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Giuseppe, a inteligência artificial que recria alimentos que amamos usando vegetais

Por Laura Cesar -

Se o futuro do planeta também depende do que comemos, por que não mudar a forma como produzimos os alimentos que amamos? É preciso sacrificar o sabor pra ser saudável e sustentável? Ou uma vaca pra fazer hambúrguer e o leite da nossa média no café da manhã? Foram muitas as interrogações até Matias Muchnick criar a NotCo, foodtech chilena fundada em 2015 que pretende revolucionar a indústria alimentícia, transformando alimentos industrializados populares – como carne, leite e maionese – em produtos com valores nutricionais ainda melhores e sem a utilização de animais na equação. “Não saber ao certo do que me alimento sempre foi um dos meus maiores questionamentos. Existe muita desconexão. O que pensamos ingerir é muito diferente daquilo que de fato comemos”, conta o CEO.

NotCo
Karin Pichara, Matías Muchnick e Pablo Zamora, fundadores da NotCo | Foto: Camilo Melús

Pra ajudar nessa missão que parecia sem pé nem cabeça, o Matias reuniu os sócios Pablo Zamora, doutor em bioquímica, e Karim Pichara, doutor em ciência da computação, além de uma equipe de peso, com experts de diversas áreas, em busca de soluções. Os anos de pesquisa os levaram até Giuseppe, inteligência artificial desenvolvida e batizada pela startup, que cruza diferentes bases de dados para elaborar receitas nutritivas de maneira inovadora. Com mais de 30 mil plantas cadastradas, o algoritmo da machine-learning analisa em nível molecular a estrutura dos alimentos derivados de animais e encontra substitutos vegetais para eles.

A criação carro-chefe de Giuseppe é a NotMayo, maionese sem ovo feita à base de grão de bico, óleo de canola, semente de mostarda e vinagre de uva. Lançada há três anos, a terceira maionese mais consumida no Chile chega no mês que vem ao Brasil. Vai custar cerca de R$ 10. Além de menos gordurosa, a NotMayo garante que sua fórmula utiliza 83% menos água durante o processo de fabricação. Enquanto uma maionese regular consome cerca de 194 litros, aproximadamente dez baldes cheios, a versão chilena reduziu o gasto de água pra 32,42 litros.

E as fórmulas inusitadas da NotCo não param por aí. Sorvete à base de ervilha; hambúrguer de cacau e beterraba; e a combinação de repolho com abacaxi que reproduz o leite de vaca, estão entre os produtos na fila de lançamento da startup. Com exceção do NotBurger, carne que ainda está em fase de testes no laboratório da empresa, tanto o leite vegetal, o NotMilk, como o sorvete NotIceCream tem previsão de estreia ainda este ano no Brasil e Chile. Se tudo ocorrer conforme o esperado, "o Brasil será o nosso principal mercado em até dois anos", afirma Matias.

O jantar de apresentação da NotCo, em São Paulo, promovido pela Mesa | Foto: Ian Scabia

Mas antes que alguém torça o nariz pras combinações exóticas, eu experimentei com exclusividade cada um desses produtos num evento que marcou a chegada da NotCo no Brasil e posso te garantir: o gosto, o aroma e a textura desses alimentos são bem parecidos com os que estamos acostumados. No jantar de degustação promovido pela Mesa – consultoria especializada em solucionar desafios complexos utilizando gente como a gente –, me surpreendi com a textura, a aparência e o cheiro do NotBurger, muito semelhante à carne bovina – e olha que eu não como carne! – e o sabor da maionese de pimentão e da sopa de alho-poró feita com NotMilk. Os sorvetes de morango, baunilha e chocolate, no entanto, embora nada parecidos com ervilha, são excessivamente doces.

“Queremos mostrar para o mercado que é possível fazer diferente, sem sacrificar os hábitos alimentares da população. Pensamos inovação a partir da maneira como os alimentos são produzidos, e não a partir do desenvolvimento de novos produtos”, me disse Matias com discurso parecido com o que conquistou grandes nomes dessa nova economia, a exemplo de Jeff Bezos, dono da Amazon. É na NotCo que o homem mais rico do mundo acaba de fazer seu primeiro investimento na América Latina, entrando na rodada com 30 milhões de dólares.

Apesar de extremamente inovadora, o sistema Giuseppe não é a solução pra todos os problemas sociais e ambientais que envolvem a indústria alimentícia, o mercado mais poluente do mundo. E a startup chinela nem quer que ela seja. “Ainda temos muito o que melhorar. Criamos uma tecnologia que trabalha ao nosso favor, nos ajudando a buscar soluções e não criando mais problemas”, afirma Karim. Já que não podemos reescrever a história da humanidade e todo o impacto já causado até então, o que nos resta por ora é repensar o nosso consumo, quebrar pré-conceitos e buscar por alternativas mais sustentáveis pro dia a dia. E os produtos veganos da NotCo podem ser uma opção. Por que não?