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54 horas na ilha de Santo, em Vanuatu: um guia pra desaparecer do mapa na terra da felicidade

Por
Adriana Setti
Em
17 outubro, 2019

Sempre no top 5 do ranking Happy Planet Index, que mede a felicidade de uma nação, esta terra de gente que gargalha à toa mal sabe o que é capitalismo, agrotóxico e sacos plásticos (banidos do território, assim como os canudos e as bandejas de isopor). A seguir, um guia para conhecer as praias e piscinas cristalinas da terra da felicidade em 54 horas.

Nunca ouviu falar de Vanuatu? Pois é justamente por isso que você deveria pensar em se mandar pra lá. Espalhado por 83 pedacinhos de terra (65 deles virgens), este país insular habitado por 270 mil sortudos fica longe de tudo – menos de Tuvalu e de Naunonga. Sempre no top 5 do ranking Happy Planet Index, que mede a felicidade de uma nação, esta terra de gente que gargalha à toa mal sabe o que é capitalismo, agrotóxico e sacos plásticos (banidos do território, assim como os canudos e as bandejas de isopor). Satisfeito com um estilo de vida simples, baseado na agricultura de subsistência, só agora esse paraíso do Pacífico Sul – no meio do caminho entre a Papua-Nova Guiné e a Nova Zelândia – está começando a flertar com o turismo. Mas de leve. A maior parte dos visitantes mal vai além de Efate, a ilha principal, e as duas primeiras – e únicas – estradas asfaltadas só ficaram prontas em 2011. Uma delas fica em Espírito Santo, destino nambawan (“number one” em Bislama) para quem ir em busca de sol. A seguir, um guia para conhecer as praias e piscinas cristalinas da terra da felicidade em 54 horas.

DIA 1

18h
Pecado da carne de Santo

O gado da ilha pasta placidamente em campos verdinhos e passa longe de agrotóxico. Por essas e outras, japoneses e australianos gastam os tubos para o garfar o Santo Beef. Um dos poucos produtos que Vanuatu exporta (junto com café do vulcão de Tanna, madeira e coco seco), a carne orgânica local marca presença no menu do Narcosis Bar, no Deco Stop Lodge. Vá no fim da tarde pra tomar uma Vatu gelada curtindo a vista do alto da pequena e pacata Luganville, a capital da ilha e segunda maior cidade do país (depois da capital Port Vila), com 16 mil habitantes.

22h
Boa noite, Cinderela

A noite em Luganville é tão calma quanto um vanuatuense sob o efeito de kava. Feita com a raiz da planta homônima, a bebida é consumida pelos locais como chopp no verão carioca. Usada em rituais religiosos e cerimônias importantes, o goró também rola solto nos Kava Bars, identificados com luz vermelha. Localizados nos arredores da cidades, esses cafofos costumam reunir grupos de homens (pega mal pra mulherada local), mas turistas de todos os gêneros são sempre bem-vindos, desde que consigam fazer o líquido com gosto de terra descer pela goela. Depois de umas duas ou três cuias, você notará a boca amortecida e embarcará num barato sonolento.

Dia 2

RIP marítimo: um passeio pelo que sobrou do SS President Coolidge | Foto: Luxury Escapes

8h
Viagem ao fundo do mar

Boa parte dos que despencam até Luganville tem como prioridade mergulhar no SS President Coolidge. Construído em 1931 como um transatlântico de luxo, o navio teve um triste fim servindo como base de apoio para as tropas americanas no Pacífico durante a Segunda Guerra. Afundado por uma mina em 1942, o barco jaz perto da costa de Espírito Santo e é considerado um dos melhores pontos de mergulho de naufrágio do mundo. Quem tem alma de arqueólogo marinho pira com os potinhos de morfina (ainda cheios!) da antiga enfermaria, os detalhes dos banheiros e as armas em ótimo estado de conservação. Os melhores centros de mergulho da ilha são o Pacific Dive e o Allan Power.

10h
Lixão do Tio Sam

Ao abandonar sua base militar em Espírito Santo, após a Segunda Guerra, o exército americano teve uma ideia bizarra. Na base do “se não é meu, não é de mais ninguém”, os militares jogaram fora tudo o que não conseguiram transportar, evitando que milhões de dólares em equipamentos caíssem nas mãos de franceses e britânicos (que colonizaram o arquipélago numa inusitada parceria). E lá se foram tanques, bombas, caminhões, canhões e outras tranqueiras para o fundo do mar. Conhecido como Million Dollar Point, esse cemitério é outra meca do wreck dive de Vanuatu. Mais raso que o SS President Coolidge, também pode ser explorado com snorkel.

