Lifestyle

Caçadoras de verão

Por The Summer Hunter Staff -

São 8 horas da manhã de uma segunda-feira de novembro e o dia parece já estar pela metade para o trio de loiras que se aproxima do quiosque K08, na Praia do Pepê, Rio de Janeiro. O combinado é começar o surfing day com um café da manhã beira-mar. Mas agitadas e falantes, antes mesmo de olhar o cardápio, elas colocam uma das pranchas sobre a mesa para retocar a parafina enquanto falam de suas últimas viagens. As cariocas Karol Knopf, 26 anos; Carla Lima, 28; e Rayane Amaral, 23, poderiam ser figurantes de qualquer filme de surfe composto por atletas jovens e descoladas, não fossem, as três, protagonistas de aventuras que estão entre os sonhos de qualquer amante do verão.

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Elas trabalham no canal Off, cuja audiência são os fãs de esportes radicais e adrenalina. Karol apresenta há dois anos um programa que tem o objetivo de exibir as ilhas mais bonitas dos cinco continentes. Rayane, surfista profissional, compõe o elenco de Em Busca do Último Paraíso, que a colocou em uma expedição de 55 dias pelas Ilhas Marshall e Fiji atrás de ondas nunca antes catalogadas. E Carla, apesar da desenvoltura, preferiu os bastidores: abriu sua própria produtora e já idealizou e dirigiu algumas atrações do canal, sempre in loco. Terminada a refeição, composta de tapioca, suco e sanduíches naturais, chega a hora de acelerar ao volante. E, para fechar o quarteto fantástico e conduzir as meninas rumo às melhores praias, é preciso ter fôlego.

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O parceiro escolhido foi a Saveiro Cross Cabine Dupla, um carro com espaço e força suficientes para muita carga – ideal para carregar todos os equipamentos da trupe e até cinco ocupantes. A função off-road do carro também é indispensável na hora de encarar estradas de terra e areia. Elas prontamente organizam suas ferramentas de trabalho na caçamba e sobre o teto do carro e Carla calça seus tênis antes de assumir o volante. Não há tempo a perder. O sol brilha, mas, no horizonte, nuvens ameaçam o dia. O destino é a afastada Praia de Grumari, uma das poucas que mantêm áreas de mata atlântica preservadas, com mar de água limpa e ondas propícias para esportes náuticos. Apesar da motivação para chegar logo, o bonito caminho impediu que Carla prosseguisse sem fazer algumas paradas. Apesar de ter se especializado em imagens subaquáticas, ela trouxe consigo todo o seu equipamento de fotografia para clicar as amigas sob o sol.

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Trabalho dos sonhos
Se Karol é avessa à exposição e não gosta muito de ser chamada de apresentadora (“Eu não apresento o programa, eu o vivencio”, justifica), Rayane é só alegria diante das câmeras. Além do surfe, o teatro consome seu tempo e seus investimentos. Quando não está no mar, está nos palcos. A união das duas habilidades rendeu a ela um ofício curioso: dublê de cenas radicais. Há três anos, enquanto surfava, foi surpreendida com um convite para emprestar seus movimentos a uma atriz da novela Cheias de Charme, da Rede Globo. A experiência foi divertida, lucrativa e abriu as portas para outros trabalhos. Ela já foi as pernas da Paola Oliveira, as costas da Luana Piovani, entre muitas outras atuações que envolviam pranchas, quedas e lutas. Foi também ao acaso que, em março de 2014, a produção do canal Off pediu indicação de uma jovem surfista justamente ao shaper – como é conhecido o profissional que desenha e produz as pranchas de surfe – de Rayane.

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Mesmo sem ter passaporte e nunca ter saído do Brasil, ela foi selecionada para fazer parte de uma jornada de dois meses por mares em que ninguém jamais estivera antes, como Kiribati, na Micronésia, e Tuvalu, na Polinésia. “A felicidade por estar lá era tão grande que eu nem me importava com os enjoos que tive durante toda a viagem: eu passava mal e sorria”, lembra. Até seu namoro, que já dura cinco anos, começou com um esbarrão dentro do mar.

