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Fortaleza e arredores: arte com areia em Morro Branco

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Por Fernanda Nascimento -

Dezenas de cores se espalham em saquinhos pela mesa do artesão Davi Alves de Miranda. Com um palito nas mãos, ele transforma aquelas tantas tonalidades de areia em paisagens dentro de potes de vidro. As falésias, os coqueiros e a areia clara, sempre retratadas nos desenhos, lembram o cenário ao redor. Estamos em Morro Branco, uma praia a cerca de 85 quilômetros de Fortaleza e um dos destinos preferidos dos turistas que querem aproveitar o dia para conhecer os arredores da capital. Mas ali, além da paisagem deslumbrante, está um pedaço da cultura do Ceará.

Não é fácil acertar os primeiros desenhos. E também não adianta ter pressa. As areias coloridas são um trabalho minucioso e que requerem (muita) paciência. “Às vezes passo dois ou três dias na mesma peça. Você vai viajando nas paisagens, precisa de inspiração. Por isso uma obra é sempre diferente da outra”, diz Davi. “Muita gente acha que o desenho é colado e só acredita que é tudo feito com as areias quando vê com os próprios olhos.”

O artesão Davi Alves de Miranda, que há mais de 30 anos desenha com as areias de Morro Branco | Fotos: Doma02

Quando Davi chegou à Morro Branco, em 1984, era assim, com cola, que era feito o trabalho com as areias coloridas. Ele já havia passado um tempo ao lado de um artesão em Majorlândia (CE) e aprendido o ofício. Assim como Morro Branco, a praia próxima à Canoa Quebrada também tinha um conjunto de falésias de onde eram retiradas as cores para compor as peças. “É possível conseguir doze tonalidades diferentes das falésias, desde o marrom da rocha até cores como vermelho, amarelo e rosa”, conta Davi. “Ao caminhar por elas, é possível ver as cores por todos os lados, até onde você pisa. São camadas e fazendo buraquinhos você encontra as veias das areias.” Há alguns anos, as falésias de Morro Branco foram protegidas para preservação e a areia branca é retirada de outra área próxima à praia e tingida em diferentes cores. “Essa arte nasceu das falésias e é importante que elas estejam seguras e não percam sua beleza”, diz Davi.

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Hoje, a técnica já é tão parte da cultura local que é difícil encontrar um restaurante na beira da praia que não tenha os vidros com desenhos de areia expostos em prateleiras de madeira. Enquanto Davi trabalha em uma mesa no Restaurante Areias Coloridas, é possível comprar uma das peças já prontas ou se aventurar para aprender os primeiros passos da técnica. “É um trabalho que precisa de muita dedicação”, explica, mostrando o palito de ferro e a pequena pá que usa para desenhar com as areias. “Aquele que nunca experimentou pode começar fazendo uma casinha, os contornos da vegetação. Depois vai encaixando as coisas no seu devido lugar e formando a paisagem.” Se a explicação parece simples, a técnica está longe de ser fácil. Ainda que tentar produzir a paisagem nos vidrinhos seja divertido, para expor na prateleira de casa é melhor levar umas das peças de Davi.

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