Solar People

Com a cabeça nas nuvens e os pés na areia

Por
Fabiana Corrêa
Em
7 abril, 2016

A conversa que deu origem a essa entrevista começou por WhatsApp, de um jeito bem informal, como os cariocas adoram ser. E Amanda é a definição da garota carioca. Sua foto de perfil no aplicativo de mensagens, deixa bem claro que, antes de qualquer coisa, ela é carioca. Um sorriso, um pedacinho da barriga de fora e, ao fundo, o Morro dois Irmãos. Sua marca de roupas, a Amah, segue o mesmo ritmo que a criadora. Carioquíssima e descolada, faz moda para garotas de praia, de corpo e/ou de alma. Sua loja, a Q.Guai (gíria espanhola para “que legal”), localizada numa charmosa casinha em Ipanema, vende roupas, tapiocas, café, arte e encontros. E por tudo isso virou point dos muitos amigos que ela já tinha e dos que ela ainda não tinha, mas acabaram entrando para esse time depois de um cafezinho no balcão. Pudera, a ideia por trás da Q.Guai, descrita no site da loja, é oferecer arte, design e moda, transmitindo o lifestyle carioca. É mais ou menos aquela coisa de passar a manhã na praia de Ipanema, almoçar com os amigos em casa, ali pertinho, e voltar pra ver o pôr do sol no Arpoador. Ou pedalar até a Urca e tomar um chope encostado na mureta do bar. Não por acaso, os programas preferidos da estilista de 37 anos. Nada muito sofisticado mas, ao mesmo tempo, luxo puro.

Há pouco tempo você saiu por aí distribuindo adesivos e uma plaquinha na mão onde se lia Sou Daqui. De onde vem esse orgulho de ser carioca?
O Rio é maravilhoso (risos). Apesar de todas as crises, de todas as coisas ruins que acontecem aqui, temos que lembrar de como a cidade é incrível. E, às vezes, a autoestima das pessoas começa a baixar por ver coisas tão chatas acontecendo, mas eu quis lembrar que a gente também tem muito o que agradecer, tem gente bacana, tem a própria beleza da cidade. Foi um pequeno movimento: envolvi meus amigos e os amigos de amigos, minha marca, botei plaquinhas espalhadas por aí, e compartilhamos coisas com essa hashtag. É algo em que eu acredito: não podemos esquecer tudo o que temos de bom.

O Sou Daqui também tem a ver com a roupa da Q.Guai, certo?
Sim, eu quis valorizar nosso trabalho. Eu faço roupa no Brasil, invisto no pessoal daqui, não fabrico nada na China, na Indonésia, minha roupa é 100% brasileira e 100% carioca. Acredito que precisamos investir na nossa mão-de-obra, no nosso trabalho, em uma produção mais consciente, que não usa trabalho escravo. Isso precisa ter valor para que outras pessoas queiram tomar esse caminho. Agora estou criando uma maneira de mostrar aos clientes quem são as costureiras que fazem as nossas roupas, o trabalho delas, onde vivem… Quero valorizar o trabalho brasileiro. Tem roupa mais barata por aí, mas que é feita em condições de trabalho horríveis. Não é o caso das nossas.

Esse não é o único aspecto social da Q.Guai. Você acabou criando um espaço para novos artistas exporem na loja. De onde veio essa motivação?
Foi há dois anos, quando minha antiga sócia saiu e eu mudei a marca. Entrou a Marta [Frexes, sócia da loja] e injetamos juventude, ideias bacanas, e também realizei um sonho antigo de fazer da loja um espaço multifuncional. Agora tem um café, uma galeria de arte… Eu já tinha visto isso em outras parte do mundo. E a motivação foi essa mesmo: reunir gente, ideias, promover encontros.

Como você escolhe os artistas que expõem aqui?
Eu e minha sócia fazemos a curadoria justamente com gente que ainda não tem muito espaço no mercado de arte. Tem gente que manda e-mail, a gente vê o trabalho e acaba expondo. Outros são novos artistas que me recomendaram, mas que ainda não são conhecidos, ainda que muito bons. E também sempre procuramos alternar de tudo. Tem fotografia, tem tela, tem grafite e arte urbana em geral. Eu tento sempre intercalar para apresentar um pouco de tudo pras pessoas que circulam em torno da Q.Guai. Tem a Di Couto, que faz umas colagens incríveis, tem o Felipe Guga, que é mais ilustração, a Ingrid Bittar, que eu adoro, também faz colagens, a Bel Petri… Enfim, nosso critério é mostrar coisa boa. E assim a gente acaba reunindo uma turma muito legal, além dos próprios artistas, de quem eu virei fã.

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Você leva essas obras pra casa? Como é sua relação com arte?
Eu levo praticamente tudo pra casa! Compro muito nas nossas exposições, já nem tenho onde colocar. Quero prestigiar e adoro o que eles mostram.

