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Como Paula Bertone, da Orangotango, trocou o emprego de estilista pela vida numa ilha

Por
Mariana Weber
Em
17 setembro, 2019

Paula Bertone fez o que muita gente sonha fazer e não faz: largou tudo e foi morar numa ilha. Tudo, no caso, era uma carreira de estilista em moda feminina, a proximidade com os amigos, as facilidades e as dificuldades da rotina em São Paulo. Mas tudo, olhando pra trás, não era tanto assim. Porque o trabalho se transformou, os amigos aparecem, a cidade grande continua lá pra ser visitada, a internet traz parte do continente pra dentro de casa. E tudo não incluía a filha, Nina, e o marido, o jornalista André Barcinski. Hoje os três, mais o caçula Noel, vivem na Ilha do Araújo, em Paraty, onde Paula mantém o ateliê de sua marca infantil, a Orangotango.

“Morar na ilha exige disciplina pra tudo dar certo”, diz Paula. “Nossos filhos estudam na cidade. Então acordamos cedo todos os dias, às 6h, e atravessamos até o continente de barco, faça chuva ou faça sol.” Nina, 11, e Noel, 7, têm que fazer sua parte. Cuidam da composteira, das galinhas, da horta. E, na hora de ir pra escola, se aprontam com uniforme sob capa e calça plástica, havaianas nos pés e tênis na mochila, pra não molhar.

No continente, Paula faz natação, musculação, ciclismo na estrada. “Um dos planos quando viemos pra cá era praticar mais atividades físicas,” diz. Depois do esporte, começa o dia de trabalho. “Crio e monto a coleção da Orangotango e distribuo o serviço pra uma rede de mulheres da comunidade, que produzem cada uma em sua casa. Levo e recolho as peças toda semana. A finalização e o envio, eu mesma faço.”

Antes do anoitecer, a estilista volta com as crianças pra ilha e termina o dia no ateliê anexo à casa. “Dormimos cedo, umas 21h30, 22h, pra começar tudo de novo no dia seguinte.”

Quem via a versão paulistana de Paula e André provavelmente teria dificuldade de imaginar a rotina solar que eles levam hoje. Os dois se conheceram na noite: ela era fã do programa de rádio que ele apresentava, o Garagem, e ia nas festas que ele organizava. Tinham amigos em comum, começaram a namorar. Quando a primeira filha nasceu, André era sócio de uma casa noturna, o Clash; Paula era estilista de alfaiataria feminina da Forum (antes tinha trabalhado com André Lima e Lorenzo Merlino) e vira e mexe saía e voltava do emprego com a filha dormindo. Até que resolveram que a vida em São Paulo já tinha dado o que tinha que dar.

Escolheram Paraty, no litoral do estado do Rio de Janeiro. Primeiro, se mudaram pra cidade; depois, há quase três anos, pra ilha, a meia hora de barco do centro. Ele se dedicou a escrever; ela, ao desenvolvimento de uma marca infantil de decoração e acessórios. “A Orangotango surgiu da minha vontade de fazer algo diferente dentro do universo infantil. Cheguei a procurar peças pro quarto da Nina, mas não gostava de nada. Então resolvi fazer.”

Em Paraty, o negócio ganhou cara local. Os tecidos das peças iniciais foram sendo substituídos por crochê feito por artesãs — “mas não com carinha de crochezinho de velhinha”. “No começo tive relutância, mas vi que seria um caminho interessante pra trabalhar aqui. Juntei a experiência que eu tinha do crochê da minha mãe e da minha avó com o design de moda.”

O resultado são os bonecos de macaquinhos, Fridas, Bowies, unicórnios, astronautas e outros personagens bem humorados que estão à venda online e nas lojas C.A.N.O.A., em Paraty, e A Mini, no shopping Higienópolis, em São Paulo. Grande parte das fotos do Instagram da @orangotangoloja é feita na praia na Ilha do Araújo.

A casa de Paula fica numa ponta da ilha, com mar de um lado e mata do outro. Por uma trilha, chega-se a uma comunidade caiçara de umas 200 famílias, a maioria vivendo da pesca. Não há mercado, farmácia, polícia. Mas há aula de capoeira, e é pra lá que Nina e Noel vão aos sábados. O fim de semana também costuma ter canoagem, nado na mar, pescarias, passeios de barco…

“Sentimos que encontramos nosso lugar nesse mundo. Não sinto falta de jeito nenhum de São Paulo”, diz a estilista, aos 42 anos. “Imagino que as crianças sairão de Paraty, é um movimento comum por aqui. Mas isso já é outra história. Vou pensar depois. Enquanto eles podem estar por perto, vou curtir bastante.”