O colorido mercado de Luganville | Foto: Unsplash

12h
Mercadão raiz

Passear pelo mercadão de Luganville rende uma experiência antropológica. É lá que as mulheres locais vendem os poucos excedentes de suas famílias em bonitos cestos de palha, enquanto alternam fofocas e gargalhadas com longas sonecas. Circulando entre essas senhoras de vestidos multicoloridos, você verá os principais ingredientes da dieta vanuatuense, baseada em raízes de vegetais como inhame, taioba e batata-doce (Bela Gil vai curtir). Sente-se em alguma das mesas do edifício laranja anexo ao mercado. De alguma das várias janelas sairá uma carinha feliz perguntando o que você quer. Baratos e honestos, os PFs costumam vir com arroz, raízes cozidas e alguma carne (geralmente frango).

14h
Buraco azul

Cerca de 20 km ao norte de Luganville, você topará com grandes olhos azuis que se abrem em meio à floresta. Os famosos blue holes de Espírito Santo são piscinas naturais formadas pela água doce que emerge de nascentes profundas e, filtrada pela pedra calcária, chega à superfície absolutamente cristalina. Acrescente um raio de sol e o visual chega a dar vertigem. Dá para conhecer os três (Riri, Matavulo e Nanda) numa tarde. Mas, se tiver que escolher um só, vá direto ao Nanda (na foto abaixo), que tem um deque de madeira para lagartear depois de um banho de água fresca.

se tiver que escolher um só, vá direto ao Nanda | Foto: Karin Wassmer/Shutterstock

18h
Drinque com o pé na água

O hotel mais próximo aos blue holes é o Turtle Bay Lodge, que fica de frente para o mar (em um alucinante degradê de azul) numa baía aconchegante. Pode ser uma boa ideia para passar a noite ou só traçar uma lagosta fresquinha no restaurante Salty Dog. O hotel está conectado ao blue hole de Matavulo, aonde dá para ir de caiaque por um rio cristalino.

Dia 3

8h
Novos parâmetros praianos

Ninguém está preparado para a beleza das praias do nordeste de Santo. Diante da meia-lua de areia branca e da água azul radiante, você nem se importará de desembolsar US$ 17 por carro mais US$ 5 por pessoa de entrada à afortunada família que é dona de Champagne Beach (em Vanuatu, é normal ter que pagar para entrar em atrações naturais como praias e cachoeiras). Também vale dar uma passadinha na vizinha Lannoc Beach (gratuita).

Port Olry: a melhor entre as melhores praias | Foto: Rweissawld/iStock

11h
Bem-vindo ao auge

“Tão adorável que chega a ser impossível de descrever”, disse o escritor americano James Michener sobre Santo em Tales of the South Pacific. Ele provavelmente estava falando da praia definitiva da ilha: Port Olry. E se faltaram palavras a esse vencedor do prêmio Pulitzer, como estar à altura dos coqueiros inclinados sobre a areia branca, das ilhotas pontilhando uma baía de água turquesa-neon, ou do istmo de areia que serpenteia meio do mar?

13h
Vida simples

Não há hotéis “de verdade” em Port Olry. Para passar a noite, é preciso aderir ao estilo de vida local, realizando sua fantasia infantil de dormir numa casinha na árvore (em colossais figueiras-de-bengala) ou em bangalôs de madeira com teto de palha. Pilotado por uma família que você vai querer abraçar diariamente, o Chez Louis é a pousadinha mais simpática de Port Olry – no grau máximo do estilo roots. No restaurante, não deixe de provar o peixe mais típico de Vanuatu, o poulet, com o molho secreto da casa, à base de banana.

14h
Quero ser Robinson Crusoe

Ficando hospedado com a família de Louis, você tem livre acesso aos caiaques da casa, com os quais pode pular de ilhota em ilhota, brincando de Robinson Crusoe em praias desertas e ridiculamente perfeitas. Se cansar de remar, coloque uma máscara de mergulho e passe horas flutuando na água morna. A poucos metros da praia há enormes bancadas de corais habitadas por multidões de peixes coloridos e tartarugas.

A pousada Little Paradise: barzinho aconchegante | Foto: Divulgação

18h
Cerveja e raiz

Com energia à base de gerador que vai e vem como a maré, cerveja gelada é ouro em Port Olry. A mais confiável da praia é a do aconchegante barzinho da pousada Little Paradise, que também serve um prato tradicional delicioso, com várias raízes cozidas, molho suave e pedacinhos de peixe na folha de bananeira. No fim de tarde, é lá que os (pouquíssimos) viajantes que dormem nas cabaninhas de Port Olry costumam se reunir.

22h
Luz na escuridão

Depois que todos os geradores se apagam, a escuridão e o silêncio reinam em Port Olry. Aproveite este momento para mergulhar no mar calmo e quentinho. A cada movimento em contato com a água, você alucinará com a bioluminescência, um dos fenômenos mais lindos que a natureza pode produzir.