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Música nova na área: o Lage faz a ponte entre o rap e o samba

Por Fabiana Corrêa -

"E aí, mané? Desacredita, não. Abracei a missão e agora é só executar", diz a letra de Junto com os Meus, do cantor fluminense Lage. Devagar e sempre, ele está fazendo "os corre" dele. Desde que a mãe, Lucilene, que desfilava na ala das baianas, levava o filho pequeno aos pagodes da tia Doca, onde o menino entrou em contato com a nata do samba de Madureira, no Rio. Seu pai, Carlos Alberto, tocava cavaquinho. E seu avô, Viludinho, compôs muitos sambas para a Unidos da Ponte. É dele a voz - e o verso - no novo single O Circo (ouça abaixo), que tem também a participação da mãe, com um quê de Elza Soares, na introdução. A música composta pelo avô concorreu ao samba-enredo da Unidos da Ponte em 2009, mas não ganhou. "Essas músicas são incríveis, mas acabam se perdendo. Não queria que mais essa desaparecesse e resolvi gravar".

Lage sempre foi diferente. Apesar de ter nascido no samba, usa o rap de base para suas misturas. Agora, em seu terceiro single, tem o jongo para dar liga. "Chamei o Hamilton Fofão, do Jongo da Serrinha, para gravar cavaquinho e caxambu. Queria trazer esse ritmo", diz. A partir de 7 de junho a música está nas plataformas Spotify, Ditto, Google Play, iTunes, Amazon e Deezer.

Claro, os rappers vão olhar meio de lado, mas ele já está acostumado com isso. "Sempre fui do contra. Não sou exatamente um rapper entre os rappers - nem me vejo assim. Nasci no Rio e vim morar em São Paulo por vontade própria. Em São João do Miriti [município da Baixada Fluminense], diziam que eu era fresco pois chegava com o uniforme branco da Marinha - enquanto todo mundo se alistava no exército", conta, carregando no sotaque. Quando chegou a São Paulo, dois anos atrás, se hospedou na casa de um amigo até se mudar para a Casa Verde, bairro de classe média baixa da Zona Norte. "Somos conterrâneos", digo, já que nasci lá. "Ah, é? Bairro bom", responde. E a conversa flui mais facilmente.

Foto: Rodrigo Costa

"Eu faço a ponte entre os dois mundos. Logo que cheguei aqui, conheci o Rogério Oliveira, da Yunus [Negócios Sociais que apóia pequenos negócios no país], e fui trabalhar com ele, escrevendo para as redes sociais. Lá, todo mundo vinha da classe média alta, desse lado do rio, sabe? Eu trazia outra realidade para o escritório", diz. Quando Lage fala "desse lado do rio", se refere a alguns bairros da zona sul e zona oeste da cidade que estão na margem mais rica do rio Pinheiros, que corta parte da cidade. O músico transita entre os dois toda semana, de ônibus ou por meio de acordes. "Encontrei minha turma em São Paulo, conheço gente de todo lugar. E tá todo mundo correndo atrás, como eu."

Foto: Adolfo Silva

Essa turma varia. Em alguns momentos, é o pessoal da Brasilândia ou do Lauzane Paulista, onde já tinha amigos quando chegou - e fez mais alguns de uns tempos pra cá. Em outras, é uma galera com mais grana, de Pinheiros e Vila Madalena, onde dá oficinas de percussão pelo bloco Chinelo de Dedo. Desse lado do rio, conseguiu a ajuda para gravar e produzir seu primeiro clipe com um colega da Yunus, o fotógrafo Marcos Credie. Do outro, veio o baixo de Cabé Violero, que participa do single Junto com os Meus e a voz de Lenda ZN, que gravou com ele Um Valor, seu primeiro single. O esquema deve se repetir nos próximos trabalhos. "A parada agora é fazer um EP, que vai juntar tudo o que eu gosto. De novo, deve entrar uma cuíca".

Entre um single e outro, Lage começou a dar aulas para os meninos da Fundação Casa, em Osasco. Agora, está montando um projeto para gravar com adolescentes refugiados que vivem em abrigos. O primeiro trabalho, que será com um garoto do Congo e músicos de rap, deve sair em breve, bancado pelos próprios artistas. "Se o projeto vingar, queremos gravar um disco por ano com esses meninos, a partir do tema refugiados, seja da pobreza do nordeste ou da guerra na Síria. Queremos dar voz a esse pessoal". Mais uma vez, Lage fazendo e cruzando a ponte.

Foto: Adolfo Silva

Fotos abre e clipes: Marcos Credie