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Daniel Gorin e a elegância natural do novo hotel Arpoador

Por Bruno Dieguez -

“Cada dia é um dia diferente, e eu também”, diz Daniel Gorin à beira do calçadão do Arpoador, no Rio de Janeiro. Atrás dele grita um dos últimos entardeceres do verão 2019, numa profusão de cores que é sempre impactante e nunca igual. Na frente dos seus olhos, sorri o repaginado hotel Arpoador, tão vivo quanto o legado de seus avós. Um dos oito netos dos fundadores Manoel e Rachel Strosberg, ele hoje é gerente-geral da propriedade mas circula pelos ambientes como mais um hóspede low-profile e alto-astral do antigo Arpoador Inn. Discretos olhos atentos a cada movimento em seu entorno, ele quase se camufla para cuidar de cada detalhe.

Na terça-feira em que me recebeu, Daniel calçava Havaianas (as originais, de tiras negras e base branca) e vestia camisa de linho branco da Richards com short de seda da estampa topografia da Handred. Leve, autêntico e atemporal como todas essas marcas e o ar que se respira por aquelas bandas. Não lembrava que faríamos fotos e por isso não se produziu para uma entrevista. Apenas estava sendo ele mesmo, flutuando pelas memórias do menino que sempre habitou aquele espaço. Com a mesma naturalidade, conversou comigo sem pressa, instruiu colaboradores que cruzavam nosso caminho e cumprimentou clientes que flanavam satisfeitos por corredores, varanda, terraço e outras áreas comuns. Alguns eram nitidamente conhecidos de algum tempo, outros mal tinha visto um par de vezes. A todos tratou com a cortesia de quem sabe receber bem.

É coisa de família, uma espécie de curso natural da vida, que deságua no tempo adequado de maturação. O avô, visionário, inaugurou o hotel em 1974, quando já tinha 50 anos e uma carreira estável como engenheiro. Sua esposa, artista plástica, cuidou da decoração. A mãe e o tio de Daniel tocaram o negócio, que também inclui o Ipanema Inn, inaugurado dois anos depois do primeiro e renovado antes, pouco tempo atrás, com projeto do casal Bel Lobo e Bob Neri. Nesta época já estavam assumindo o futuro Daniel e o irmão Marcelo, oriundo do mercado financeiro e também peça fundamental nesta nova fase.

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Fachada do hotel (esq.) e a piscina com vista para as praias do Arpoador, de Ipanema e do Leblon, com o Morro Dois Irmãos ao fundo | Fotos: Leonardo Finotti

Filho da PUC carioca no início dos anos 2000, Daniel começou estudando direito, se formou publicitário mas acabou enveredando pelos campos da fotografia, da arte e da moda. Foi fazer pós na University of Arts London e trabalhou por seis anos com Mario Testino na capital inglesa. Chegou a head of art department da empresa do célebre fotógrado peruano e o ajudou a montar o MATE, um dos museus imperdíveis de Lima. Em Londres, percorria a cidade de leste (onde morava) a oeste (onde ficava o escritório). Viu de perto a reinvenção do East londrino e sempre pautou sua visão de mundo pela perspectiva do belo e do artesanal, respeitando o tempo em que se vive, mas mirando o horizonte que está por vir.

No verão de 2011, veio ao Rio de férias e aos poucos foi pavimentando o caminho de volta. Numa época em que ainda não havia WhatsApp – sim, já soubemos viver sem tanto imediatismo – trocava muitos emails com Marcelo sobre as novas ondas que começavam a banhar a orla do negócio familiar. Em julho daquele ano, prestes a completar 30 anos, desembarcou no Brasil para restabelecer raízes. Chegava a hora de eles aos poucos tomarem o bastão e revitalizarem o clima casa de praia que está na essência dos dois hotéis. Localizados em pontos privilegiados da cidade, os irmãos evitam posicioná-los na categoria hotel de luxo. Preferem o termo lifestyle, mais fiel a quem sempre foram e querem continuar sendo.

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Foto: Leonardo Finotti

Mais que carioca, Daniel é ipanemense. Aprendeu a curtir a vida e se interessar pelo mundo pelas quadras entre a Lagoa e a areia frente às Ilhas Cagarras. Vai trabalhar de bicicleta, sem horários muito fixos, perambulando entre os dois hotéis e o escritório central. Jamais afoito, não perde a sintonia com o DNA inerente ao sangue e lapidado com a bagagem acumulada. Ela é ampla, não-forçada e longe de ser pesada. As etapas dessa trajetória parecem aos poucos ganhar mais sentido, como um puzzle em que peças se encaixam na base da simplicidade. Ou fichas que caem quando menos se espera e ajudam a entender porque nos tornamos nossos presentes. Assim como seus líderes, a equipe que atua no Arpoador é em sua maioria mais jovem que a média da hotelaria tradicional.

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O restaurante, com vista para a praia e cardápio assinado pela chef Roberta Sudbrack | Foto: Leonardo Finotti

Para atender aos hóspedes dos 49 quartos (cerca de 60% gringos) e visitantes do bar e do restaurante, pouco mais de cem funcionários miram um tom amigável como norte de serviço. O treinamento foi direcionado para atingir um padrão eficiente e atencioso, em que características pessoais de cada colaborador transparecem organicamente. Eles foram escolhidos para trabalhar ali mais até pela sua essência de comportamento do que por sua experiência curricular.

