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54 horas em São Luís: de comida de santo a dunas que ficam a meia hora do centro, dicas fora da rota pela capital do Maranhão

Por
Heitor Flumian
Em
27 novembro, 2019
Em parceria com

A capital maranhense por muito tempo resumiu-se a ponto de parada pra quem ia aos Lençóis. Mas São Luís tem atrativos suficientes – de museus a restaurantes, de passeios a bares – que merecem uma viagem dedicada somente pra ela.

A beleza dos Lençóis Maranhenses, como visto e revisto a cada nova foto, vídeo e reportagem sobre a região, sempre impressiona. Mas não é o suficiente para fazer entender o quase deserto que se forma no centro histórico da capital São Luís, cidade que faz as vezes de principal ponto de partida para o destino. Única cidade brasileira fundada por franceses, seu nome foi uma homenagem dada pelos franceses ao rei da França Luís IX, que também era chamado de São Luís. Uma vez aqui, é comum ouvir dos locais que os viajantes reservam apenas um dia pra dormir na capital do Maranhão e logo seguem rumo ao maior cartão-postal do estado – o que desperta uma sensação estranha, e rara hoje em dia, de felicidade não compartilhada por se estar quase sozinho em um lugar incrível, seja por sua arquitetura ou pelos restaurantes, bares, lojinhas e demais espaços autênticos que se espalham por suas ladeiras. A seguir, um roteiro de 54 horas pra rever os conceitos sobre a cidade e, de quebra, conhecer interessantes passeios ao redor da cidade.

DIA 1

17h
É pop

No coração do centro histórico, ocupando um antigo celeiro, o Mercado das Tulhas reúne dezenas de quiosques que vendem produtos típicos como artesanatos, cachaças, tiquira, licores, temperos e doces. Como todo mercado de rua de uma grande cidade, é um cenário e tanto pra descobrir novos sabores e garimpar um presente original. 

19h30
Every little thing gonna be all right

O título de “Jamaica brasileira” que São Luís carrega foi cravado na década de 80, mas não deixa de ser curioso pensar sobre o tema hoje, ainda mais com as versões dadas para explicar como o reggae caiu no gosto dos locais. Uma delas credita aos marinheiros que chegavam ao porto da capital e pagavam os serviços de prostitutas com discos trazidos do país caribenho. Outra teoria bastante disseminada é a de que foi por meio de ondas de rádio do Caribe nos anos 1970, favorecidas pela proximidade geográfica. Seja como for, há no centro histórico um museu temático, o Museu do Reggae, onde rolam shows do gênero em alguns dias da semana.

20h 
Fonte da juventude

Outro gênero musical bastante apreciado por aqui é o samba. A bela Fonte do Ribeirão (Rua do Ribeirão s/nº), que jorra água em um buraco em pleno centro da cidade, se torna palco de grupos e compositores de samba locais até altas horas. O tradicional Samba na Fonte surgiu com o propósito de preservação do patrimônio histórico e arquitetônico da região.

Duna nas Fronhas Maranhenses: a meia hora do centro de São Luís | Foto: Victor Affaro

DIA 2

9h
Doce é o mar

A 30 quilômetros de São Luís, o município de Raposa é o ponto de partida para ir às Fronhas Maranhenses, espécie de mini-Lençóis, como definida pelos locais, que cabe tranquilamente na programação de quem já conhece o primo mais famoso ou tem pouco tempo na capital maranhense. “É um passeio em que navegamos por áreas protegidas, igarapés, praias bem primitivas e paramos pra caminhar nas dunas de areia”, diz Léo, guia da Jânio Tour, uma das empresas que operam na região. O passeio ainda inclui paradas pra banho em áreas de mangue e observação de aves típicas, como o vistoso guará-vermelho.

13h
Caiu na rede é peixe

Ainda com resquícios do sal do mar pelo corpo, a pedida é almoçar no surpreendente O Capote, restaurante conhecido por seus frutos do mar fresquinhos e pela anchova grelhada, carro-chefe da casa – há, porém, quem prefira a gurijiba cozida. É quase obrigação provar o suco de bacuri: com ou sem leite, é uma dose e tanto de refrescância que pode ser saboreada em uma das redes armadas no quintal do estabelecimento. 

O banquete servido n’O Capote: do mar à mesa | Foto: Ricardo Moreno

15h
Beach, please!

O trajeto de volta a São Luís passa por três das melhores praias da região: Mangue Seco, Araçagy e Praia do Meio. Com extensas faixas de areia e uma calmaria só ameaçada por praticantes de kitesurf, são as melhores opções pra quem não abre mão de aproveitar uma praia como se deve. 

