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Um baldinho e um violão

Por
Adriana Setti
Em
12 junho, 2020

Como uma banda improvisada por três amigos de Barcelona se transformou em um hit internacional da quarentena. Conheça o Stay Homas.

No dia 14 de março, o governo da Espanha instituiu um dos confinamentos mais rígidos do mundo para conter a pandemia de coronavírus. Na fase mais estrita da quarentena, que durou quase dois meses, os espanhóis só puderam sair de casa para tarefas essenciais (como ir ao supermercado e jogar o lixo fora), sob pena de tomar multas salgadas. Isolados num apê do bairro do Eixample, em Barcelona, os músicos catalães Klaus Stroink, Guillem Boltó e Rai Benet (entre 25 e 28 anos) resolveram aproveitar o (muito) tempo livre para tirar som de tudo o que tinham ao alcance. Usando de violão a balde (objeto que se tornaria um ícone da banda), passando por utensílios de cozinha, o trio compôs uma média de três “Confination Songs” por semana, compartilhadas nas redes sociais. No final de maio, quando conversamos, o Stay Homas já somava quase 30 canções, meio milhão de seguidores no Instagram e no YouTube, duas dezenas de parcerias com artistas consagrados e um contrato engatilhado com a Sony. 

“Está sendo tudo muito intenso, não esperávamos isso de jeito nenhum”, diz Klaus, que na era pré-pandêmica era trompetista dos Búhos, banda de rock catalã relativamente conhecida, da qual Rai, guitarrista-baixista, também é membro. Entre um show e outro, o catalão de mãe alemã também ataca de dublador, carreira que exerce desde criança (detalhe fofo: é voz do peixinho Nemo na versão espanhola do filme Procurando Nemo). Enquanto boa parte da humanidade continua buscando o que fazer entre quatro paredes, nas últimas semanas os três músicos deram entrevistas para redes internacionais de TV (BBC, NBC e CNN), foram assunto de uma reportagem da revista americana The New Yorker e ganharam destaque em todos os grandes meios de comunicação espanhóis. Também fizeram uma live patrocinada pela SEAT (principal fabricante de automóveis da Espanha), em parceria com o Twitter, e tiveram seu grande hit, “Gotta Be Patient”, gravado pelo popstar canadense Michael Bublé, com participação da cantora mexicana Sofia Reyes.

“Já fizemos mais de 20 colaborações com artistas, e cada uma surgiu de um jeito diferente”, conta Rai. Michael Bublé, por exemplo, compartilhou uma música dos Stay Homas em sua página no Facebook, com a pergunta: “Quem são esses caras?”. O trio soube da postagem através de um amigo argentino e tratou de se apresentar ao astro, que pediu autorização para gravar “Gotta Be Patient”. Já a cantora Sílvia Pérez Cruz comentou em uma das “Confination Songs” e acabou recebendo um convite via DM. O resultado é “Ya No Puedo Más”, o mergulho do trio no universo flamenco. 

Com letras ora cheias de humor (rimando pijama com cama e drama), ora repletas de poesia, os Stay Homas cantam em espanhol, catalão e inglês, transitando por vários ritmos, do doo-wop ao hip-hop, com escala no trap. Mas, desde o princípio, deixam clara a forte queda pela bossa nova — e o portunhol. “Eu vai morrir de pena, estou em quarentena”, diz a primeira música postada, batizada de “Coronão”. “O Brasil é incrível, me apaixonei pelas pessoas, pelos lugares, por tudo!”, conta Guillem, que também é trombonista da banda Doctor Prats e esteve em Recife, Salvador e São Paulo em janeiro. “Passei a vida toda escutando MPB, é uma música que transmite muito o jeito das pessoas do país, uma coisa de gente que toca com gosto”, conta o músico, que cita Caetano, Gil, João Gilberto, Tom Jobim, Grupo Revelação e Djavan como referências. “Estaríamos encantados de gravar com Caetano”, diz, em bom portunhol. Depois da bossa de estreia, o grupo voltou a atacar com um sambinha em “Ta Tudo Bem”. 

O reggae é outra presença constante nas “Confination Songs”. No estilo jamaicano, “Todo Llegará”, em parceria com Manu Chao, é o momento mais inspirado. “Y ahora que vamos hacer con el silencio, cuando suene la campana de la liberdad”, diz a letra (já meio nostálgica da quarentena?), embalada por um duo de violão entre o músico francês e Rai, acompanhado pelo baldinho azul, que opera milagres nas mãos de Guillem. Entre outros artistas com quem os Stay Homas gravaram suas músicas del confineo estão Pablo Alborán, Nil Moliner, Macaco, Sofia Ellar, El Kanka e Josep Montero, nomes conhecidos no cenário nacional espanhol. 

Longe das lives megaproduzidas que fazem sucesso no Brasil atualmente, os Stay Homas gravam com um celular, moletom e coragem, no terraço da pequena cobertura onde vivem na calle Balmes, no bairro modernista do Eixample. Os convidados aparecem na telinha de um segundo telefone e, eventualmente, uma buzina ou um latido completam o arranjo. “Nosso processo é tão roots que chega a ser impressionante”, diz Klaus. 

Para gravar o single “Stay Homa”, única música da banda no Spotify por enquanto (graças a um contrato assinado com a Sony), foi necessário um upgrade técnico. Para a ocasião, o trio improvisou um recinto à prova de som com cobertores e almofadas, e lançou mão de um microfone profissional. Para compor a harmonia, usaram um djembê, um tambor brasileiro, um ukelele e um trompete, além de uma espátula de churrasco e uma garrafa de vidro. O trio promete lançar um álbum no próximo outono do Hemisfério Norte, mas, dessa vez, gravado no conforto de um estúdio.

“É muito estranho. Temos toda essa gente nos seguindo no Instagram, mas daí terminamos uma música e ninguém aplaude”, diz Klaus. “Fico feliz que esteja rolando tudo isso, mas não tenho a menor ideia de onde vai dar”, completa. “Começamos fazendo música e seguiremos fazendo música, que é o que a gente gosta”, diz Guillem. Existe futuro para os Stay Homas depois que ficar em casa não for mais necessário? Ao que tudo indica, sim. O primeiro show da banda está marcado para 31 de julho, na mítica Sala Apolo de Barcelona. Os ingressos estão esgotados há mais de um mês.

Este post foi originalmente publicado na edição Especial Quarentena • #04 da revista do The Summer Hunter. Faça o download gratuito aqui

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