Coluna

Unidade na diversidade

Por Carol Reymundez -

Por causa do meu trabalho de jornalista de viagens, costumo estar ocupada nos lugares onde normalmente as pessoas estão de férias. Faz três dias que cheguei em Bali e ainda não tive tempo de cair no mar. Até agora, minha agenda incluía: visitas a templos, a uma tradicional casa balinesa e a uma confecção de chales de algodão. Participei da abertura de um congresso das Nações Unidas, conheci as famosas plantações de arroz, assisti a uma orquestra gamelan e também estive presa no trânsito por um bocado de tempo.

Acredite ou não, os compromissos de um jornalista de viagens não incluem banho de mar. Um mar que, ao voltar para redação e começar a escrever a reportagem, eu terei que descrever.

Mas como muitas vezes acontece em viagens, um imprevisto aos planos originais pode ser muito bem vindo. No terceiro dia, após uma troca na programação oficial, percebo que me sobram duas horas livres. O grupo de jornalistas, então, faz coro: “Ao mar! Vamos ao mar!”. Ainda que ninguém tenha dito, todos carregam trajes de banho em suas mochilas.

Nossa guia nos dá uma olhada meio marota e acaba cedendo. Orienta que o chofer da Kombi vá a Pandawa, uma praia ao sul da ilha onde não há turistas estrangeiros.

No caminho, paralelo a um penhasco, há estátuas extra large de deuses hindus. Ao avistar o mar turquesa, antes mesmo dele, o que vejo são pessoas, muitas pessoas, todas alegres e caminhando pela orla e molhando seus pés na água. Ao me aproximar da areia duas coisas me chamam a atenção: 1) não há mulheres em trajes de banho. 2) quase ninguém está dentro do mar.

Me contam que a maioria dos turistas que estão aqui vieram de Sumatra, uma ilha ao norte, e são muçulmanos, como quase todos os indonésios – a Indonésia é o país com o maior número de muçulmanos no mundo. Menos Bali, a única das cerca de 17 mil ilhas onde prevalece o hinduísmo.

As mulheres não usam trajes de banho porque sua religião não permite mostrar o corpo ou porque não sabem nadar.

Caminho de biquíni em direção ao mar e um grupo de seis mulheres, todas vestidas com longas saias até os pés, lenços na cabeça e guirlandas de flores frescas me cumprimentam animadamente. Aproveito para tirar fotos. Elas posam, às gargalhadas, sem deixar de olhar o meu biquíni. Mas elas não olham com desprezo, pelo contrário. Riem como se gostassem dele. Algumas até tocam o tecido e comentam algo com as amigas.

Quando me viro em direção ao mar, uma delas me chama e explica com gestos que quer tirar uma foto comigo. Calculamos, então, a melhor enquadramento, se é melhor com o sol aqui ou lá. Todas falamos: elas em seu idioma; eu no meu.

Não nos entendemos nem temos os mesmos hábitos, mas todas sorrimos. Como se comemorássemos o lema deste país: Unidade na Diversidade.

Carolina Reymúndez é jornalista argentina especializada em viagens. Conhece 57 países e acaba de publicar El Mejor Trabajo de Mundo (SüdPol), seu primeiro livro de crônicas. Formada em ciência da comunicação, escreve para jornais, sites e revistas de toda América Latina e Espanha, e é fundadora do site Viajes Libres (viajeslibres.com).