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54 Horas em Paraty: um roteiro mezzo gourmet, mezzo intelectual pela maior joia colonial fluminense

Por
Adriana Setti
Em
7 fevereiro, 2020

A cidadezinha de pouco mais de 50 mil habitantes, a meio caminho entre Rio e São Paulo, conta com uma deliciosa rotina caiçara que alterna banhos de cachoeira e de mar, passeios de barco, trilhas na mata e goles de cachaça.

Durante cinco dias, ali pelo final de julho, é possível tomar um café com a genial escritora e artista portuguesa Grada Kilomba logo ao lado, cruzar com José Miguel Wisnik ou José Celso Martinez pelas ruelas de pé de moleque. Também rola discutir os rumos da neurociência com alguns dos papas do tema ou mergulhar em questões de gênero e raça com grandes sociólogos dos quatro cantos. Nas horas vagas, assistir a grandes shows, debates entre os escritores do momento, peças de teatro em praça pública. Desde 2003, no auge do inverno, a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) reúne centenas de autores e pensadores (e mais uma horda de fiéis seguidores) num dos destinos mais encantadores da Rio-Santos e Paraty vive seus dias de glória e fama.

No resto do ano, a cidadezinha de pouco mais de 50 mil habitantes, a meio caminho entre Rio e São Paulo, mergulha numa deliciosa rotina caiçara que alterna banhos de cachoeira e de mar, passeios de barco, trilhas na mata e goles de cachaça – algumas das melhores do país são fabricadas na região. Entre bares com música ao vivo, jantares em restaurantes que não fariam feio nas capitais mais próximas e incursões por um dos cantos mais bem preservados da natureza do Sudeste, um roteiro de 54 horas pelo melhor do passado colonial fluminense.

DIA 1

17h
Entre casarões e pés de moleque

Emoldurada pela Serra do Mar, banhada por águas tranquilas e dona de um lindo casario branco de portas e janelas coloridas que sobreviveu com graça à passagem dos séculos, Paraty é, desde julho deste ano, o mais novo Patrimônio Mundial da Humanidade brasileiro (junto com a vizinha Angra dos Reis, num mix dos quesitos cultural e natural). Deixe as malas na pousada e vá de cara fazer o reconhecimento do terreno. Passear sem rumo pelas ruelas calçadas de grandes pedras de Paraty (chamadas pés de moleque), bisbilhotando dentro dos casarões dos séculos 17 ao 19, é uma delícia – o visual fica ainda mais bonito quando a maré sobe e a água do mar invade as ruas, refletindo as fachadas coloniais.

A Livraria das Marés: Flip o ano todo | Crédito: Divulgação

18h
Eternamente Flip

Entre lojas de artesanato e de grandes marcas nacionais, galerias de arte e ateliês, um endereço é simplesmente imperdível. Por trás da fachada do número 52 da Rua Tenente Francisco Antônio fica a linda Livraria das Marés, um espaço de 200 metros quadrados com estantes recheadas de pérolas, belo projeto da arquiteta carioca Bel Lobo. Aproveite para tomar um expresso e provar os doces afrancesados do simpático café no seu interior, que se abre para um jardim ao fundo.

20h
Pé de cana

Este trecho da Serra do Mar reúne as condições ideais para o cultivo da cana de açúcar e, desde os tempos em que os portugueses ainda ditavam as regras por aqui (e elegeram Paraty o principal porto de partida do ouro rumo à metrópole), dá origem a uma das melhores cachaças do país. Para abrir o apetite antes do jantar, peça para ser introduzido às branquinhas locais. A Rua da Cadeia, ao lago da Praça da Matriz, tem um bar ao lado do outro. 

Centrinho de Paraty: novo Patrimônio Mundial da Humanidade | Crédito: Tupungato/iStock

21h
Caiçara de boutique

Quem fez o dever de casa e reservou com antecedência vai poder provar as delícias da chef Ana Bueno, verdadeira celebridade local, sem esperar muito tempo na fila. No restaurante Banana da Terra, a estrela é a cozinha caiçara focada em peixes e frutos do mar, na maior parte das vezes com a presença da vedete que empresta o nome à casa no prato. Comece com os bolinhos de queijo recheados de paçoca de banana e geleia de pimenta. E siga com pratos perfumados como os camarões sobre risoto negro ou a famosa moqueca de banana da terra com pupunha. Para encerrar, peça a sobremesa que já é um clássico obrigatório: torta quente de banana coroada por uma bola de sorvete de canela e enfeitada por uma crocante farofa de castanha de caju. 