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Para Carla, as guinadas inesperadas da vida ficaram na adolescência, quando trocou a natação profissional pelo surfe amador. Desde que decidiu trabalhar com cinema e montou sua produtora, quatro anos atrás, ela já percorreu mais de 30 países realizando ideias muito bem planejadas. De um documentário sobre helisnow (esporte em que um helicóptero transporta snowboarders até o topo de uma montanha) na Islândia a uma série sobre caça de javalis no Havaí, ela já colocou em prática muito de sua criatividade e capacidade de planejamento. No programa Sol & Sal, que dirigiu, seu objetivo era mostrar as áreas mais inusitadas para mulheres surfarem.

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Com a equipe feminina, explorou lugares onde o surfe ainda é uma atividade para homens, a exemplo de Gana, do Marrocos e do Sri Lanka. Em Gana, por exemplo, descobriu com a população simples das aldeias que poderia viver com metade do que julgava precisar. “A gente se planeja, mas nem sempre adianta. A graça da vida está nos imprevistos. É assim que aprendemos valores e evoluímos”, diz Carla.

Vida nômade
Estar longe de casa e conhecer culturas diferentes, é a única rotina de todas elas. Karol, que é casada há seis anos, perde as contas de quanto tempo passou viajando em 2014. Sua agenda é impressionante: a trabalho, passou dois meses surfando pela Ásia; depois, mais dois praticando rafting e stand up paddle na Amazônia peruana; e, para finalizar, outros dois meses de surfe pela Tanzânia, pelo Quênia, por Moçambique, pelas Ilhas Maurício, por Seychelles e por Mianmar – neste último destino, passou dez dias incomunicável, sem água doce e se alimentando apenas de arroz. No restante do ano, passou algumas temporadas remando e surfando com o marido no Havaí e na Indonésia. Quando questionada sobre os contras dessa vida quase nômade, ela responde com um sorriso aberto: “Sinto saudade das pessoas e não consigo manter uma rotina. Até passo por alguns apuros, mas não troco meu trabalho por nada”, diz.

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Nisso, as três amigas pensam exatamente igual. Elas abrem mão de unhas feitas, de cabelos hidratados, da pele bem-cuidada e de qualquer vaidade em troca de um repertório cultural mais rico e do prazer de estar em contato com o mar. Deixam de sair à noite para poder acordar com o sol todos os dias e experimentar as primeiras ondas da manhã. Assim como acontece quando surfam, os quilômetros rodados na Saveiro Cross Cabine Dupla renderam êxtase com as belas paisagens e com as ideias trocadas entre os trajetos.

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Quando falam de suas filosofias de vida, elas concluem em uníssono: “Nossa maior conquista é poder viver daquilo que mais amamos fazer”. Então o carro repousa no sol, como que observando a demonstração de tudo o que ouviu no trajeto. E elas desfilam suas pranchas sob as águas, soberanas, na passarela azul de Grumari.

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Tecla SAP do surfe
Entenda as gírias e expressões úteis na hora de conversar com as surfistas.
Dar uma caída: ir surfar.
Rabear: entrar na onda do outro.
Dropar: descer a onda da crista até a base.
Merreca/marola: onda pequena, sem importância.
Bomba: onda grande.
Vaca: tombo.
Swell: ondulação.
Glass: mar liso.
Prego: surfista sem habilidades.
Toco: prancha velha.
Haole: surfista que não é do local onde surfa.
Pico: onde a onda começa a quebrar ou onde a galera está.
Clássico: mar em ótimas condições para surfar.
Shaper: profissional que modela pranchas.

Originalmente publicado na edição # 02 da Das Auto. Magazine.
Texto Nathália Butti
Fotos Daryan Dornelles