diversão & arte

Guilherme Kafé e as melodias dançantes sobre a vida cotidiana

Por Laura Cesar -

Guilherme Kafé é o tipo de pessoa que pode transformar tudo em sua casa. Seja um lugar, como “um botequim fuleiro no Largo da Batata" ou "o sofá da casa de um amigo”, como cita na canção “Muitas Casas”, com participação especial do cantor Mauricio Pereira. Seja por meio da música ou de uma boa conversa. Não é à toa que seu primeiro disco, lançado em maio desse ano, traz um título semelhante na capa. Sem amarras ou roteiro pronto, e mesmo sem te conhecer muito bem, Guilherme sabe acolher com um bom papo, propondo reflexões, contando histórias com sinceridade e cantando, entre um assunto e outro, pra completar as suas ideias.

É só dar play em uma das canções ou vê-lo com o violão nas costas, sorriso no rosto, estilo despojado e jeito calmo de falar, que já é possível captar a essência da sua música. “Fala dos afetos, da disposição em se conectar com os lugares, com as coisas e as pessoas”, conta. Embaladas com sonoridade que remete à MPB, mas que trazem junto um ritmo dançante e timbres pop, as dez faixas do disco “Eu Sou o Tipo de Pessoa que Pode Transformar Tudo em Sua Casa” abordam temas da vida cotidiana e todas as delícias e os reveses dos encontros que acontecem nela.

As canções falam desde saudade e amor romântico, como é o caso de “Cafuné”, até letras mais autorreflexivas sobre amor próprio e outros sentimentos. Tudo isso sem deixar de lado batidas mais agitadas e divertidas de faixas como “Pico do Jaraguá”, que se passa numa viagem de ônibus por Osasco, sua cidade natal, cujas paisagens e estilo de vida inspiram suas composições até hoje. “Essa música é uma brincadeira com a bossa nova. Em Osasco não temos o Corcovado ou Copacabana, mas não deixa de ser uma cidade com suas peculiaridades”, explica. Apesar de ter sido produzido num contexto urbano, o disco foge da realidade muitas vezes dura da cidade, trazendo sutileza e bom humor com músicas para dançar e dar risada das próprias desventuras.

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Veia artística

Localizado a poucos quilômetros da Região Metropolitana de São Paulo, Osasco é o lugar mais importante da trajetória de Guilherme. Foi lá que ele cresceu, estudou e construiu sua memória afetiva ao lado da família e amigos. Também foi onde teve banda pela primeira vez com seu primo e descobriu a arte como forma de existir no mundo. Desde pequeno, ele não apenas tem a música como ferramenta de expressão, mas também o desenho e a pintura. “Os dois sempre foram muito integrados”, conta.

Com o apoio da família, decidiu cursar artes plásticas na USP. Mas foi durante a faculdade, entre as aulas de pintura, que a música se tornou mais presente. Um movimento natural e despretensioso que começou no conservatório, passou por rodas de música informais, até virar em pocket shows com uma grana envolvida. Aos poucos foi então se afastando das artes plásticas e se assumido cantor e multi-instrumentista. “Não esperava que iria seguir na música, mas com ela sinto que consigo me conectar mais, já que cada dia você toca num lugar diferente. Com as artes plásticas não sentia a mesma coisa. Todo mundo escuta música, é algo presente na vida das pessoas. Já ir numa galeria de arte não. É mais elitizado”.

Hoje, aos 29 anos, mais maduro e certo de quem é, Guilherme tem uma compreensão melhor sobre o que é ser artista. Foram dois anos gravando, produzindo e unindo forças com amigos e parceiros para o disco sair do papel. Uma carreira que apesar de estar começando, já foi uma montanha russa de altos e baixos desde o início. Sem mais idealizar a profissão, aprende diariamente a se desapegar de perfeições e se divertir mais no processo criativo. Por isso que além de estar tocando a divulgação do novo álbum, com projeto de clipe de “Muitas Casas” e de show de lançamento no Sesc Pompeia, decidiu voltar a pintar e finalizar o curso de artes plásticas após muitas idas e vindas. Também vai voltar pra Osasco depois de anos morando em São Paulo. O foco agora é encerrar ciclos que não foram concluídos; agradecer as novas conquistas; e confiar na beleza dos novos encontros que certamente serão as narrativas das suas próximas canções.

Foto de abertura: Guilherme Kafé | Crédito: Analice Diniz