DIA 2

9h
Tanto mar

Embora fique à beira-mar, Paraty não tem uma praia central à sua altura. Já a baía que se escancara logo em frente, pontilhada de ilhas e ilhotas, é um desbunde. Fuja dos passeios de escuna, saia cedo (para evitar qualquer chance de muvuca) e invista nos barcos menores para aproveitar melhor o dia no mar. As traineiras de madeira são um charme; já as lanchas rápidas levam mais longe – uma ótima operadora é a Palombeta. No primeiro caso, o roteiro ideal passa por lugares como a Praia de Jurumirim, a Ilha Comprida e a Lagoa Azul. No segundo, invista no Saco do Mamanguá, um pouquinho mais longe, braço de mar que avança terra adentro conhecido como “fiorde brasileiro”. As águas transparentes são perfeitas para bons mergulhos. Combine com o barqueiro uma parada estratégica para almoço em restaurantes típicos à beira-mar.

Ilhas ao redor de Paraty|Crédito: Fernando Branco/iStock

19h
Um pouquinho de cultura

Antes do jantar, aproveite para explorar um pouco mais do centro histórico, flanando entre bonitas igrejas e galerias. E não deixe de conferir a programação da Casa da Cultura de Paraty, que costuma receber boas exposições temporárias e exibir obras de artistas locais.

21h
Da fazenda para a mesa

O conceito da culinária farm to table, no restaurante Quintal das Letras, é literal. E a farm, no caso, é a Fazenda Bananal, dos mesmos donos, não muito longe dali. Instalado na Pousada Literária, tem um dos ambientes mais bacanas de Paraty, assinado pelo premiado escritório Jacobsen Arquitetura, da dupla Paulo e Bernardo. O menu transita com capricho das carnes (viva as costeletas de cordeiro!) aos frutos do mar, com ênfase ao que é cultivado no quintal. Entre as sugestões, destaque para o trio de ceviches, de palmito, camarão e peixe, cada um harmonizado com uma PANC (sigla para planta alimentícia não convencional).

23h
Um banquinho, um violão

A marca registrada da noite em Paraty são os bares com música ao vivo. A qualidade depende um pouco da sorte, que vale ser tentada na Rua Tenente Francisco Antônio (vulgarmente conhecida como Rua do Comércio, a principal) e adjacências.

DIA 3

Trindade, a 20 Km do centro: as melhores de Paraty não estão em Paraty | Crédito: Felipe Goifman/iStock

10h
A praia do vizinho é mais verde

As melhores praias de Paraty ficam, na verdade, não em Paraty, mas na vizinha Trindade. O visual das enseadas cor de esmeralda vai compensar a distância, de pouco mais de 20 quilômetros. Prepare as pernas para encarar as trilhas e caminhadas e vá direto ao que interessa: Praia do Meio e Praia do Cachadaço. Melhor ainda: estique um pouquinho mais até a piscina natural do Cachadaço, acessível por uma trilha de meia hora que parte do fim da praia. 

16h
Direto da fonte

Já que estamos na terra da cachaça… beba na fonte. Há uma série de alambiques que podem ser visitados, com pequenos museus e lojas que podem organizar degustações. Se estiver de carro, o desvio é merecido. O mais antigo deles, fundado nos idos de 1803, é o que fabrica a famosa Cachaça Coqueiro, na Fazenda Cabral, a cerca de 7 quilômetros do centro.

20h
Sabores do mundo

Marina Schlaghaufer é alemã, escolheu viver no Brasil e abriu um restaurante… tailandês! Depois de inúmeras idas e vindas ao País do Sorriso, no Sudeste Asiático, ela abriu, em pleno centro histórico, o Thai Brasil, um do cantinhos mais coloridos e simpáticos da cidade, com direito a um jardim nos fundos, onde cultiva as ervas que vão parar nas receitas. Entre as especialidades da casa, salada de papaya ou sopa de leite de coco com frango, para abrir os trabalhos, seguidas pelos clássicos noodles fritos com camarão e curries de todas as cores (verde, vermelho, amarelo). O grand finale fica por conta do delicado arroz doce feito com leite de coco, escoltado por tenras fatias de manga. O chá gelado de cidreira com limão é uma ótima pedida para acompanhar. 

Foto de abertura: Kseniya Ragozina/iStock