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Manaus e arredores: escalada em árvore na Floresta Amazônica

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Por Fernanda Nascimento -

Aqui, o tempo corre diferente. Ninguém conta os minutos, muito menos os segundos, e a pressa desliza para o outro lado da porteira. A hora de sair para uma atividade na mata é cronometrada pela luz do sol, o almoço é servido quando o calor amolecedor dá uma trégua no cair da tarde e o sono vem quando o silêncio só é cortado pelos ruídos entre as árvores e os arbustos que cercam a casa. Perdido num tempo-espaço só dele, a 200 quilômetros de Manaus, nos limites da cidade de Presidente Figueiredo, fica o Amazon Emotions Jungle Lodge. Antes de ser uma empresa de turismo, ali é a casa da família da venezuelana Vanessa Marino, que há duas décadas sonhou com aquela paisagem e encontrou seu lugar e uma outra maneira de viver.

Com o marido, Leonide Principe, os filhos Kena, Kinan e Geo, e a mãe, dona Estrela, ela recebe gente do mundo inteiro para compartilhar sua casa, sua vida e tudo que aprende sobre a floresta. “São visitantes curiosos, não turistas. Nós estamos vivendo o nosso sonho e o mais bonito de tudo é entender que as pessoas que vêm aqui percebem que existem outras maneiras de viver”, diz. “Eles sabem que vão encontrar uma família que mora na floresta e oferece certos tipos de atividades.” Caminhadas pela mata, expedições fotográficas e observação de pássaros são algumas delas. Mas a experiência mais impressionante é a escalada em árvore, que termina num galho a quase 40 metros de altura – e com uma vista da floresta difícil de experimentar de outra maneira.

Leo, Kena, Geo, Vanessa, Estrela e Kinan | Fotos: Doma02

Antes de se encontrar com Vanessa pela Amazônia, Leo já deixara seu país natal, a França, para viver fotografando a floresta. Ele tinha sua própria agência de imagens da região quando foi convidado, em 1997, para um projeto patrocinado pelo Governo do Estado que queria registrar as plantas aéreas da Amazônia. Um major foi incumbido de ensinar técnicas do Exército para que Leo pudesse subir nas árvores e fotografar as bromélias, orquídeas e outras tantas espécies escondidas algumas dezenas de metros acima do chão. Enquanto isso, Vanessa deixava a universidade na Venezuela para partir com um grupo de artistas numa aventura que viajou de ônibus do México até o Brasil.

O fotógrafo francês Leo Principe aprendeu com um major do Exército as técnicas que usa na escalada recreacional

Quando os dois se conheceram, alguns anos depois, e escolheram seu lugar para viver, decidiram usar as técnicas que Leo aprendeu para levar outras pessoas ao topo das árvores. São algumas entre as que cercam a propriedade que foram preparadas para a atividade – todas batizadas com nomes carinhosos, como Princesa. “Desenvolvemos uma cadeirinha especial e, com um sistema de cordas, auxiliamos a pessoa a chegar lá em cima fazendo o mínimo esforço”, explica Vanessa. De fato, não é um exercício fisicamente desafiador. Nem parece uma subida tão alta até chegar perto da copa e perceber que o chão está a quase 40 metros dali. “O objetivo da escalada não é uma questão de adrenalina, ainda que envolva”, diz Vanessa. “A proposta é levar o público para a reconexão. A luz que você encontra lá em cima, o momento, o contato com as aves... É muito inspirador”.

A reconexão não começa (nem termina) no topo da árvore. Tudo ali inspira algo diferente. Até mesmo a comida, preparada num fogão a lenha ou num tacho de metal com ingredientes cultivados na propriedade ou pelos vizinhos. Vizinhos que, aliás, vez ou outra aparecem para comer um peixe no jantar ou contar causos entre uma e outra pitada de fumo de corda. Todo mundo ali compartilha, de alguma maneira, essa relação especial com a natureza ao redor. Os saberes vêm da própria selva ou dos conhecimentos ancestrais dos povos que vivem na Amazônia desde antes de se ter notícia.

O ariá, um primo da batata que tem gosto de milho, as tapiocas, o cará roxo e as frutas servidas no café da manhã

“Eu aprendi que o broto da palha-branca dá pra assustar onça”, conta Kina, aos 12 anos, a Samuel Basílio. Herdeiro da sabedoria indígena e nascido às margens do Rio Negro, Samuel está ali para levar um casal de americanos para uma expedição pela selva na manhã seguinte. Ao lado de Leo, eles vão abrir um novo caminho na mata e passar duas noites entre as árvores e os animais. Mas antes disso, Samuel senta à mesa para ensinar Kina a trançar a palha, enquanto espera a farinha ‘tufar’ no açaí servido para distrair o estômago no calor do meio-dia. O tempo sem relógio não abrevia as refeições, nem as conversas. Nem as trocas. Se tem uma coisa que todos que vivem na floresta sabem é que há sempre algo novo a se descobrir. “Aqui na selva é um momento em que a pessoa se permite reaprender muita coisa”, diz Vanessa. “Funciona como uma ponte. Porque você não precisa explicar o quão valioso é isso tudo.” Não mesmo.

Amazon Emotions Jungle Lodge
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