A moda, o café e a arte acabaram formando uma comunidade em torno da loja. Você consegue aproveitar esse fluxo?
Super. Estou aqui falando com você e cumprimentando as pessoas, ouvindo, trocando. Sempre tem alguém passando, um amigo que para pra tomar um café, um cliente que vira amigo. Não é um lugar onde as pessoas vêm só pra comprar. Tem uma coisa a mais, virou um ponto de encontro. Até compram, mas é uma consequência de ter passado pra tomar um cafezinho… (risos).

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Sua casa é assim também, aberta pra quem passa?
Muito, e eu adoro isso. Além do mais, tenho cada vez mais preguiça de sair para a rua. Acabei fazendo meio que um clube lá, que eu chamo de laje, e vira e mexe está lotado de amigos. Tenho uma churrasqueira, um gramado, ponho aquela piscina inflável e vira uma farra. Depois da praia, é pra lá que a gente vai. Só saímos para ver o pôr do sol no Arpoador ou pra pedalar até a Urca e tomar um chopinho na mureta do bar Urca.

É nisso que você se inspira na hora de criar suas coleções?
Minha marca é totalmente descontraída. E quem vem aqui são as meninas cariocas, a gente acabou dirigindo as peças pra umas mulheres bem jovens, em torno de 20 anos. Mas vêm também muitas mulheres mais velhas, superanimadas, que levam os mesmos maiôs que as garotas! Acho isso legal, democrático. Todo mundo me fala pra abrir lojas em outros lugares, tipo São Paulo, mas eu fico com um certo receio porque é outro estilo, não sei se vai colar. Por outro lado, temos muitas clientes de fora do Brasil, que pedem para comprar pelo e-commerce, mas não conseguimos esse esquema ainda. Por isso a ideia é fazer uma pop-up store em Portugal no verão de lá. Temos muitas clientes portuguesas.

Você vai trocar o Rio por Lisboa?
Só por um verão… O de lá! O ideal seria passar o inverno lá e o resto do ano aqui, porque no Rio é verão o ano todo mesmo.

E por quais lugares você trocaria a sua cidade, mesmo que por umas férias?
No momento, minhas viagens do desejo são para a Ásia. Penso em Japão e Tailândia.

Tirando a praia, quais são os melhores programas do Rio?
Eu adoro cachoeira. E têm algumas pertinho de casa, como no Horto. E adoro sair pra beber, tomar um drinque. Tem um restaurante no Arpoador, o Temporada, o antigo Azul Marinho, que é de um amigo. Vivo lá. De resto, correr no calçadão, andar de bicicleta pela orla até o Leme, dar a volta na Lagoa. Tudo no Rio é bom.

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Você vem de uma família tradicional carioca, mas parece não dar muita bola pra esse negócio de sobrenome…
Pois é, tem isso, mas nunca liguei muito pra essas coisas. Sou família, mas não fico falando da família. Mesmo porque me fiz sozinha. Fui estudar Belas Artes em Barcelona e comecei fazendo roupa com uma sócia, a Maria do Rosário, que conheci lá. Montamos um ateliê na casa da minha avó, em Ipanema, vendendo pra amigos. Aí abrimos a primeira loja há doze anos, em um prediozinho na Gávea, onde tinha um monte de gente legal ocupando outros andares. A Reserva começou lá, a Isabela Capeto também… Só gente legal. E foi crescendo até que tivemos que mudar pra cá, pra Ipanema, com a primeira loja de rua. Fiz minha história, independentemente do sobrenome. Não tenho nada de filhinha de papai.

Você é estilista, mas faz curadoria das exposições também, cuida da loja, faz de tudo… Onde você se encontra mais?
Gosto de fazer várias coisas, mas essa parte de criar é muito boa. Me dá prazer fazer moda praia. Ultimamente, estou adorando essa parte. E a moda brasileira de praia, que é novidade porque estou fazendo faz menos tempo, é referência no mundo todo. Quando pesquiso como é em outros países, vejo o quanto a nossa é bacana. É cool, sem muito frufru. A Amah, a marca de roupas femininas da Q.Guai, é minimalista mas ao mesmo tempo muito feminina. Não é à toa que tem gente de vários países querendo comprar.

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Você faz uma moda carioca. Seu estilo vai na mesma onda?
Adoro cores e branco. Preto eu uso cada vez menos. Adoro acessórios, brincão, colar. Gosto de fazer a seleção dos acessórios da Q.Guai. E por conta disso sempre fico com alguma coisa. Mas sou despojada. Nada de salto, nada muito arrumado. Sou mais solar mesmo, adoro vestidos, saia curta. Não sou sofisticada. Aquele falso desarrumado, sabe? Que parece que você nem ia, mas de repente foi…(risos). E também gosto de estar sempre bronzeada, adoro tomar sol. Eu sou daqui, né. Sou 100% carioca!

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