Vibes

Uma cerveja com Roberta Sá na Mureta da Urca

Por
Renan Flumian
Em
29 outubro, 2019
Em parceria com

Entre um e outro gole de cerveja, batemos um papo sobre música, boemia e sorte com a cantora potiguar de alma carioca na mureta do Bar e Restaurante Urca, um de seus lugares preferidos no Rio

Ela nasceu em Natal (RN), mas tinha apenas 9 anos quando se mudou para o Rio. Teve que abandonar o sotaque e demorou a se enturmar, mas foi na Lapa que descobriu o mundo e entendeu quem era. Aos 38 anos, Roberta Sá acaba de lançar seu sexto disco, “Giro”, com 11 canções compostas para ela por Gilberto Gil. Entre um e outro gole de cerveja, batemos um papo com a cantora no Bar e Restaurante Urca, um de seus lugares preferidos na cidade.

Quando foi dado o primeiro passo de seu novo disco, “Giro”?

Foi em 2011, quando o Gil me chamou para gravar uma canção chamada “Minha Princesa Cordel”,  que ele compôs para uma novela. Depois disso, só nos aproximamos em 2016 por meio de um amigo em comum.

Como cantora e estudiosa da música brasileira, o que é cantar este disco com inéditas do Gil feitas para você?

É o maior privilégio e veio num momento muito bonito porque eu estava pronta para aceitar esse presente. Acho que o Gil ressignificou o meu canto e minha relação com a música quando me deu esse espaço pra ser sua parceira nas canções em letra e música, e sobretudo quando lançou sobre mim esse olhar. Daí me restou saber receber com ferramentas para simplesmente gozar.

Fotos: Wendy Andrade

Qual o papel do Rio na sua descoberta e desenvolvimento como artista?

Ah, o Rio me inventou como artista. Vou confessar algo: eu sempre soube que tenho sorte e desde que nasci carrego isso comigo. É muito louco, tenho consciência de que o meu destino é ser feliz. Claro que já sofri muito para chegar nessa conclusão, senão é muito raso, não é isso. Quando cheguei no Rio era época da novela Tieta e ser nordestino não era simples. Na chamada da escola eu dizia ‘aqui’ para evitar falar ‘presente’ com sotaque. Tive que, com 9 anos, forjar a mudança do meu sotaque e comecei a falar carioquês. 

Quando o Rio te conquistou? 

Até os 18 anos eu vivi meio deslocada na cidade. Frequentava rodas que não me falavam muito e ficava em casa esperando minhas férias para ir para Natal. Assim que entrei na faculdade teve início o ‘movimento da Lapa’, que começou a ferver com samba. Eu sempre escutei muita MPB, mas quando pisei na Lapa meu mundo abriu e entendi quem eu era. Eu ia para lá toda segunda ver o Zé Paulo Becker tocar violão no Semente e toda quinta para dançar samba no Democráticos. Foi uma época muito feliz da minha vida e que entrei em contato com a nata da malandragem carioca. 

O que isso significou na sua música?  

Mesmo com tudo isso, meu material emocional de trabalho é o Nordeste. O Gil falou em uma entrevista que gosta de música folk, o reggae é a música folk da Jamaica  – folk no sentido do que é folclórico. Então acho que é isso que faço. Não sou sambista, sou uma apaixonada pelo o que é folclórico, pelo samba, pelo maracatu, pelo que tem raiz em cada local.

O que a boemia carioca tem de particular? 

Está difícil falar bem do Rio, por isso é importante falar bem do Rio. O Rio ainda tem, e é o que me encanta, um charme original. A coisa mais legal para o carioca é viver o Rio e eu acho isso muito bonito. O carioca é apaixonado pelo estado de alegria que é uma coisa daqui, que não é eufórica. Eu demorei muito para entender, por exemplo, esse lance de que você não precisa marcar com uma pessoa para encontrar. Se você chega na praia, não é feio se acoplar na roda dos outros. Muito pelo contrário, feio é você incomodar a pessoa para ela sair de casa na hora que você desejar. Acho que esse é o DNA da boemia carioca, o poder chegar.

Se pudesse ressuscitar 5 cantoras para sentar num bar contigo, quais seriam e por quê?

Eu ressuscitaria Dolores Duran, com certeza, porque uma mulher que morre de amor aos 29 anos me interessa muito. Acho incrível ela ter sido uma mulher boêmia nos anos 50, pré-bossa nova. Dolores chegava para Vinicius de Moraes: ‘desculpa, mas a letra não é essa da sua música, é essa’. Ressuscitaria também Elizeth Cardoso, que gravou e causou um rebuliço enorme com a música “Eu Bebo Sim”. Foi um escândalo. Imagine, uma mulher cantar essa música naquela época. Elis Regina pra tacar fogo nas coisas, para dar uma incendiada na parada: ‘Roberta Sá, você desafina, saia daqui’. Nara Leão, uma princesa da zona sul que começou o movimento de integração da cidade, um movimento que não está concluído de jeito nenhum. Falta uma? Dona Ivone Lara para ter uma doçura. Uma mulher que compôs samba-enredo, imagine as histórias que ela não teria. 

Se você tirasse Gilberto Gil num amigo oculto, que presente daria?

A eternidade. 

Fotos: Wendy Andrade

É nos botequins da cidade, entre os amigos reunidos em torno de copos de cerveja, petiscos e, com sorte, música boa, que mora a alma da boemia. O pessoal do dominó continua por lá, enquanto novos endereços pipocam pelas ruas do Brasil, provando que dá para se reinventar sem perder a tradição. A Bohemia gelada acompanha, mas o que importa mesmo são os encontros.
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