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As novidades de Botafogo, no RJ, dividem espaço com quem estava lá antes de virar um bairro descolado

Por
Kamille Viola
Em
1 novembro, 2019
Em parceria com

O bairro carioca até pode ter mudado, mas figuras como o vendedor de amendoins Paulo César ainda são as mais famosas – e queridas

Calçadas disputadas por grupos com cerveja na mão. Restaurantes lotados em qualquer dia da semana. Fila para comprar pães de fermentação natural. Nem parece o mesmo lugar que, dez anos atrás, era chamado de bairro de passagem. Pouco a pouco, as portas de pequenos negócios locais de Botafogo, como as oficinas mecânicas, se fecharam para dar espaço a negócios mais descolados. Os sobrados e casarões abandonados também foram repaginados e, de uma hora para outra, todo mundo queria estar, morar e beber em Botafogo.

Um dos primeiros endereços mais modernos a aportar no bairro foi o extinto Oui Oui, restaurante da chef Roberta Ciasca, que abriu as portas na Rua Conde de Irajá, em 2009. Depois vieram os premiados Oteque e Lasai, o italiano Ino., além da recém-inaugurada pizzaria Coltivi. Enquanto um polo gastronômico se formava por ali, a inauguração da praça na Rua Nelson Mandela, na outra ponta do bairro, impulsionou a boemia naquela região. Primeiro foi o Colarinho, mas logo chegaram outros bares e muita gente para beber uma cerveja no meio do burburinho. Essa aglomeração que toma a rua é corriqueira nas várias microrregiões boêmias que se formaram no bairro.

Cinema de rua: resistência | Fotos: Wendy Andrade

Depois da Rua Nelson Mandela ganhar seu próprio ‘baixo’, como são chamados esses points, a Rua Voluntários da Pátria também viu sua vocação boêmia crescer. Ali apontaram novidades como o Marchezinho, inaugurado dois anos atrás em frente à Void General Store. Misto de bistrô e mercearia, a casa de dois sócios franceses e dois brasileiros segue uma diretriz que está virando tendência não só no bairro, mas no Rio: privilegiar pequenos produtores. “A gente sabe de onde está vindo a comida e para onde está indo o dinheiro. É uma relação mais próxima”, explica Danilo Melo, sócio do Marchezinho. “A minha função como cozinheiro é fazer as pessoas pensarem no que comem”, completa Pedro Queiroz, chef da casa. 

Esse movimento slow food, que respeita os produtores e os ingredientes, foi a inspiração para o nome da padaria The Slow Bakery, aberta em 2016 na Rua São João Batista. As filas para experimentar os pães de fermentação natural são tão grandes nos fins de semana que a casa se muda para um ponto maior no bairro daqui alguns meses. Na mesma rua da padaria também funciona, desde o ano passado, a quitanda orgânica Acolheita.

Livraria da Travessa: bastião intelectual

A poucas quadras dali fica um dos pontos de efervescência cultural mais antigos do bairro. Ocupando um sobrado na Rua Visconde Silva desde 2006, a casa de shows Audio Rebel já recebeu artistas como Arrigo Barnabé, Jards Macalé e as bandas Metá Metá e Cidadão Instigado. O andar de cima é ocupado pelo estúdio do produtor Kassin. “Ter virado referência no bairro é uma alegria muito grande. Conviver com tanta gente talentosa, que a gente admira, é sentir que o trabalho deu certo”, diz o fundador, Pedro Azevedo.

Se existe alguém que sabe contar a história de Botafogo é o vendedor de amendoim Paulo César Gonçalves, de 42 anos, 32 deles no viaduto Santiago Dantas, que liga a praia à Rua Pinheiro Machado. Paulo César ficou famoso por trabalhar de terno e gravata, entoando seu bordão “Oiii!”. Hoje outros três vendedores trabalham para ele no entorno, incluindo o sobrinho Max Gonçalves, que fica na Rua Farani. 

Eles estão sempre na região entre 17h e 20h. Paulo César vende cerca de 400 quilos de amendoim por dia e o sobrinho, 120. “As pessoas ficam me perguntando como é que eu descobri o local. Quando as coisas são para ser de Deus, são. Quantos governadores já passaram por aqui e eu continuo?”, diz, referindo-se à sede do Governo do Estado, o Palácio Guanabara, que fica a poucos metros dali, na Rua Pinheiro Machado. Demorou algumas décadas, mas parece que o resto do Rio descobriu o charme de Botafogo que Paulo César conhecia há tempos. 


É nos botequins da cidade, entre os amigos reunidos em torno de copos de cerveja, petiscos e, com sorte, música boa, que mora a alma da boemia. O pessoal do dominó continua por lá, enquanto novos endereços pipocam pelas ruas do Brasil, provando que dá para se reinventar sem perder a tradição. A Bohemia gelada acompanha, mas o que importa mesmo são os encontros.