de sua casa, em uma ladeira no Cosme Velho, a família tentou demovê-lo da ideia. Afinal, seu filho, Pedro, já tinha realizado alguns eventos de arte urbana por lá e o resultado tinha sido positivo. A matriarca Socorro Gomes, professora de Educação Física então recém-aposentada, e os filhos propuseram movimentar o lugar com programação e pagar um aluguel ao pai. Ele deu três meses para o negócio dar certo. Nascia, em 2015, o Galpão Ladeira das Artes.

Além de Socorro, estão à frente do espaço Bruno, 30 anos, Leo, 27, Pedro, 22, e a caçula Manoela, 15, que acaba de se juntar ao time. A previsão para a coisa engrenar deu totalmente errado: demorou quase um ano. “Lembro muito do Carnaval que fizemos aqui, só veio nossa família.  A gente ficou morrendo de medo de chegar alguém porque só tinha a gente”, diz Leo. Pensando em como pagar o aluguel, eles resolveram abrir estúdios dentro do galpão, com divisórias improvisadas. Com esse dinheiro, poderiam manter as contas em dia e movimentar o espaço com os eventos. Atualmente, funcionam por lá o estúdio de tatuagem Café Preto, de Pedro, o coletivo de fotografia I Hate Flash e O Cerco, escritório do produtor cultural Marcos Quental (na foto ao lado), que faz a curadoria de shows do espaço.

Fotos: Guido Argel

Os estúdios têm horários independentes e os eventos são sazonais, mas a família costuma ficar por ali de tarde e de noite, mesmo sem programação. Até porque volta e meia aparece algum curioso, como turistas subindo para ir ao Cristo. “O pessoal olha, pergunta, entra, dá uma volta, eu converso… ”, explica a mãe.

“Apesar do barulho, os vizinhos abraçaram o Galpão Ladeira das Artes. O lugar trouxe movimentação à rua”

Eles acreditam que, apesar do barulho, os moradores da região abraçaram o lugar. “Trouxe movimentação à rua. Hoje existe o Espaço Corcovado, o estúdio Floresta, a Casa Roberto Marinho. Foi uma junção de coisas”, diz Leo. Eles garantem que estão de portas abertas para os vizinhos. E mantêm um projeto com os jovens da comunidade próxima, o Cine Guararapes, que começou com sessões no Galpão e hoje faz passeios ao cinema no Largo do Machado.

Os shows maiores, para 500 pessoas, rolam no gramado ao lado do Galpão. Curumin, Duda Beat e Nomade Orquestra foram alguns dos muitos nomes que já se apresentaram por lá. Também já rolaram festas como o Baile Bonitinho do Lencinho, espetáculos de dança da Cia Motirô, além de oficinas, workshops e exposições – que vão ganhar ainda mais destaque este ano. A família Gomes está sempre aberta a novos projetos, assim como as portas do Galpão. Afinal, como eles costumam avisar: vale a pena subir a ladeira. 

Na foto de abertura: Leo, Bruno, Manoela e Socorro Gomes – família reunida para movimentar o espaço | Foto: Guido Argel

É nos botequins da cidade, entre os amigos reunidos em torno de copos de cerveja, petiscos e, com sorte, música boa, que mora a alma da boemia. O pessoal do dominó continua por lá, enquanto novos endereços pipocam pelas ruas do Brasil, provando que dá para se reinventar sem perder a tradição. A Bohemia gelada acompanha, mas o que importa mesmo são os encontros.