Antes de inaugurarem em soft opening no dia 8 de janeiro, parte da equipe se mudou para o Arpoador em uma espécie de imersão na implantação do hotel. O próprio Daniel, em sete anos trabalhando diariamente com as propriedades da família, nunca tinha dormido ali. Foram 12 dias vivendo o espaço de forma integral, experimentando todas as categorias de acomodação e serviços, algo que ele considera fundamental para hoje tudo estar funcionando conforme os planos desenvolvidos ao longo de meses de preparação. A virada 2018/2019 foi um teste não só para ele como para os gestores de cada área, convidados a trazer um acompanhante para que a experiência fosse o mais próxima possível ao que os hóspedes teriam dali em diante. A aproximação e integração de todos se materializou naturalmente. Quando viu, Daniel estava na piscina trocando receitas com a mãe da gerente de reservas. Ele também chamou alguns amigos para a missão e usou o feedback de todos para ajustar um ponto ou outro da operação.

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Daniel na praia do Arpoador, em frente ao hotel | Foto: Pedro Mota

Um conjunto de insights está na fórmula do novo Arpoador. Além das pedras fundamentais ali fincadas, de todas as lembranças dos Strosberg Gorin e dos ecos do Rio dos anos 1970, muita gente boa contribuiu para a versão século 21 do empreendimento. Um guia conceitual surgiu com Nereo Zago, contratado para reformular o site dos hotéis entre 2011 e 2012. Ele captou peculiaridades e influências que estavam no entorno e desenhou a ideia de “City & Sea” que costura sob medida tudo o que virou realidade. O brand book criado por Zago é um passeio delicioso pela história da cidade, do bairro e do próprio hotel; ao mesmo tempo uma homenagem e um banho de contemporaneidade em forma de design. Há uma releitura do modernismo brasileiro, uma geometria espacial que brinca com contrastes sutis e um espírito praiano de relaxamento traduzido em objetos, texturas e cores. Charme sofisticado, sem ostentação e com curadoria. A ideia central é aproveitar o acesso único que eles possuem ao melhor ponto entre a urbanidade e a natureza cariocas.

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Room with a view – and rede | Foto: Leonardo Finotti

Esta aura única ganhou camadas ainda mais especiais com o dream team criativo que se somou à execução do projeto. A reforma levou 1 ano e 9 meses, uma travessia sob o comando do arquiteto Thiago Bernardes, que vislumbrou a proa de um navio e construiu quartos como cabines de um bom sonho de verão. Para cuidar da gastronomia, ninguém menos que a chef Roberta Sudbrack, ela mesma em sorridente reinvenção desde que fechou a casa homônima estrelada e preferiu investir seu tempo em projetos com mais sabor afetivo como o Sud, o Pássaro Verde, no Jardim Botânico. Roberta assina do café da manhã ao jantar, passando pelo room service, com a habitual delicadeza e criatividade que são suas marcas registradas.

Tanto Thiago como Roberta eram desejos antigos que Daniel pensava inalcançáveis. Mas os astros se alinharam a seu favor, em sintonia ímpar cujo resultado dá gosto de ver. E ouvir. Outro dia ele recebeu seu elogio favorito até agora: o Arpoador lembrava uma pousada. Não pela falta de qualquer coisa, mas pelo tamanho certo de estrutura e hospitalidade. Tão reconfortante quanto foi descobrir que sua Vênus era em Virgem. “Foi libertador”, me confessou. Longe de ser especialista, perguntei a uma amiga entusiasta da astrologia o que isso significava. Ela contou que esta casa vibra algo bem seletivo, cuidadoso e perfeccionista, de alguém próximo à família, que valoriza o tempo da infância e é ligado ao bem-estar das pessoas ao redor. Bingo.

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Outra vista da piscina, no último andar | Foto: Leonardo Finotti

O nosso papo terminou na Suíte Arpoador, a principal do hotel com 50 metros quadrados muito bem aproveitados. Como todos os 15 quartos de frente para o mar, tem uma rede pendurada e difícil de resistir. E também uma varanda, de onde se vê de camarote o pôr do sol mais bonito da cidade. Antes da reforma a fachada era reta, sem essa abertura para o aproveitamento máximo da brisa. Daniel optou por perder área de quarto para acrescentar este espaço-bônus a cinco acomodações, uma por andar, criando uma espécie de redário vertical na construção. Um acerto indiscutível. Ali, refastelado no ponto mais nobre do Arpoador, ele sente a realização. Conseguiu caminhar com o hotel da família para o momento presente, devolvendo aos cariocas um lugar com a melhor cara do Rio. Ao mesmo tempo refinado e despretensioso, local e global, pessoal e capaz de agradar a múltiplos gostos. Não vi ninguém até agora falar que não gostou dali, que não faz o seu estilo. É tipo uma metonímia e uma metáfora do Rio, irresistível. Essa percepção positiva vem da conjunção de atributos materiais com imateriais, como o serviço hospitaleiro, a playlist caprichada e a fragrância customizada que em breve deve estar à venda na lojinha. Cada um desses elementos tem ao menos um dedo do gerente-geral.

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O hoje de Daniel Gorin é uma síntese do que ele conseguiu traduzir no novo Arpoador: uma elegância natural que combina com perfeição a um verão sem fim, filtros ou preocupações exacerbadas. É, como o linho, o tecido ideal para se viver no Rio de Janeiro. Através das lentes de sua armação Mykita, feita à mão como tantos objetos que ornam de exclusividade o hotel, ele já enxerga seus próximos passos. Daniel pensa em deixar a gestão diária do empreendimento e dedicar-se à parte comercial, divulgando o produto e trazendo mais e novos hóspedes para a sua “casa de praia”. Ela está de portas abertas.

Foto de abertura: Pedro Mota