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Um dândi na boemia: levamos Tai Barbin para tomar uma cerveja de boteco em boteco

Por
Bruno Dieguez
Em
29 outubro, 2019
Em parceria com

“O que importa e servir uma boa experiência para quem está do outro lado do balcão”, diz o premiado mixologista do hotel Fairmont Rio

Tai Barbin está sem barba, vem dando um tempo nas gravatas borboletas e deixou o NOSSO depois de dois anos à frente do bar e restaurante que criou com o chef Bruno Katz em Ipanema. Mudança é algo constante na vida deste paulista criado em Florianópolis e que já viveu em cidades como Brisbane, Edimburgo, Londres e Ibiza. “É superestimulante sair da zona de conforto”, afirmou logo no início da viagem de carro que nos levaria da porta de um hotel cinco estrelas na zona sul carioca ao bairro da Lapa. A ideia era deslocar o mixologista para um outro cenário etílico, diferente daquele contexto em que Tai virou referência – e pelo qual foi premiado como bartender do ano e autor da melhor carta de drinques do Rio. Saem os inspirados coquetéis servidos em um ambiente sofisticado, entra a cerveja gelada no clássico copo americano de botequim. “Todo mundo é igual quando bebe cerveja”, diz. 

Depois de caminhar pelas ruas Riachuelo e Mem de Sá, cogitar jogar sinuca
e observar o movimento em alguns botecos, paramos no primeiro bar da noite, a tradicionalíssima Casa da Cachaça, que funciona no mesmo ponto desde 1960. Apesar dos 200 rótulos da bebida ofertados ali, os clientes sentam nas mesas da calçada para dividir uma garrafa de cerveja e jogar conversa fora. “Sou apaixonado pelo lifestyle do Rio. O carioca vive melhor porque trabalha para viver, e não o contrário”, diz. 

Fotos: Lucas Bori

Ainda que integrado ao hábito, ele destoava no visual. Calça e costume azul–marinhos bem cortados, camisa social branca justa ao corpo, lenço de seda estampado no bolso e sapato preto com fivela, sem meias. O traje harmoniza com ele – “roupa é a pele que a gente escolhe” – e a atual fase da carreira. Tai assumiu a gerência de bebidas do Fairmont Rio, primeira unidade no Brasil da cadeia hoteleira de luxo. O hotel abre no segundo semestre deste ano no Posto 6, onde antes funcionava o Sofitel. Ele está animado com o novo desafio: elaborar uma carta de drinques com a cara do Rio que agrade tanto os locais quanto os turistas de alto padrão. Para tanto, não descarta incluir alguns drinques feitos com cerveja, uma tendência em ascensão, segundo ele. 

Aos 34 anos, Tai Barbin não tem medo de arriscar. “Eu sempre gostei de ser diferente, um outsider. Gosto de quebrar paradigmas”, diz. Por mais que a fina estampa possa aparentar um ar meio elitista, ele sabe circular bem pelas diferentes zonas da cidade e ganhou jogo de cintura para se virar com sagacidade no mercado local. “Eu entendi como o ecossistema do Rio funciona. Me identifico e consigo manter uma visão de fora”, diz. 

Tai adotou a cidade em 2014 e já morou em Botafogo e na Lagoa antes de se instalar no Leblon. Para o mixologista, a boemia aqui tem pegadas que mudam a cada bairro. E ele tem uma preferida. “Botafogo tem uma onda parecida à de Shoreditch, em Londres. É cool de verdade, nasceu em torno da indústria criativa, dos artistas que foram ocupando espaços de aluguel mais barato”, diz.

Nos banquinhos do Bar Rebouças, no Jardim Botânico, a última parada desta noite de botecagem, acharam que Tai era sueco – e ele tem mesmo
pinta de gringo. Mas ele não liga para como tentam enquadrá-lo. Nem sua profissão. Mixologista, barman, tanto faz. “O que importa é servir uma experiência bacana para quem está do outro lado do balcão”, diz. É apenas uma questão de simplicidade, como um bom boteco. 

Fotos: Lucas Bori

É nos botequins da cidade, entre os amigos reunidos em torno de copos de cerveja, petiscos e, com sorte, música boa, que mora a alma da boemia. O pessoal do dominó continua por lá, enquanto novos endereços pipocam pelas ruas do Brasil, provando que dá para se reinventar sem perder a tradição. A Bohemia gelada acompanha, mas o que importa mesmo são os encontros.
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