18h
Batuque tuque

Há diversos espaços que recebem apresentações de tambor de crioula, forma de expressão de matriz africana que envolve dança circular, canto e percussão de tambores. Uma das mais concorridas é a que rola na Casa de Tambor de Crioula do Maranhão: a potência das batidas extrapola as janelas do casarão e, não raro, atrai quem perambula nas ruas ao redor. 

20h
É tudo nosso

O paulistano Kadu Vassoler e a paraense Deuza Brabo transformaram um antigo casarão no centro histórico da cidade no centro cultural Re(o)cupa, que é uma verdadeira extensão da rua. Criado pra servir como uma praça, o lugar abriga espaços de leitura, saraus, exposições de artistas locais, shows de bandas independentes, oficinas das mais diversas atividades, rodas de conversa e um cineclube semanal. A cozinha é vegana e os visitantes têm que levar seus copos – é uma forma de estimular a sustentabilidade e evitar o uso de materiais descartáveis. A entrada é gratuita. 

22h
Su casa

Pra provar comidinhas e drinks elaborados, vá ao AcAsa, que tem ambiente e iluminação moderninhos. Na beira do rio Anil, também é indicado como um dos melhores lugares para se estar no pôr do sol. 

Ruínas da igreja matriz em Alcântara: passeio de um dia | Foto: Xeni4ka/iStock

Dia 3

8h
Do lado de lá

Do Cais da Praia Grande, colado ao Centro Histórico, partem cedinho as embarcações para a histórica cidade de Alcântara cruzando a baía de São Marcos – o trajeto dura cerca de uma hora e as saídas (R$ 15 por trecho) variam conforme a maré; vale checar os horários fixados nos guichês na véspera do passeio. Fundada em 1648, já foi uma das mais ricas do estado e hoje preserva antigos casarões, igrejas e ruínas, além de palácios transformados em museus que ajudam a contar parte de sua história, marcada, também, pelo passado escravocrata. As ruas do vilarejo costumam ganhar vida ao entardecer, cenário que é privilégio de quem decide passar a noite.

12h
Artesanato raiz 

Há diversas lojinhas no centro histórico de São Luís e uma das mais interessantes é a Arte Indígena (Rua Humberto de Campos esq. c/ Rua 28 de Julho). É o lugar ideal para comprar artesanatos – destaque para as bolsas e cestos de palha de distintos tamanhos – feitos pelos indígenas da etnia Canela. Não é raro encontrá-los vendendo os próprios produtos pelas ruas.

A cozinheira Leila Oliveira, do Cozinha Ancestral: forma de proteger e cuidar dos orixás | Foto: Victor Affaro

14h 
Para alimentar a alma

Criado como um projeto itinerante pela cozinheira Leila Oliveira e pelo produtor cultural André Lobão, o restaurante Cozinha Ancestral se fixou em um aconchegante espaço no centro histórico há dois anos e, nas palavras da própria Leila, é um lugar que “combina a comida de santo, a indígena e um pouco da mistura das receitas de mãe e avó”. Iniciada no candomblé, ela vê o ato de cozinhar como uma forma de proteger e cuidar dos orixás, o que explica o menu repleto de delícias como a empada com cuxá, queijo de búfala e jambu, e o mangue seco (carne de caranguejo refogada no azeite de coco verde, arroz com tucupi e jambu, farofa com cebola e banana) – há sempre um prato especial fora do cardápio; basta perguntar. Não deixe de provar o axé de fala, bebida de origem afro-indígena feita com ervas, mel de cana, cachaça e cravo. Em dezembro, o restaurante se muda pra uma casa com um amplo quintal que abrigará, além de hortas orgânicas, rodas de conversa, teatro, performances e feiras na Av. Beira Mar, nº 384, no centro. 

16h
Vamo batê perna

Com o sol mais ameno, mas ainda brilhando a ponto de refletir os coloridos azulejos trazidos de Porto e Lisboa que adornam os casarões, é hora de fazer um dos programas mais recomendados: vagar pelas ladeiras do centro histórico. Em meio ao conjunto arquitetônico formado por 3500 construções dos séculos 18 e 19, declarado patrimônio da humanidade em 1997, há preciosidades como o Museu de Artes Visuais, que guarda gravuras da paulista Tarsila do Amaral e uma serigrafia do espanhol Pablo Picasso, além de obras de artistas locais.


Sair da rota. Descobrir endereços que nem sempre estão presentes nos guias de viagem. Locais que entregam experiências diferentes e conectam o viajante com a verdade de cada destino. Aproveite mais e melhor o seu tempo nas principais cidades do Brasil.